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Delito de Opinião

O sal da terra

Romances e política III: AS VINHAS DA IRA (1939)

Pedro Correia, 21.01.22

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Poucos livros como este ilustram de forma tão credível e lapidar a pobreza extrema - assunto que costuma estar arredado da grande literatura. John Steinbeck não se limita a descrever paisagens agrestes povoadas de gente disposta a recomeçar do zero na América rural dos anos 30, em jeito de reportagem impressiva e pungente: coloca estes pobres concretos no patamar das figuras de recorte universal.

Trabalhadores agrícolas há incontáveis gerações, são eles o «sal da terra», para usar uma expressão bíblica. E tornam-se protagonistas políticos a partir do momento em que adquirem consciência da sua força potencial nas circunstâncias mais adversas, quando um homem valia menos do que um cavalo no mercado laboral. Ao combate pela sobrevivência sucede-se a luta por um salário digno, disputado ao cêntimo pela mão-de-obra exangue num cenário em que a oferta de emprego excede largamente a procura.

Como aprende Tom Joad, romeiro no asfalto do Oklahoma à Califórnia naqueles dias áridos da Grande Depressão, ao descobrir-se como sucessor dos hebreus antigos num novo Êxodo em busca de um lugar ao sol que lhe garanta o sustento básico: «Dois valem mais do que um, porque ambos terão maior recompensa pelo seu trabalho. E se um cair, o outro erguerá o companheiro. Mas ai do que estiver só, pois quando cair não terá ninguém junto de si disposto a levantá-lo.»

São poucos os livros que, como este, conseguem transmitir-nos de forma fidedigna a sensação física de fome que atinge todos os membros da família Joad nesta odisseia quilométrica. À mercê da feroz inclemência da natureza e vítimas da devastadora prepotência humana. Mas sem nunca desistirem de sonhar. 

Romance justamente distinguido com o Pulitzer, As Vinhas da Ira é um fabuloso mosaico de uma América em transição. A América suja do pó da estrada, que caiu na berma mas ousa erguer-se em resposta a uma voz de comando que vem do mais fundo de si própria.

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