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O regulador da democracia

por Inês Pedrosa, em 08.01.17

1º Maio 1975.jpg

 

O regulador da democracia

 

         O que irreversivelmente se perde com a idade é a fé nas pessoas. O peso das decepções rasga-nos as asas e torce-nos a perspectiva. Passada a fase da inocência bruta em que dividimos o mundo em bons e maus, entramos numa zona de nevoeiro. Habituamo-nos depressa a ela porque, bem vistas as coisas, é confortável: a mistura entre o bem e o mal pode ser amarga e complicada, mas poupa-nos a má-consciência e o remorso. Sem darmos por isso, tornamo-nos desconfiados, pensando que deste modo nos defenderemos melhor das armadilhas da vida. Essa defesa é a verdadeira armadilha; tira-nos o gozo de viver, que é o da partilha, impossível sem confiança.

Conheci demasiadas pessoas que morreram sozinhas – sobretudo mulheres – porque não aceitavam ninguém perto delas: começaram por desconfiar dos amigos, depois da família, depois de qualquer mortal. Tenho um amigo que costuma dizer: «cada vez gosto mais de menos gente». O António Alçada Baptista, que teria feito 85 anos no passado dia 29, dizia que há uma tribo que se reconhece pelo gesto e pelo olhar. E dizia outra coisa muito importante: que as pessoas se dividem entre as que preferem, em qualquer circunstância, a liberdade – e as outras, maioritárias, que escolhem a segurança. Dizia-me que a razão da sua amizade profunda e indefectível por Mário Soares era essa: Soares sempre escolhera a liberdade – e escolhera-a quando essa escolha, mais do que difícil (como sempre é) era perigosa e implicava uma coragem invulgar.

A democracia portuguesa deve muito a Mário Soares; independentemente de aproximações partidárias, penso que só os que ainda acreditam na bondade das ditaduras do proletariado não serão capazes de o reconhecer. Podemos discordar dos seus pontos de vista sobre este ou aquele tema, mas é impossível não lhe reconhecer uma sabedoria política e uma argúcia inultrapassáveis.

Há sete anos discordei da sua terceira candidatura à Presidência da República pensando que a democracia exigia mudança nos cargos de poder, renovação. Mas o panorama das figuras políticas é hoje tão desolador que já não consigo pensar assim. Não é uma questão de idade: aos 50 anos Soares conseguiu impedir a guerra civil em Portugal, estabelecer no país uma democracia ocidental e integrar Portugal na Comunidade Europeia. O ensaio «autobiográfico, político e ideológico» que publicou recentemente (Mário Soares – um político assume-se – edição Temas e Debates/ Círculo de Leitores) reclama o primado da política e a sua dignificação, lembrando essa coisa básica e esquecida: a economia é uma ciência ao serviço das pessoas, não um Deus ao qual as populações devam ser imoladas.

Numa entrevista concedida a Paula Moura Pinheiro, na RTP-2, Soares explicou como aproveitou o tempo de prisão para ler, ler muito, ler continuamente – e não apenas ensaios políticos, mas romances, através dos quais ampliou o seu conhecimento da existência humana. E disse que não se pode ser um bom político sem se ler muito. A leitura afinou-lhe a inteligência e aguçou-lhe a inocência, sem a qual ninguém pode ser livre nem coisa nenhuma que valha: assim, diz tranquilamente que o problema da direita americana é que «está cheia de gente de má qualidade». É importante manter o fio dos ideais e saber distinguir a qualidade das pessoas.

Há tanta entidade reguladora de coisa nenhuma. No estado actual do país, devíamos criar para Mário Soares o lugar de regulador da democracia. Ele saberia negociar com Angela Merkel e com as troikas. Talvez até conseguisse injectar um litro de bom senso neste governo que dispensa o Carnaval.

 

 ( crónica publicada a 10.2.2012 no semanário Sol

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21 comentários

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De Vento a 08.01.2017 às 23:58

Sabe, Inês, aquilo que gera grandes angústias à humanidade é o facto de não perceber que pode beber-se do mesmo vinho mas não necessariamente pelo mesmo cálice.
A humanidade sofre de um grande complexo. A esta patologia dou-lhe o nome de complexo da árvore: Pensamos que as outras árvores crescem à nossa sombra.

A confusão em torno da economia reside no facto de pensarmos que esta é uma ciência. A economia não é uma ciência, é um método.
Por se pensar que esta é uma ciência, verificamos que afinal temos cientistas falhados.
Enquanto método, a economia é via ou caminho para a realização de algo. Aliás, é este o significado de "methodus", do latim; enquanto ciência, como soa dizer-se há alguns anos, não passa de uma presunção e veleidade típica de quem pensa ser académico.

Significa isto que o método, para ter sucesso, não pode estar circunscrito a fórmulas pseudo-académicas ou pseudo-científicas.

Fui buscar a economia para revelar-lhe que a vida não é uma ciência, também é um método. E a via ou caminho para a realização de algo também passa pelo desapontamento e pelo sofrimento. Não adianta perguntar porquê, mas para quê.
Os porquês dizem respeito à pseudociência, que anda nas mãos de infantes. O para quê diz respeito ao método, para quem pretende continuar na via ou caminho da realização de algo.

Pretendi chegar aqui para concluir que também hoje as sombras que impedem o crescimento das árvores tem o nome de cientistas. Na vida é necessário pessoa emancipadas, que colham os frutos de suas experiências e não dos outros.
Perguntar-me-á sobre o método. Responder-lhe-ei: keep walking.
Está a reparar como sou bom em literatura estrangeira?

A liberdade não é transmissível; ou se nasce livre ou não se nasce livre.
Soares mostrou que nasceu livre. Eu também. A liberdade que possuo conquistei-a, não a devo a pessoa alguma. Mas também sofro.
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De Inês Pedrosa a 09.01.2017 às 00:09

Soares agradeceu o caminho que fez a todos os que o educaram, instruíram, apoiaram ou contrariaram. Como ele, entendo que a liberdade é um caminho, que ninguém nasce pronto ou ensinado, e que a gratidão é uma dimensão fundamental da existência humana. Desconfio muito de quem não quer dever nada a ninguém, e se acha uma maravilha solitária.
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De Vento a 09.01.2017 às 00:14

A liberdade não se ensina: deseja-se. O conhecimento é outra coisa: procura-se. Este, sim, é transmissível.
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De Inês Pedrosa a 09.01.2017 às 00:34

Sem liberdade não há conhecimento, e a liberdade é uma aprendizagem permanente. Boa noite e bons sonhos.
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De Anónimo a 09.01.2017 às 10:03

"Sem liberdade não há conhecimento, " Primus vivere deinde philosofare.
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De Inês Pedrosa a 09.01.2017 às 20:15

Primum vivere deinde philosophari - citação que T***p não desdenharia, se soubesse latim, mas que a mim não me serve, obrigada.
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De Vento a 09.01.2017 às 11:34

Os seus sonhos de liberdade, na minha óptica, são muito limitados. Todavia compreendo que há quem precise de "heranças" para ser livre. Soares não precisou de heranças. Ele foi livre; e através do conhecimento que buscou, tanto quanto lhe foi possível, aperfeiçoou a sua liberdade.
Faça o mesmo sem esperar pelo guarda-chuva de um regulador. Não se vive a liberdade à sombra.
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De Inês Pedrosa a 09.01.2017 às 20:10

Não aceito instruções sobre liberdade nem abdico dos meus princípios.
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De Vento a 09.01.2017 às 20:28

Para quem pretende dar instruções também tem de aprender a ler o que os outros não necessitam para ser livres. Os princípios, como refere, são seus.

Ser livre é uma condição. A liberdade já requer muito, mas muito mesmo, conhecimento para ser entendida e vivida.
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De Inês Pedrosa a 09.01.2017 às 20:31

Como eu já aqui disse anteriormente, sem conhecimento não há liberdade, claro.
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De Vento a 09.01.2017 às 20:45

"A liberdade não é transmissível; ou se nasce livre ou não se nasce livre.
Soares mostrou que nasceu livre. Eu também. A liberdade que possuo conquistei-a, não a devo a pessoa alguma. Mas também sofro.".

Eu terminei o meu 1º. comentário conforme cito acima.
A premissa para se viver a liberdade é sentir-se livre. A distinção que fiz situa-se na diferença entre a condição, ser livre, e o trabalho que se desenvolve para respeitar a liberdade de todos.

Eu sou daqueles que penso que quem diz que a liberdade termina onde começa a do outro é treta. A minha noção de liberdade, enquanto ser livre, amplia-se na do outro. Mas isto requer muito, mas muito mesmo, conhecimento. Falta-me muito mais conhecimento àquele que julgo ter. Mas isto é bom. Estimula-me.
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De Charrua a 09.01.2017 às 21:24

Tretas. A liberdade tendo em vista a liberdade do outro é, ou servidão, ou despotismo (a minha liberdade é que a verdadeira liberdade).
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De Vento a 09.01.2017 às 22:58

Quando tiver alguém a impedir a sua liberdade, compreenderá que na relação entre o forte e o fraco é essa liberdade que oprime.
Portanto, também escrevo sobre a outra vertente da liberdade.

Quer vir dizer em que ficamos?
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De Charrua a 09.01.2017 às 21:20

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

De o " Grande Tal"

Não há Liberdade tão contente como a da Santíssima Ignorância.
A Liberdade do conhecimento é chorosa. Uma liberdade azul, muitas vezes apenas achada na lâmina ou num copo de tinto. No fundo, apenas encontrada no esquecimento de si.
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De Charrua a 09.01.2017 às 21:10

Há também liberdade na santa ignorância. A liberdade da ceifeira vislumbrada por Pessoa.
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De Charrua a 09.01.2017 às 21:14

Ser livre é uma condição de espirito. Não muito distante do se sentir belo sem o ser. Ser livre é muitas vezes uma questão de espelho. Ou melhor, da falta dele.
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De Lucilio a 09.01.2017 às 21:12

Refere-se á herança de Séneca, que para ser livre necessitava de escravos. A Liberdade muitas vezes encosta-se à servidão dos que não podem ser Livres.
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De lucklucky a 09.01.2017 às 07:36

No Delito nem uma referência a um livro que esgotou num dia e mesmo assim não foi reeditado.

O que demostra bem o Medo e Opressão que existe na "Liberdade" de Mário Soares.

A autora como é obvio confunde Liberdade com Democracia.
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De Inês Pedrosa a 09.01.2017 às 20:11

Pior seria se confundisse liberdade com ditadura. Não se aflija.
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De Charrua a 09.01.2017 às 21:26

E existem muitos outros livros que foram editados e não o deveriam ser

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