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O RAP e a avó

por Teresa Ribeiro, em 03.12.16

Ricardo-Arajo-Pereira1_0.jpg

 

Leio na entrevista que deu ontem ao Público que Ricardo Araújo Pereira tem baixa auto-estima. Parece mais uma piada e pergunto-me, é claro, se há verdade nisso. Nas várias entrevistas que deu para promover o seu mais recente livro, RAP fala sempre da influência decisiva da avó, uma pessoa austera. Diz que foi a lutar pelos sorrisos dela que descobriu a sua vocação. Convenhamos que como estratégia de comunicação de um humorista de sucesso tem graça.

A história da avó pode ter sido retocada, mas acredito que na essência é verdadeira e ter de lutar pelo sorriso de uma avó é profundamente triste. A interpretação freudiana da vida pode estar ultrapassada, mas tenho sempre dificuldade em descolar--me dela, porque a verdade é que quando me interesso em saber mais sobre alguém e começo a escavar, encontro sempre um pai, uma mãe, um tio ou uma avó que estão na origem de muito do que essa pessoa é, para o bem e para o mal.

RAP, humorista de sucesso, confessa que tem baixa auto-estima e convidado pelo jornalista do Público a esmiuçar a coisa, fornece mais uma informação. Diz que foi com a avó que aprendeu a gerir sentimentos: "A minha avó convenceu-me a não ligar aos meus sentimentos - primeiro porque são sentimentos; depois porque eram meus". Outro postal triste.

Mesmo que seja apenas uma nota de humor negro que RAP acrescenta ao currículo só para provocar desconcerto nos fãs, vale como exemplo teórico. A actual ditatura da felicidade, com os seus cursos de psicologia positiva e discursos de auto-superação, ignora que pessimismo e baixa auto-estima não são uma opção, porque a mundivisão aprende-se, não se escolhe. É por isso que quando entramos numa sala da pré-primária identificamos facilmente quem é líder e quem não é, quem tem auto-confiança e quem se apaga.

Se o pessimismo e a baixa auto-estima se pudessem trocar como uma camisola, andava por aí tudo aos saltos, com as cores da moda vestidas.

 


2 comentários

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De João André a 07.12.2016 às 14:17

A baixa auto-estima de RAP é novidade para mim (gosto mais de o ler que ler sobre ele) mas não é uma surpresa. É até bastante comum ver humoristas com baixa auto-estima, a combater a depressão ao longo da sua vida e tendo sido "bullied" quando mais novos. Basta ler este artigo na sequência da morte de Robin Williams (http://www.forbes.com/sites/alicegwalton/2014/08/12/robin-williams-and-the-dark-side-of-the-comedic-mind/#63b2bc5f3f33).

Infelizmente a auto-estima e depressão são ainda frequentemente ignoradas pela sociedade em geral e quem sofre delas acaba por ter de criar os seus próprios mecanismos para lidar com esses problemas. Se vem da avó ou não torna-se, na minha opinião, apenas um pormenor colorido, não mais.
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De Vento a 07.12.2016 às 21:48

João, você continua a acertar. Existe uma depressão que é de moda. Isto é, os ditos intelectuais gostam de se mostrar deprimidos para poder dizer que têm um terapeuta na matéria; e vira moda. Tal como Woody Allen o fez nos filmes.

Depois há-os mesmo deprimidos, e aqui o caso é mesmo sério. Fazem-se de alegres, como patetas; sucedidos, como falhados; estruturados, como a torre de pisa e tradicionalmente afoitos à tradição. Também dizem viajar e afirmam-se conhecedores de tudo. Dizem saber quem são e comem e bebem bem, de preferência o que é regional. E debitam tal sabedura como se um japonês em Tóquio bebendo um tinto da quinta de Cabriz ou um Bucelas Velho não estivesse a beber um vinho regional.

Depois há-os mesmos necessitados. Mas estes não necessitam dizer que são alegres, estruturados e sucedidos e que comem e bebem regional. Lutam mesmo no dia-a-dia, sem conversa e sem terapia. E sem necessitar mostrar que são heróis.

Também há disto pelos blogs; e tão confiantes são que até mudam de nick para parecer que não são quem são.

Um abraço, padrinho.

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