De Vento a 22.10.2016 às 22:36
Não concordo com o Luís, mas respeito os seus gostos. Contudo, a sua interpretação sobre literatura fez-me consultar a 11ª edição da História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar lopes, que transcrevo da pág 45 a parte da 46:
"Os Cancioneiros primitivos.
— Quase todas as literaturas se iniciam por obras em verso. Exceptuando as novas nacionalidades resultantes da emigração de Europeus a partir do século XVI, a poesia surge mais cedo do que a prosa literária. Não é difícil explicar este facto: nas civilizações do passado, a mais corrente forma de comunicação e de transmissão da obra literária não é escrita, mas oral. Antes de se fixarem no bronze, na pedra, no papiro, no papel ou no pergaminho, as histórias, as narrativas, e até os códigos morais e jurídicos gravavam-se na memória dos ouvintes; e havia artistas que se encarregavam de as divulgar, os aedos e rapsodos entre os Gregos, os bardos entre a Celtas, os jograis entre os povos românicos medievais. O verso é, inicialmente, entre outras coisas, uma forma de ritmar a fala que facilita a memória, quer esse ritmo se baseie em esquemas de contraste quanto à duração das sílabas (caso do verso greco-latino), quer em esquemas de contraste de intensidade silábica reforçados por aliterações (caso da poesia germânica), quer no isossilabismo, isto é, na regularidade quanto ao número de sílabas reforçada pela rima (caso das literaturas românicas medievais), quer ainda noutras componentes fonéticas. Vestígios desta literatura oral são ainda hoje os provérbios que, como facilmente se verifica, obedecem a ritmos ou recorrências fónicas de fácil fixação. As literaturas românicas medievais nasceram, como já notámos, da literatura oral, cujos principais agentes eram os jograis, também chamados segréis na Península, embora, por via clerical, desde logo assimilem certos temas e lugares-comuns retóricos de tradição greco-romana.
Os mais antigos textos literários em língua portuguesa são composições em verso coligidas em Cancioneiros de fins do século XIII e do século XIV, algumas das quais remontarão a fins do século XII. Mas devemos supor muito anterior a tal época o culto da poesia testemunhado por estes textos escritos. A literatura oral, com efeito, só se fixa por escrito em época tardia da sua evolução, quando as condições ambientes já divergem muito daquelas que lhe deram origem. Portanto seria errado pensar que a poesia portuguesa nasceu com os Cancioneiros; estes não passam de colecções, mais ou menos tardias, de textos que de início circulariam em cópias mais restritas.
Uma parte, pelo menos, da poesia conservada pelos Cancioneiros supõe um longo passado e uma tradição oral que nos levam a épocas muito mais remotas do que aquelas em que se compuseram os mais antigos poemas dos Cancioneiros, datados, como vimos, de fins do século XII.".
Os tempos podem ter mudado, mas a literatura continua a ter raízes que podem e devem ser respeitadas. Continuamos a ler e a respeitar os antigos, mesmo quando já se adicionou e complementou muito às suas obras. Respeitar tais origens é fundamental para as artes. Claro que o teu argumento continua a ter validade, mesmo que se mantenha a lógica de respeito ao passado.
O meu ponto é outro: sem considerações à qualidade da voz poética de Dylan, porque razão não haveríamos de considerar um cantor para o prémio? Se bem me lembro, Dylan nem sequer publica em papel apenas as suas canções, mas também poemas não musicados (ou pelo menos não publicados em música). Já houve vencedores jornalistas, diplomatas ou directores de teatro. Será necessário que sejam escritores a tempo inteiro? Ou que as suas profissões façam parte de uma lista desconhecida?
Por fim: quais os merecedores na tua opinião? Leste as obras (ou algo de representativo) de todos os vencedores? Eu posso dizer que não (e sentir-me-ia incapaz de fazer uma comparação qualificada). Nos últimos anos houve nomes como Modiano, Pamuk, Coetzee, Naipul, Grass ou Po, cujos nomes já vi elogiados em muitos círculos apolíticos (destes li algumas coisas de Pamuk, Coetzee e Grass).
E do passado? Quantos mereceram o prémio? Sabemos nomes que injustamente nunca venceram, mas quais os nomes consensuais que venceram?
Critica à vontade o mérito de Dylan, mas pessoalmente considero um erro fazê-lo por ele ser um cantor. Isso não deveria ser a razão para as críticas.