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O regresso da Sublime Porta.

por Luís Menezes Leitão, em 11.11.16

Na sua obra The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order, de 1996, Samuel P. Huntington previu claramente o risco de uma guerra no séc. XXI em virtude do afrontar das civilizações, de que o Ressurgimento Islâmico estava a ser o factor decisivo. Curiosamente deixava de fora desse Ressurgimento Islâmico a Turquia. Para ele a Turquia, desde que Ataturk a tinha laicizado e abandonado o alfabeto islâmico em benefício do latino, constituía um Estado dilacerado, que tinha destruído o seu próprio passado e consequentemente a sua civilização. Na verdade, o Estado Turco não se via como herdeiro do Império Otomano e, ao adoptar um novo alfabeto, impedia as novas gerações de conhecer todas as obras escritas durante séculos no seu país.

 

Quando visitei a Turquia, disseram-me que essa análise era exagerada. No tempo de Ataturk a população alfabetizada era insignificante, pelo que a mudança de alfabeto não teria tido grande significado e o meu interlocutor considerava o alfabeto latino muito mais adequado à língua turca do que o islâmico. Só que, ao contrário do que Huntington previu, os sinais que surgiam desde a eleição de Erdogan davam a entender que a Turquia não ia ficar de fora do Ressurgimento Islâmico. Efectivamente, hoje na Turquia as velhas igrejas bizantinas estão a voltar a ser mesquitas, como já aconteceu com a Santa Sofia de Trabzon, e receia-se que o mesmo aconteça também com a Santa Sofia de Istambul. Erdogan pode homenagear Ataturk, mas é claramente o oposto dele. E quando anuncia que a Turquia precisa de um Lebensraum, e que os estudantes têm que voltar a aprender o passado otomano, o que está a destruir é a herança de Ataturk e a proclamar o desejo de um regresso ao passado glorioso do Império Otomano. E afinal quem o pode censurar por isso? Se Trump ganhou as eleições americanas com o slogan "Make America Great Again", o que impede Erdogan de proclamar "Make Turkey Great Again"?

 

O problema é que isto significa a guerra total. Basta olhar para o mapa do antigo Império Otomano. Abrange a Síria, onde a Turquia já está envolvida, o Iraque, para onde caminha, e até pode envolver a Crimeia e a Europa Oriental. Quando vejo muito boa gente a contestar os direitos russos sobre a Crimeia, apesar de a população ser esmagadoramente russa, com o argumento de que antigamente o território pertencia aos tártaros, o que está a propor é o regresso da Crimeia à Turquia. Os tártaros fazem parte do grupo dos povos turcos, a propósito. E neste momento nem a Rússia assusta Erdogan, como se viu no episódio do abate do avião russo por caças turcos. A Sublime Porta está de volta e é um facto novo na esfera internacional, onde uma hipótese de guerra generalizada não pode ser descartada.

É por isso que me parece que a derrota de Hillary Clinton nas eleições americanas até pode ter sido positiva na esfera internacional. Hillary Clinton era um falcão assumido com muito pouco bom senso, como se viu por ter deixado alastrar a Primavera Árabe quando era Secretária de Estado. E o facto de ter sido incapaz de gerir a sua própria derrota na noite eleitoral deixa-me sérias dúvidas sobre a sua capacidade de lidar com uma crise internacional com proporções colossais. Porque não tenhamos dúvidas, é para lá que caminhamos.

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22 comentários

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De Luís Lavoura a 11.11.2016 às 11:10

o alfabeto islâmico???!!! O que é isso?

Nenhum alfabeto é islâmico. Muçulmanos usam variados alfabetos. E árabes usam o mesmo alfabeto, quer sejam muçulmanos quer não.
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De Luís Lavoura a 11.11.2016 às 11:13

É por isso que me parece que a derrota de Hillary Clinton nas eleições americanas até pode ter sido positiva na esfera internacional. Hillary Clinton era um falcão assumido com muito pouco bom senso, como se viu por ter deixado alastrar a Primavera Árabe quando era Secretária de Estado. E o facto de ter sido incapaz de gerir a sua própria derrota na noite eleitoral deixa-me sérias dúvidas sobre a sua capacidade de lidar com uma crise internacional com proporções colossais.

Concordo plenamente.
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De Luís Lavoura a 11.11.2016 às 11:36

as velhas igrejas bizantinas estão a voltar a ser mesquitas

Não vejo problema nenhum nisso. É normal e adequado que se aproveite os espaços para novos fins. Também a igreja de Mértola e a sé de Lisboa já foram mesquitas (e igrejas antes disso). Os espaços reaproveitam-se. O seu valor turístico permanece (julgo que as mesquitas possam ser visitadas por turistas, tal e qual com as igrejas, dentro de certas limitações).
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De Luís Menezes Leitão a 11.11.2016 às 12:32

O problema é que o Islão não admite imagens, pelo que os frescos bizantinos são todos tapados com panos brancos. Os turistas não vêem nada.
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De V. a 11.11.2016 às 16:46

Depois do ataque nuclear, não vai dar para visitar nenhuma delas.
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De Luís Lavoura a 11.11.2016 às 11:40

quando anuncia que a Turquia precisa de um Lebensraum, está a destruir é a herança de Ataturk

Não. O Ataturk e o seu movimento dos "jovens turcos" lutou ativamente contra o desmembramento da Turquia, que os Aliados pretendiam impôr após a 1ª Guerra. Ele lutou ativamente para que a Turquia fosse um grande país que unisse o povo turco. Ele deixou que a Turquia perdesse espaços que não eram habitados por turcos, mas não quis que a Turquia perdesse espaços habitados por turcos.
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De Luís Menezes Leitão a 11.11.2016 às 12:33

Ataturk abdicou do Império Otomano para salvar a Turquia. A Erdogan não lhe basta a actual Turquia. É uma grande diferença.
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De Miguel Madeira a 11.11.2016 às 12:21

"Hillary Clinton era um falcão assumido com muito pouco bom senso, como se viu por ter deixado alastrar a Primavera Árabe quando era Secretária de Estado."

Eu penso que o problema da Hillary não foi ter "deixado" alastrar - foi mesmo ter ativamente andado a alastrá-la.
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De Luís Lavoura a 11.11.2016 às 14:29

Exatamente. A alastrá-la em certos países escolhidos a dedo. Noutros, não.
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De lucklucky a 11.11.2016 às 14:05

A Guerra virá quer queiramos quer não, uma vez que o Ocidente está cada vez mais fraco, mentalmente e militarmente - é só olhar para o desastre que é NATO, o desastre que é o Pentágono no gasta para o que dá de retorno em quantidade e em tempo de reacção.
São os resultado principais de uma imprensa neo-marxista e da mono-cultura de conhecimento que cria. Ninguém é capaz de criticar o que acontece excepto num trilho muito curto porque o jornalismo cada vez mais expulsa outros conhecimentos para ficar reduzido à cultura da política, da "arte" e do desporto apenas.

Veja-se a não reacção da mesma imprensa ao que se passa na Turquia. Veja-se como não há notícias algumas sobre os milhares de mortos em combate na Turquia este ano. Como até não há indignação alguma dos jornalistas sobre os jornalistas presos na Turquia. A critica à Turquia não serve para criticar o Ocidente por isso estão calados.
----
Não concordo com a critica a Hillary nesses termos, nem sequer a considero um falcão. Um falcão pelo menos vê ameaças e tem tendência a actuar em vez de esperar. Uma vezes têm razão outras não.

Hillary viu o quê? simplesmente teve uma mania e como tinha o poder utilizou-o para destruir a credibilidade dos EUA e pior ajudar a destruir as tentativas anti proliferação feitas ao longo de décadas: Kadhafi no seguimento da operação de George Bush contra o Iraque entrou num acordo para entregar as suas armas de destruição em massa para anos depois ser atacado por Hillary.
Qual é a mensagem que isto dá?
Obama e Hillary foram desde o período do Vietname a Administração que mais destruiu a credibilidade dos EUA.

Os universitários e as pessoas de bem querem do alto da sua educação abolir a guerra, quer os de cá quer os Árabes educados não perceberam que se querem Civilização essa só existe na ponta da arma. O 25 de Abril só não acabou numa Cuba com milhares de fuzilados e provavelmente mais de um milhão de refugiados porque existiu um Ramalho Eanes e muita gente disposta a ir para a Guerra Civil se fosse necessário.
Não foi com conferências e conversa fiada. Por trás da realidade em que vivemos e falamos no dia a dia e damos como adquirido há outras forças tornam essa realidade possível a que é preciso dar atenção.
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De lucklucky a 11.11.2016 às 14:55

Agora sobre Trump.
A vantagem de Trump é a sua imprevisibilidade e de aparentemente estar fora das convenções, mas isso só durará até ser testado, e certamente haverá muita gente interessada em testá-lo.
Desta vez não é Obama a ir pedir perdão e a ser incapaz de dizer Islamismo Radical entregando todas as cartas do Poder antes de sequer jogar.
Para Obama o inimigo sempre foi interno.
Hoje todos dizem que querem falar com Trump e estão dispostos a negociar. Mas essa vantagem de Trump tem um prazo de validade.
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De Vento a 11.11.2016 às 15:00

Nada de novo debaixo do Sol, Luís. Tive oportunidade de aqui comentar sobre a implosão que ocorreria na Turquia mesmo antes dos acontecimentos que se constataram. Os sinais eram visíveis.
Acontece que o que Erdogan persegue com seus propósitos nada mais nada menos é que as convulsões do peixe quando o retiram da água.
O lebenrausm de Erdogan, tal como o de Hitler, nada mais nada menos é que adiar a consumação dessa realidade que apontei em tempos. Erdogan vai cair, mais um pouco e cairá.
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De JPT a 11.11.2016 às 18:03

O nível de entendimento dos jornalistas e académicos portugueses sobre a Turquia (ou sobre a Hungria, como destaca o Luís Naves, neste blogue) está em linha com o revelado sobre os EUA. Comentam um icebergue olhando para a ponta emersa: a "elite cultural" laica de esquerda (ou, no caso da Turquia, também de direita) com que conviveram em conferências e Erasmus ou trocam "tweets" e afins, gente não só desfasada do povo que os rodeia, mas com desprezo por ele e pelos líderes que ele escolhe. E a sanha dá nisto: onde Erdogan fala de uma comunidade cultural e histórica, que vai de Mistrata na Líbia a Sköpje na Macedónia (locais deveras difíceis de invadir e por isso truncados da transcrição do discurso), o Público (e quem o cita) vêm "tresler" expansionismo e "Lebensraum". É algo de tão abusivo e insultuoso como seria um qualquer turco ler os discursos dos nossos políticos sobre os 300 milhões de lusófonos e achar que vem aí o Quinto Império, ou ver o nosso Presidente em Paris pelo 10 de Junho, a dizer que "onde há um Português é Portugal", e alegar que pretendemos anexar o Mundo, começando por Creteil e Bobigny.
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De Vento a 11.11.2016 às 18:25

Existe sim uma lebensraum à Erdogan. E esta área vital tem que ver com os curdos, com a presença turca no Iraque e com a contenção de acções dos curdos no norte.

https://br.sputniknews.com/mundo/201512083000319-Erdogan-Daesh-Curdos/
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De JPT a 12.11.2016 às 01:17

Correctíssimo. Só que não é "de Erdogan"; é do Estado Turco desde os anos 80. Como é evidente, a questão agravou-se com a passagem dessas zonas do controlo de Saddam e Assad (pai e filho) para o de autonomistas curdos (foi o que escrevi mais abaixo, mas estou "anónimo").
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De Vento a 12.11.2016 às 11:00

Compreendo o que pretende dizer. Todavia, só é do estado turco enquanto Erdogan pretender perpetuar-se como governante, mentor e tutor da nação. Acontece que como Hitler fez, que também foi eleito democraticamente, importa arrastar as forças militares para um conflito que garanta tal propósito.

Enquanto os russos não cimentarem convenientemente o território Sírio ele poderá dar-se a tais discursos e posições. Mas será sol de pouca dura. E a questão curda, no que respeita à sua autonomia e legitimidade de existir como estado, tornou-se uma situação definitivamente irreversível.
Aliás, o futuro mostrar-nos-á um novo desenho no mapa da região. Erdogan finge não perceber isto.
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De Luís Menezes Leitão a 11.11.2016 às 18:36

Não foi com certeza "a comunidade cultural e histórica" que atirou a Turquia para a guerra na Síria ou para a intervenção junto do Iraque. E muito menos para abater um avião russo. São atitudes claramente expansionistas e que se justificam pelo desejo de uma maior esfera de influência.

Mas a "comunidade cultural e histórica" já justificou muitas anexações no mundo. Designadamente a Áustria, os Sudetas e Danzig. No caso da Turquia, ainda hoje ocupa a margem norte de Chipre com a mesma justificação. Por isso, pessoalmente não fico tranquilo quando na Turquia começam a falar nas ligações com a população turca de uma cidade na Líbia ou com os turcos da Macedónia, que por acaso até fica a norte do velho inimigo turco, a Grécia. Não é a mesma coisa que os governantes portugueses irem a Paris fazer umas comemorações.
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De Anónimo a 11.11.2016 às 19:10

A intervenção da Turquia na Síria e no Iraque tem exclusivamente a ver com a supressão da guerrilha curda, uma vez que o PKK usa como bases as áreas adjacentes à fronteira, dominadas pelos curdos locais. Se a abordagem (violenta) do governo turco à questão curda é certa ou errada "são outros 500" - em todo o caso, não diverge da dos seus predecessores. De igual modo, invocar a invasão de Chipre (em reacção à tentativa de unificação violenta da ilha com a Grécia) para criticar Erdogan, parece fazer tanto sentido como imputar a Invasão de Ceuta a Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda por cima, a divisão da ilha só persiste pelo "não" do eleitorado cipriota grego no referendo de 2004. Quanto ao avião russo, ele foi abatido sobre o espaço aéreo turco, do mesmo modo que um avião turco foi abatido pela Síria em 2012 (o que teria sido um excelente pretexto para uma intervenção turca contra Assad, que, sintomaticamente, não teve lugar). Em suma, o fenómeno do "expansionismo turco" (salvo, de facto, o cultural e diplomático, e direccionado para a Ásia Central Turcófona, e não para o Médio Oriente) é da ordem da auto-sugestão.
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De lucklucky a 11.11.2016 às 21:16

O desejo de expansionismo de Erdogan já vem desde há muito, a ultima foi colocar em causa o Tratado de Lausanne e com a TV Turca afecta ao regime a mostrar mapas Otomanos onde inclui partes da Grécia e as ilhas do Dedocaneso que passaram para a Grécia após estarem sobre controlo Italiano até a 2 GM assim como Mosul no Iraque.

Se o Presidente Português começasse a falar de Ceuta e como os tratados de fronteiras com Espanha têm de ser revistos devido a qualquer motivo histórico qual seria a reacção?



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De lucklucky a 12.11.2016 às 13:58

Dodecaneso e não Dedocaneso como por engano escrevi.
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De Paulo Sousa a 13.11.2016 às 11:10

Enquanto lá fora o slogan é "Make America Great Again" e "Make Turkey Great Again", por cá o mote é "Make the public debt even Greater".

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