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O ridículo do Nobel.

por Luís Menezes Leitão, em 22.10.16

Já tinha escrito aqui o que pensava do disparate da atribuição do Nobel a Bob Dylan. Agora o único autor que de facto deve ter merecido o prémio nos últimos vinte anos, Vargas Llosa, veio criticar a escolha e perguntar se da próxima vez dão o prémio a um futebolista? Acho de facto que a pergunta faz todo o sentido, uma vez que pelo mesmo critério de escolha de Bob Dylan, até as frases de Jorge Valdano poderiam aspirar a um Nobel.

 

Bob Dylan é um excelente autor de canções, mas não é comparável a qualquer escritor a sério. Nunca os textos das suas canções recolhidos em livro podem sequer ser comparados às extraordinárias obras de Vargas Llosa, como A Festa do Chibo, A Guerra do Fim do Mundo, O sonho do Celta ou mesmo até o último Cinco Esquinas. O problema é que muitas pessoas endeusam os cantores da sua juventude e fazem tudo para os premiar, caindo no ridículo. O critério que fez o júri sueco premiar Bob Dylan é o mesmo que fez o Presidente Jorge Sampaio condecorar os U2 com a Ordem da Liberdade: homenagem em saudosismo pela juventude perdida. É também a mesma coisa que faz Marcelo evocar a sua juventude para aplaudir oficialmente a atribuição deste prémio Nobel, e insistir em ver Fidel Castro ao vivo quando se deslocar a Cuba.

 

A questão é que os próprios homenageados também acham ridícula a homenagem. Os U2 foram ao Palácio de Belém receber a condecoração vestidos informalmente e Bob Dylan nem sequer se dá ao trabalho de atender o telefone ao júri sueco, quanto mais deslocar-se a Estocolmo para receber o prémio. Fidel Castro é também capaz de receber Marcelo em fato de treino enquanto aguarda pela enfermeira para os tratamentos matinais. Se há coisa que pessoas em funções de responsabilidade nunca podem perder é a noção do ridículo. Infelizmente esta gente há muito que a perdeu.  


12 comentários

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De xico a 22.10.2016 às 13:32

Não me parece que ninguém quer comparar a poesia de Bob Dylan à obra de Llosa. Mas e compara-la à obra de Alice Munro, Svetlana Alexijevich, Patrick Modiano, Mo Yan, Tomas Tranströmer? Porque será que me parece que o problema de Dylan não é a sua obra escrita mas o facto de ser cantor pop, situar-se na margem, e não obedecer aos critérios de uma certa intelectualidade? E depois dizem que dessem o prémio à sua música. Bob Dylan é um mau músico ou nem sequer é um músico na verdadeira acepção da palavra. É um baladeiro que canta os seus magníficos poemas. James Joyce foi cantor e pianista de taberna. Será que foi por isso que nunca lhe deram o Nobel? Se calhar foi porque nunca o conseguiram ler. Agora até foi traduzido para português por um cantor de ópera, vejam lá ao que isto chegou. E o Kafka? Foi por ser agente de seguros? Se Llosa fosse futebolista ninguém aceitaria que ganhasse o prémio Nobel e estaríamos agora a falar do ridículo de dar um prémio a um futebolista, porque ninguém se teria dado ao trabalho de o ler.
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De lucklucky a 22.10.2016 às 14:15

Demonstra o estado doente de Portugal, o estado ainda mais doente de certa Direita que o Presidente queira ver um ditador assassino Comunista que provocou mais de 1 milhões de refugiados e centena de milhar de mortos...

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De Anónimo a 22.10.2016 às 14:24

Ridículo é dizer que nos últimos 20 anos apenas Vargas Llosa mereceu receber o Nobel - por acaso leu os outros 19?
Ridículo é não conhecer o obra poética de Dylan e a influência que ela teve e continua a ter.
Ridículo é "meter ao barulho" Sampaio, U2, Marcelo, Fidel e as fatiotas de quem recebe prémios ou visitas de estado.
Verdadeiramente ridículo!
Vá mas é pôr a leitura em dia.
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De Cristina Torrão a 22.10.2016 às 14:47

Vargas Llosa o «único autor que de facto deve ter merecido o prémio nos últimos vinte anos»? Desculpe, mas duvido.

Além disso, acho que Vargas Llosa, com esta afirmação, se revelou muito arrogante. Não lhe bastava dizer que, na sua opinião, Dylan não merecia o Prémio?
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De Anónimo a 22.10.2016 às 18:56

As opiniões de Luis Menezes Leitão parecem-me (mas podem não ser) um bocado forçadas. Esta sobre Dylan faz-me lembrar a outra sobre a Kristalina e Guterres (sobretudo o seu tom categórico).
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De am a 22.10.2016 às 22:21

O "nosso" , dá o c* e três testões para ficar nas boas graças da esquerda portuguesa (e não só). Quem nos diz que na volta de Cuba, não aproveite para dar um abraço ao camarada Maduro?
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De Vento a 22.10.2016 às 22:36

Não concordo com o Luís, mas respeito os seus gostos. Contudo, a sua interpretação sobre literatura fez-me consultar a 11ª edição da História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar lopes, que transcrevo da pág 45 a parte da 46:

"Os Cancioneiros primitivos.
— Quase todas as literaturas se iniciam por obras em verso. Exceptuando as novas nacionalidades resultantes da emigra­ção de Europeus a partir do século XVI, a poesia surge mais cedo do que a prosa literária. Não é difícil explicar este facto: nas civilizações do passado, a mais corrente forma de comunicação e de transmissão da obra literária não é escrita, mas oral. Antes de se fixarem no bronze, na pedra, no papiro, no papel ou no pergaminho, as histórias, as narrativas, e até os códigos morais e jurídicos gravavam-se na memória dos ouvintes; e havia artistas que se encarregavam de as divulgar, os aedos e rapsodos entre os Gregos, os bardos entre a Celtas, os jograis entre os povos românicos medievais. O verso é, inicialmente, entre outras coisas, uma forma de ritmar a fala que facilita a memória, quer esse ritmo se baseie em esquemas de contraste quanto à duração das sílabas (caso do verso greco-latino), quer em esquemas de contraste de intensidade silábica reforçados por aliterações (caso da poesia germânica), quer no isossilabismo, isto é, na regularidade quanto ao número de sílabas reforçada pela rima (caso das litera­turas românicas medievais), quer ainda noutras componentes fonéticas. Vestígios desta literatura oral são ainda hoje os provérbios que, como facilmente se verifica, obedecem a ritmos ou recorrências fónicas de fácil fixação. As literaturas românicas medievais nasceram, como já notámos, da literatura oral, cujos principais agentes eram os jograis, também chamados segréis na Península, embora, por via clerical, desde logo assimilem certos temas e lugares-comuns retóricos de tradição greco-romana.

Os mais antigos textos literários em língua portuguesa são composições em verso coligidas em Cancioneiros de fins do século XIII e do século XIV, algumas das quais remontarão a fins do século XII. Mas devemos supor muito anterior a tal época o culto da poesia testemunhado por estes textos escritos. A literatura oral, com efeito, só se fixa por escrito em época tardia da sua evolução, quando as condições ambientes já divergem muito daquelas que lhe deram origem. Portanto seria errado pensar que a poesia portuguesa nasceu com os Cancioneiros; estes não passam de colecções, mais ou menos tardias, de textos que de início circulariam em cópias mais restritas.

Uma parte, pelo menos, da poesia conservada pelos Cancioneiros supõe um longo passado e uma tradição oral que nos levam a épocas muito mais remotas do que aquelas em que se compuseram os mais antigos poemas dos Cancioneiros, datados, como vimos, de fins do século XII.".
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De Luís Menezes Leitão a 23.10.2016 às 07:58

Estamos no início do séc. XXI e não no fim do séc. XII. A literatura evoluiu muito desde esses tempos. "The times they are a-changin'". Não sei se em Estocolmo já perceberam isso. Se não perceberam, é melhor entregar a decisão a outro júri, que este manifestamente nada percebe do assunto.
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De Anónimo a 23.10.2016 às 10:51

Evidentemente.
Poderiam convidá-lo a si para membro do júri, por exemplo.
E a decisão seria sábia, certamente.
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De Vento a 23.10.2016 às 12:21

O meu comentário não pretendia traduzir uma crítica favorável ou desfavorável à decisão do júri.
Simplesmente pretendi realçar que Dylan produziu uma obra literária que transformou em canção.
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De João André a 24.10.2016 às 16:54

Os tempos podem ter mudado, mas a literatura continua a ter raízes que podem e devem ser respeitadas. Continuamos a ler e a respeitar os antigos, mesmo quando já se adicionou e complementou muito às suas obras. Respeitar tais origens é fundamental para as artes. Claro que o teu argumento continua a ter validade, mesmo que se mantenha a lógica de respeito ao passado.

O meu ponto é outro: sem considerações à qualidade da voz poética de Dylan, porque razão não haveríamos de considerar um cantor para o prémio? Se bem me lembro, Dylan nem sequer publica em papel apenas as suas canções, mas também poemas não musicados (ou pelo menos não publicados em música). Já houve vencedores jornalistas, diplomatas ou directores de teatro. Será necessário que sejam escritores a tempo inteiro? Ou que as suas profissões façam parte de uma lista desconhecida?

Por fim: quais os merecedores na tua opinião? Leste as obras (ou algo de representativo) de todos os vencedores? Eu posso dizer que não (e sentir-me-ia incapaz de fazer uma comparação qualificada). Nos últimos anos houve nomes como Modiano, Pamuk, Coetzee, Naipul, Grass ou Po, cujos nomes já vi elogiados em muitos círculos apolíticos (destes li algumas coisas de Pamuk, Coetzee e Grass).

E do passado? Quantos mereceram o prémio? Sabemos nomes que injustamente nunca venceram, mas quais os nomes consensuais que venceram?

Critica à vontade o mérito de Dylan, mas pessoalmente considero um erro fazê-lo por ele ser um cantor. Isso não deveria ser a razão para as críticas.
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De José Lima a 23.10.2016 às 21:34

Até que enfim que alguém afirma que o rei vai nu! Como escreveu George Orwell - mais um escritor notável que nunca recebeu o Nobel - "dizer a verdade em tempos de mentira universal é um acto revolucionário!"

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