O real e o ideal
O texto que se segue é um excerto do editorial de Matthieu Croissandeau a propósito o novo ministro da Economia francês Emmanuel Macron e publicado no ultimo Nouvel Observateur. A tradução minha é muito livre, mas é suficiente para entender que para uma certa esquerda um jovem enarca, filósofo e banqueiro tem que ser forçosamente alguém de muito suspeito. Porque:
"...A questão não é saber se um antigo banqueiro pode ser de esquerda. Outros antes dele já o foram e outros certamente o serão. A questão não é sequer saber se o socialismo de Hollande rompe com os seus principios fundadores ao prosseguir uma política demasiado favorável às empresas. Há já muito tempo que os socialistas franceses se converteram à economia de mercado e não correm atrás dos patrões.
Não o esqueçamos: foi a esquerda, na ocorrência a de Mitterrand que abriu as portas da economia do país à finança liberalisando os mercados de capitais. Foi ainda a esquerda, a de Jospin que privatisou o que nem a direita privatisaria, baixou os impostos e converteu os criadores de empresas às delícias remuneratórias das sotck options.
A esquerda não necessita de totems nem de tabus para pôr à prova a força das suas convicções. Mas uma vez eleita, por um estranho e repetitivo fenómeno ela acaba sistematicamente acusada de trair o seu campo. Quando posto à prova do poder, o PS ficou sempre dividido entre a ambição eo remorso, incapaz de estabelecer a ponte entre a doutrina que defendia na oposição e a sua acção governamental e navegando entre o pragmatismo e decepções. Isto deve ser da sua natureza "de servir o ideal e de compreender o real", como resumia Jaurès. Cem anos passados a formula continua a figurar na declaração de princípios do PS, sem que ninguém e muito menos Hollande tenham conseguido resolver esta diferença dialéctica"
Cá temos um problema semelhante... e também temos muita dificuldade de resolver esta espécie de dicotomia.

