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O RAP e a avó

por Teresa Ribeiro, em 03.12.16

Ricardo-Arajo-Pereira1_0.jpg

 

Leio na entrevista que deu ontem ao Público que Ricardo Araújo Pereira tem baixa auto-estima. Parece mais uma piada e pergunto-me, é claro, se há verdade nisso. Nas várias entrevistas que deu para promover o seu mais recente livro, RAP fala sempre da influência decisiva da avó, uma pessoa austera. Diz que foi a lutar pelos sorrisos dela que descobriu a sua vocação. Convenhamos que como estratégia de comunicação de um humorista de sucesso tem graça.

A história da avó pode ter sido retocada, mas acredito que na essência é verdadeira e ter de lutar pelo sorriso de uma avó é profundamente triste. A interpretação freudiana da vida pode estar ultrapassada, mas tenho sempre dificuldade em descolar--me dela, porque a verdade é que quando me interesso em saber mais sobre alguém e começo a escavar, encontro sempre um pai, uma mãe, um tio ou uma avó que estão na origem de muito do que essa pessoa é, para o bem e para o mal.

RAP, humorista de sucesso, confessa que tem baixa auto-estima e convidado pelo jornalista do Público a esmiuçar a coisa, fornece mais uma informação. Diz que foi com a avó que aprendeu a gerir sentimentos: "A minha avó convenceu-me a não ligar aos meus sentimentos - primeiro porque são sentimentos; depois porque eram meus". Outro postal triste.

Mesmo que seja apenas uma nota de humor negro que RAP acrescenta ao currículo só para provocar desconcerto nos fãs, vale como exemplo teórico. A actual ditatura da felicidade, com os seus cursos de psicologia positiva e discursos de auto-superação, ignora que pessimismo e baixa auto-estima não são uma opção, porque a mundivisão aprende-se, não se escolhe. É por isso que quando entramos numa sala da pré-primária identificamos facilmente quem é líder e quem não é, quem tem auto-confiança e quem se apaga.

Se o pessimismo e a baixa auto-estima se pudessem trocar como uma camisola, andava por aí tudo aos saltos, com as cores da moda vestidas.

 

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44 comentários

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De Anónimo a 03.12.2016 às 15:56

A mundivisão de que se falou aprende-se... a aceitar! Ou a viver com ela! Não se aprende simplesmente! Ela escolhe-te, tu não a escolhes a ela!
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 11:17

Conviver nos primeiros anos de vida com um ambiente depressivo formata a atitude perante a vida. Pode uma pessoa nessas circunstâncias vir, na vida adulta, a ter sucesso? Pode. Mas se calhar nunca deixará de desconfiar dele (tema a que por acaso RAP já aludiu, exactamente nestes termos). É disto que falo. Algo que as dois, três, quatro anos não se escolhe, assimila-se.
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De Porfirio Tinto a 03.12.2016 às 22:46

O mais inteligente humorista português. E comunista, ou marxista. Os de direita tem o incomparável João José Sinel de Cordes
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De Nuno Medeiros a 04.12.2016 às 17:33

De esquerda? Será mesmo?
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De Conde de Tomar a 04.12.2016 às 19:12

Isso não interessa para nada. Estava no gozo
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 11:22

Inteligente, sem dúvida e competente. Se é marxista ou comunista não me interessa.
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De Porfirio Tinto a 05.12.2016 às 12:54

Nem a mim. Embora seja mais difícil fazer humor tendo na cabeça muitos preconceitos morais. RAP é um cínico no bom sentido do termo. Pois em questão a normalidade actual da anormalidade.
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De do norte e do país a 03.12.2016 às 22:49

O homem perdeu a graça desde que vendeu a alma ao diabo. Parece que fala do que nao sabe e diz barbaridades
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 11:23

??? Refere-se ao Meo?
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De João Pedro a 04.12.2016 às 00:13

Atenção que a história da avó não é exactamente uma novidade da biografia de RAP: aliás chegou a conta-la na entrevista que deu no programa de Jô Soares.
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 11:24

Bem sei, mas agora voltou ao assunto, nesta série de entrevistas que está a fazer para promoção do seu último livro. Tema recorrente, portanto.
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De Alfredo a 04.12.2016 às 09:56

Tanta conversa e tão pouco para um homem inteligente mas que vive do jogo de palavras, isto é nas nuvens.
As filhas ... a avó ... os tios...
Uma família moderna...
A tática de nao deixar o entrevistador perguntar foi para esconder o quê?
Se não queria respeitar o ADN do programa nao aceitava ser entrevistado.
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 11:28

Não sei que entrevista viu, ou leu. Naquelas a que assisti e que li não reconheço minimamente esse jogo de gato e rato a que se refere. Numa delas, a que deu a Daniel Oliveira neste sábado, foi de uma enorme generosidade, no sentido em que se expôs, para lá do que é habitual acontecer em entrevistas.
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De Vento a 04.12.2016 às 10:47

Posso, então, interpretar que quando observo o alvo de seu texto aquilo que se pode ver é precisamente a avó.
Concordo consigo que a as pessoas que vemos são mesmo a avó, o avô, o pai, a mãe, o tio e etc. e tal. Mas é aqui que reside o mal (já lá vou).

Se o anterior parágrafo reflecte a condição visível, a interpretação sobre a liderança também se enquadra nessa mesma perspectiva sociológica. Portanto, não estranhemos que a dita liderança que hoje observamos, incluindo aqueles ou aquelas que observamos na primária, seja constituída por líderes escravos. Não existe líder nem liderança naquele que é incapaz de liderar sua própria natureza e contrariar a natureza que sociologicamente nos contamina.
Por isto mesmo quem não abandonar seu pai, sua mãe, seu irmão e até sua própria vida está condenado a uma existência escrava. Nesta perspectiva também se pode afirmar que quem deita a mão ao arado e olha para trás não é digno da liberdade.
A liberdade é um dom para aqueles que desejam nascer de novo. Por exemplo, da mesma forma João, o baptista, afirmava que Deus podia suscitar das pedras filhos de Abraão. Significa isto que essa liberdade anunciada não nos vem pelo sangue ou tradição, mas através de uma outra perspectiva e vivência.
Assim, a mundivisão de que nos dá conta é limitada. É necessário sair desta pescadinha de rabo na boca.
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De Porfirio Tinto a 04.12.2016 às 19:25

Engraçado. Não me revejo nessa sua vida de liberdade. Da leveza dos recomeços. Gosto da persistência, mesmo quando no trilho espinhoso, da imutabilidade dos valores. Do peso sanguíneo do apelido. Nos nós familiares. Veneração dos antepassados. Na palavra de honra aposta às modas diletantes. A honra mantida custosamente, ganha no sacrifício. Os recomeços, são da garotagem, que procura encontrar-se em cada esquina de frustração. Na frustração são pródigos os recomeços. Gosto do remorso da autoavaliação. Da culpa pelo canalha sentido.
Não pretendo renascimentos, nem ressurreições, mas sim a Aparição. A aparição que surge no olhar para trás. Na Árvore junto ao caminho. Para cima e igual à de ontem - e eu velho no caminhar, no olhar, nas mãos manchadas.
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De Vento a 04.12.2016 às 21:39

Verifico com agrado que foi tocado pelo meu comentário. Não se teria despido tanto se assim não fosse. Aliás, a ideia era mesmo essa.
Obrigado por se ter oferecido como exemplo.
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 11:32

É uma perspectiva possível, a do anarquista, a do homem iluminado pela fé e que se transcende nela (a sua, suponho), a do outsider, mas não é a única.
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 11:38

O meu comentário acima era para o primeiro do Vento. Saiu fora de sítio e não consigo corrigir...
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De Vento a 05.12.2016 às 21:50

Tenho de sorrir com sua resposta. Não sei bem o que é isso de iluminado pela fé. Se me disser que a fé também ilumina a razão, eu estou de acordo. Quem começou com análises ou psicanalises foi a Teresa. O meu comentário terá tanto de anarquista quanto o seu. E poder-se-ia dizer que o seu também pode ser uma perspectiva.

Mas a questão é simples, eu contrariei parcialmente sua posição. E estou disposto item a item a traduzir o que escrevi. Preciso somente que me diga quais são suas dúvidas. Dizer-me que é uma perspectiva é resposta vaga ou evasiva. Eu estou habituado a comentar com mais do que isso.

Foi você que afirmou isto:
"A interpretação freudiana da vida pode estar ultrapassada, mas tenho sempre dificuldade em descolar--me dela, porque a verdade é que quando me interesso em saber mais sobre alguém e começo a escavar, encontro sempre um pai, uma mãe, um tio ou uma avó que estão na origem de muito do que essa pessoa é, para o bem e para o mal.".

E eu desenvolvi a partir daqui. E desenvolvi correctamente, buscando exemplos de milénios para revelar que o vinho a martelo tem sido bebido em todas as gerações, mas que há um outro vinho que não se compadece em ser armazenado em odres velhos, porque os arrebenta. Tal como remendo de tecido novo em vestes velhas.
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De Teresa Ribeiro a 06.12.2016 às 14:36

Vento,
Se não atribuísse importância ao nosso percurso (intelectual, emocional, espiritual, o que queira) estaria a cair num determinismo extremo. Da mesma forma que há miúdos na pré-primária cheios de confiança que mais tarde se dão mal na vida, também há crianças vítimas de bullying que depois "vencem na vida" (seja lá o que isso for). O que me importa aqui salientar é que as nossas primeiras experiências, que não controlamos, nos marcam indelevelmente. Se nessa fase inicial percepcionarmos a vida como uma ameaça ou fonte de tristeza, provavelmente essa experiência traduzir-se-á em insegurança, pessimismo. Acredito que a primeira paisagem emocional nunca desaparece, seja qual for a nossa experiência de vida. Isso explica que uma pessoa bem sucedida, como o RAP, tenha uma desconfiança metódica sobre tudo o que lhe acontece de bom...
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De Vento a 06.12.2016 às 15:24

O que você escreve, Teresa, eu compreendi desde o início. Por isto mesmo afirmei, "Posso, então, interpretar que quando observo o alvo de seu texto aquilo que se pode ver é precisamente a avó.
Concordo consigo que a as pessoas que vemos são mesmo a avó, o avô, o pai, a mãe, o tio e etc. e tal. Mas é aqui que reside o mal (já lá vou).".

Todo o meu comentário foi produzido em função de evitar esse determinismo que refere. Por isto concluí, "Assim, a mundivisão de que nos dá conta é limitada. É necessário sair desta pescadinha de rabo na boca.".

Não obstante, como somos todos odres velhos, também referi a importância deste nascer de novo, referindo: "A liberdade é um dom para aqueles que desejam nascer de novo.". Porquê este novo nascimento? Porque para vinho novo, odres novos. Não se coloca vinho novo em odres velhos. O vinho a martelo, seja branco ou tinto, conforme as preferências, corrói, limita, obstrui e escraviza. Provoca cirroses e remorsos. O vinho novo liberta, oferece a liberdade num mundo de escravos.

O sucesso de RAP é aquele que lhe atribui. Para mim ele não passa de um sucedido igual aos muitos milhões de desconhecidos que habitam no rectângulo luso. Nem mais nem menos. A diferença é que ele aparece na fotografia, e isto não determina sucesso. Somente estar mais visível. Nada mais nada menos.

Já agora, minha amiga, aproveite esta oferta:
https://www.youtube.com/watch?v=VOv-auO8ELQ

ou esta outra oferta:
https://www.youtube.com/watch?v=bdBFZ6lCCcU

FELIZ ADVENTO!
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De Porfirio Tinto a 06.12.2016 às 21:03

Já dizia o outro: A infância é a nossa pátria.
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De Teresa Ribeiro a 07.12.2016 às 14:16

Concordo com essa frase.
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De Justiniano a 05.12.2016 às 10:49

Sobre esta coisa da auto confiança, sentimentos e quejandos recomendo a velha tirada do Chesterton. Chesterton tinha aversão a tontos e outros charlatões e um aguçadíssimo faro para os destacar à distancia! Dizia Chesterton acerca dos tontos e da auto confiança. Um tonto cheio de auto confiança á apenas um tonto cheio de auto confiança. Identificar numa sala de aula da pré primária um líder confiante ou apenas uma criança cheia de auto confiança revela mais do tonto autor do exercício do que das criancinhas!! Ou de ambos sendo os mesmos!!
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 11:36

Sim, o que há mais é tontos cheios de autoconfiança. E tontos cheios de si a tresler o que lêem e a fazer avaliações precipitadas, então há aos montes.
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De Justiniano a 05.12.2016 às 11:52

Lá está, sem querer atirei ao tonto.
A cara Teresa Ribeiro nem se apercebe que a tresleitura será sua sobre as minhas palavras. Mas é mister que um tonto queime antes de ler. Não compreenderá, a Teresa Ribeiro, que a secundava!!! E secundo-a, novamente. E tontos cheios de si a tresler o que lêem e a fazer avaliações precipitadas, então há aos montes. Sim, sem dúvida!!
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De Teresa Ribeiro a 06.12.2016 às 13:57

Gosto de devolver em igual medida os "mimos" que recebo, para o bem e para o mal. Se fui injusta e o interpretei mal, aceite então as minhas desculpas,Justiniano.
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De Porfirio Tinto a 06.12.2016 às 21:10

Se me permite, vossa excelência, não se preocupe. Justiniano venera a Profundidade. E por venerá-la arrepia-se sempre que alguém o julga compreender. Cá para nós, D.Teresa ,penso que Justiniano é um Estruturalista. O que é o estruturalismo, pergunta? Penso que é na subcave, junto às bombas de água....bom, reflectindo, talvez seja antes um Bizantino, não pela linguagem, mas pela linhagem.
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De Justiniano a 07.12.2016 às 11:26

Ao Porfirio, se me permite, recomendo tinto de Estremoz!!
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De Porfirio Tinto a 07.12.2016 às 12:08

Justiniano, a fidelidade é uma cena que não me assiste. De Estremoz vim a semana passada. Agora ando nas Beiras - Recomendo o tinto Beyra, de Rui Madeira, acompanhado com queijo de ovelha de Castelo Branco
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De Justiniano a 09.12.2016 às 15:42

Caro Tinto Porfirio, se o seu problema não é da zurrapa há-de, certamente, ser coisa grave de que lhe não poderei valer!!
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De João André a 07.12.2016 às 14:17

A baixa auto-estima de RAP é novidade para mim (gosto mais de o ler que ler sobre ele) mas não é uma surpresa. É até bastante comum ver humoristas com baixa auto-estima, a combater a depressão ao longo da sua vida e tendo sido "bullied" quando mais novos. Basta ler este artigo na sequência da morte de Robin Williams (http://www.forbes.com/sites/alicegwalton/2014/08/12/robin-williams-and-the-dark-side-of-the-comedic-mind/#63b2bc5f3f33).

Infelizmente a auto-estima e depressão são ainda frequentemente ignoradas pela sociedade em geral e quem sofre delas acaba por ter de criar os seus próprios mecanismos para lidar com esses problemas. Se vem da avó ou não torna-se, na minha opinião, apenas um pormenor colorido, não mais.
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De Teresa Ribeiro a 07.12.2016 às 14:26

O Woody Allen é outro bom exemplo, de quem aliás, RAP se confessa fã. O humor como escapatória de almas deprimidas é um clássico :)
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De Vento a 07.12.2016 às 21:48

João, você continua a acertar. Existe uma depressão que é de moda. Isto é, os ditos intelectuais gostam de se mostrar deprimidos para poder dizer que têm um terapeuta na matéria; e vira moda. Tal como Woody Allen o fez nos filmes.

Depois há-os mesmo deprimidos, e aqui o caso é mesmo sério. Fazem-se de alegres, como patetas; sucedidos, como falhados; estruturados, como a torre de pisa e tradicionalmente afoitos à tradição. Também dizem viajar e afirmam-se conhecedores de tudo. Dizem saber quem são e comem e bebem bem, de preferência o que é regional. E debitam tal sabedura como se um japonês em Tóquio bebendo um tinto da quinta de Cabriz ou um Bucelas Velho não estivesse a beber um vinho regional.

Depois há-os mesmos necessitados. Mas estes não necessitam dizer que são alegres, estruturados e sucedidos e que comem e bebem regional. Lutam mesmo no dia-a-dia, sem conversa e sem terapia. E sem necessitar mostrar que são heróis.

Também há disto pelos blogs; e tão confiantes são que até mudam de nick para parecer que não são quem são.

Um abraço, padrinho.
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De Elias a 07.12.2016 às 22:51

Sabe o que o espera, Vento? Frustração e medo. E não há nenhum dia em que não vá ao ginásio. Para o dia do teste. O último. Não vá envergonhar-me, num lamento. As Certezas sopra-as o Vento.
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De Vento a 08.12.2016 às 11:19

O seu comentário reflecte essa frustração e medo. Aliás, este também é o vinho que se tem bebido.
Em regra só nos lembramos das próprias fragilidades quando acontecem ou quando nos aproximamos do momento em que não existe retorno. Nestas circunstâncias o discurso é exactamente esse: o da comiseração.
Acontece também que este sentimento de comiseração ao invés de ser direccionado para o sofrimento alheio centra-se em nossa própria condição ou na condição que se avizinhará. Transformando-se assim a comiseração em autocomiseração.

O sentimento anteriormente referido não passa de sentimento egoísta e cobarde, porque substitui a arrogância, a vaidade, o amor próprio... que foi construído por décadas. E é aqui que nos damos conta que o universo e a criação estão intimamente ligados, pois todos somos peças de uma engrenagem.

O medo é um sentimento saudável quando nos permite observar o que necessita ser superado. O que não é saudável é permitir ao medo que nos altere o carácter, as convicções e até mesmo que nos impeça de constatar que os outros, sendo uma peça dessa referida engrenagem, não têm o dever de viver em função desse medo que não lhes pertence. Traduz-se esta afirmação na consciência de que o caminho deve ser feito com e não por.

Portanto, meu caro Elias, a única frustração que vou conhecendo é precisamente sentir que cada vez mais frustrados e medrosos substituem a anterior arrogância, vaidade e amor próprio por autocomiseração. E lixam a vida daqueles que os rodeiam.

Com todos os medos que possa vir a enfrentar no futuro garanto-lhe que nenhum deles me alterará o carácter. Gostaria de concluir dizendo-lhe que a vida todos os dias me ensina que a coerência de um Homem é precisamente aquela que o permite evoluir e melhorar em suas convicções e observações do mundo, e não naqueles que por medo e cobardia se submetem a falsas coerências.
Para vinho novo, odres novos. Não deixe de ir ao ginásio. Mas escolha bem o ginásio que deve frequentar, pois estou convencido que o caro Elias necessita exercitar outras coisas. Quem pede, alcança; quem busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-lhe-á. Nunca acredita que somos justos, mas justificados. E também não acredite que alguma vez se transformará por si mesmo. "Em mim tudo se renova".
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De Elias a 08.12.2016 às 16:00

"Em regra só nos lembramos das próprias fragilidades quando acontecem ou quando nos aproximamos do momento em que não existe retorno"

O não retorno surge logo no primeiro dia, no nosso primeiro segundo, excepto para os que creem no Eterno Retorno.

"Acontece também que este sentimento de comiseração ao invés de ser direccionado para o sofrimento alheio centra-se em nossa própria condição"

Sempre me pareceu que antes de transformarmos o outro, devemos primeiro olhar-mo-nos. - "Porque miras o cisco no olho do teu irmão, se não te dás conta da trave que está no teu?"

Quanto a medir os outros, nunca gostei de o fazer, por não ter o metro certo.

Mas bem aventurado seja, pois a Graça escolheu-o, antes do tempo.

Quanto ao resto... não tenho pachorra. É vento.

Para leituras quiromânticas, tenho o bolinho chinês. E para advogado de acusação, o Dr. Quintino Aires.






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De Vento a 08.12.2016 às 20:36

Está a ver que é necessário eu dizer para você repetir o que que eu disse.

"Porque miras o cisco no olho do teu irmão, se não te dás conta da trave que está no teu?"

Foi você que veio com a conversa: "Sabe o que o espera, Vento? Frustração e medo.".
Você fala de si mesmo e reage da maneira que menos me impressiona. É típico no burgo luso essa lengalenga do lá chegarás.
Sim, talvez chegue lá. Mas faço tudo para não chegar dessa forma que você e muitos outros revelam. Isto é, cobardemente e tentando chantagear emocionalmente os outros.

Com a maldição com que mimou suas palavras eu ofereci-lhe a bênção. Aproveite e vá em busca dela, se quiser.

Nunca se tem pachorra quando falta a argumentação. Mas teve muita pachorra para vir ao meu encontro.
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De Elias a 09.12.2016 às 10:09

Duas substanciais diferenças entre o que lhe escrevi e o que V. Exa me respondeu:

1) Frustração e medo.
Frustração - causas interiores e causas exteriores
Causas interiores/primeiras - relacionadas com a genética de cada um.
Causas exteriores/segundas - relacionadas com o ambiente.

Ambas interdependentes. As primeiras, aquando da infância, podem ser influenciadas pelas segundas. E as segundas imprimem-nos conforme o património das primeiras. Desta dialéctica, surge a personalidade.

2) A frustração e o medo resultam da consciência de um duelo interior (o outro lado da autoconsciência). O duelo entre o instinto (não consciente) animal da preservação da vida e da sua fruição e da nossa condição mortal (consciente). Ambas se contradizem, ambas impossíveis de se satisfazerem mutuamente. E se não choros, pelos menos dão-nos um ranger de dentes.

Assim o que lhe disse primeiramente não foi doutrina, mas dois preceitos humanos (o medo, natural, e a frustração, humana). Ao invés o Vento pegou nestas duas condições humanas e desferiu um ataque ad hominem. Um ataque de carácter (o que nos define são as nossa acções, não as nossa promessas - "a árvore conhece-se pelo fruto") , expresso pelos exemplos:

Acusação moral:

autocomiseração/egoísmo/cobardia/arrogância/vaidade...

Arrogância tutelar:

"estou convencido que o Elias necessita de exercitar outras coisas" .

E à sua acusação, retribui com a parábola do cisco e da trave.

Capiche?


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De Vento a 09.12.2016 às 12:00

Meu caro,

você mostra-se entendido para fazer parecer que os outros não entendem. Já aqui foi afirmado que a "infância é a nossa pátria". E sobre esta parte da matéria nada mais acrescento ao que verti.

Depois também já fiz referência ao vinho a martelo, que você pretende esquecer o significado procurando atribuir-lhe significados de sua autoria.
Aliás, não é estranha neste blog essa sua presunção.

Isto para afirmar-lhe que na realidade os preceitos humanos têm como origem suas doutrinas. Como o cérebro se vicia nestes registos desde tenra idade, tenho procurando demonstrar que o que comanda o Homem não é este órgão, mas a vontade.
Não obstante, o surgimento desta vontade também está condicionada pela fuga à dor em assumir os nossos problemas.
A disciplina é o meio para a evolução espiritual. E é nesta disciplina evolutiva que o Homem encontra a força transformadora.
Esta força tem o nome de Amor. E é precisamente no examinar deste amor que se joga com o mistério.

E este Amor, como afirmou Scott Peck, que subscrevo, é a vontade de expandir o Eu com o objectivo de alimentar seu próprio desenvolvimento espiritual e/ou o de outrem.
Assim neste processo o Eu também se renuncia a si mesmo para dar espaço ao outro, isto é, não se fecha em si.

Para isto é necessário exceder os limites, evitando a tal pescadinha de rabo na boca que referi à Teresa, limites esses definidos pela doutrina e preceitos e pêlos registos da infância.
Para exceder estes limites é necessário esforço, a tal vontade. A vontade é desejo de tal intensidade que nos exige acção.
E concluindo, neste sentido o Amor só acontece com esforço. Portanto, o Amor é trabalhoso.
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De Elias a 09.12.2016 às 13:31

"procurando atribuir-lhe significados de sua autoria"
Mas não é o que todos fazemos? Tantos mundos conforme os olhares. Quem se arroga ter o conhecimento da verdade? - Pilatos: O que é a verdade? Que disse Cristo, lembra-se?

"você mostra-se entendido para fazer parecer que os outros não entendem"
Apenas procuro saber se os outros sabem mais que eu. Sigo Sócrates e Diógenes.

"Presunção"
Outro ataque pessoal. Como disse, "típico do burgo luso"

"Como o cérebro se vicia nestes registos desde tenra idade, tenho procurando demonstrar que o que comanda o Homem não é este órgão, mas a vontade"

Não falava no cérebro. Falava em genes / DNA. O corpo, o fenótipo, não depende da vontade, mas sim de várias proteínas - ácido desoxirribonucleico , ácido ribonucleico, adenina (A), citosina (C), guanina (G) e timina (T),etc. Ninguém decide ser baixo, loiro, moreno. Mesmo na psicologia - Psicologia Evolutiva - se descobre que grande variedade dos nossos comportamentos são influenciados pelos genes.
ex: Moral Animal ,de Robert Wright
Genoma, de Matt Ridley

O Vento quando resfriado, não toma vontades. Toma comprimidos, correcto?
Ou também somos culpados, por falta de vontade, da doença? E sabe que existem doenças geneticamente causadas, correcto? E sabe do Projecto Genoma, talvez um dos mais ambiciosos projectos científicos da atualidade?

Essa da Força, ou do Triunfo da Vontade remonta a dois(três) momentos. Schopenhauer, no séc XIX e a Nuremberga, na década de 30, do séx. XX (e mais recentemente ao TED, talk - Gustavo Santos)


"Amor é trabalhoso "
Hannah Arendt, em Condição Humana, aponta bem a origem etimológica da palavra "trabalho". Trabalho não provêm de accão transformadora, mas sim de Dor. De castigo (daí o trabalho de parto, significando dor de parto; veja-se também o castigo de Adão, após expulsão do Jardim).

Devia jogar com o baralho todo. Umas cartas das Ciências Sociais, outras das Ciências Naturais. Aquilo que Edgar Morin chama de Ciência da Complexidade (Livros, O Método)






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De Vento a 09.12.2016 às 20:28

Meu caro, o que escreveu não tinha resposta. Pareceu-me ser selectivo na memória e ter direccionado seu olhar para a árvore ao invés da floresta. O comentário que entretanto fiz foi para encerrar todo o raciocínio do primeiro.

Eu não escrevo um livro por aqui, comento somente. Compreenderá que tudo quanto se pensa não pode ficar expresso em meia dúzia de linhas.

Obviamente que se infere em todo este raciocínio a questão da dor e também do banquete.
A mística cristã desenvolve-se também em torno das núpcias, do banquete e das bodas. Ela, a mística, também apela à parte sensorial do Homem. Já aqui referi que nós, os portugueses, somos aqueles que melhor conhecemos o sentido da palavra Saber (sapere, sabor). Por isto mesmo dizemos que o banquete ou a refeição soube bem. Isto é, permitiu que distinguíssemos, conhecêssemos os ingredientes que compunham a refeição. O Amor também se compõe de diversos ingredientes que leva tempo a conhecer e a saborear.

Aqui chegados, ao Amor, compreendemos que a dor também faz parte deste processo de amar. O exemplo máximo é a Paixão de Jesus. E nesta Paixão também reside O mistério.
Portanto, e concluindo, procurar conhecer este mistério, o do Amor, é deveras trabalhoso, porque nos obriga a sair dos limites que cerceiam esta natureza, isto é, os condicionalismos, para que nos deixemos "penetrar" por esta Essência.
Por isto mesmo, ao afirmar que não somos justos, mas justificados, tenho em conta a tradição e a educação. Não se pode atribuir dolo, isto é intenção, ao que é praticado pela tradição e pela ignorância.
Ao aceitarmos a imolação do cordeiro Pascal, O da Páscoa cristã, aceitamos também esse sangue derramado como nosso resgate. Por isto mesmo, "Em mim tudo se renova".

PS. Outra coisa também interessante é o conteúdo sobre o mito da criação. Ele permite-nos distinguir a natureza simbólica do Homem, que é designada por Adama (Adão). Adama significa terra boa, terra fértil. É boa e fértil porque contém o Sopro de Vida. E a humildade, que vem de húmus, é precisamente a reverência à Fonte da Vida e da Sabedoria.
Mas também a natureza diabólica, isto é, separadora, que é representada pela Serpente. No mito da criação não existe nenhuma alusão ao pecado, mas à tentação. É o cair nesta tentação de o Homem pretender ser como Deus que reside o pecado, isto é, falhar o alvo. Falhar o alvo é a tradução real da palavra hebraica designada por pecado.

Nota: Creio ter explicitado uma parte significativa de meu pensamento. A forma como o faço é o que menos importa. É necessário que sempre se faça, com devido propósito. E neste propósito também existem as naturais tensões.
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De Vento a 09.12.2016 às 21:16

Envio novo comentário com um acrescento que me passou.

O contraponto a esse mito, o da Criação, reside em dois momentos d´Aquele que designamos por Novo Adão ou Homem Novo. A Nova Criação ou Nova Criatura, que é Jesus.
São estes os momentos: O baptismo de Jesus, onde o Espírito, Sopro, desce até Jesus e nas tentações vencidas no deserto. Logo, vencidas as tentações e não existindo consumação fica isento de Pecado. Afirma-se assim a divindade de Deus o Filho. E, como sinal, é enterrado num sepulcro Virgem, pertencente a José de Arimateia, num Horto ou jardim, o das Oliveiras.

Nota: Não fui buscar exemplos de filósofos ou outros autores porque a ideia reside na manutenção da genuinidade desta Boa Nova em Jesus.
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De Elias a 10.12.2016 às 13:47

Obrigado pela reposta. Bem aventurado seja.

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