Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O racista cego

por José António Abreu, em 15.11.14

Era racista mas uma doença deixara-o cego. Depois disso tinha imensos problemas em manifestar o racismo às pessoas certas. Fazia-o por ouvido. Quando alguém lhe soava a negro – ou amarelo, pois era um racista abrangente – fazia comentários depreciativos, trejeitos de desagrado ou, nos dias de maior comedimento, afastava-se. Normalmente os alvos suportavam a atitude com estoicismo. De resto, que poderiam fazer? Esmurrar um cego?

Enganava-se imensas vezes – não apenas porque os círculos em que se movimentava eram quase exclusivamente caucasianos mas também porque as pessoas o evitavam ou então se divertiam às suas custas, imitando sotaques africanos ou orientais. Chegaram a trocar-lhe a bengala branca por uma pintada de preto. Andou com ela vários dias, gerando hilariedade nos que o conheciam mas correndo riscos sérios de ser derrubado num passeio ou atropelado ao atravessar a rua, uma vez que muitos transeuntes e automobilistas  não se apercebiam da sua condição de cego.

Como seria de esperar, a dada altura ele começou a aperceber-se das partidas. Isso não o tornou mais prudente. Pelo contrário: aumentou-lhe a paranóia. Recusou um cão-guia com medo que lhe arranjassem um com pêlo preto ou de raça estranha (ninguém chegou a perceber que raças eram aceitáveis mas ficou evidente que abominaria ser guiado por um cão de água). Justificando-se com a premissa de que «quem apoia a perda da identidade branca não merece respeito» insultava toda a gente. Como nem sequer conhecia outros racistas assumidos, não abria excepções. Alguém afirmou um dia: «É uma besta mas, desde que perdeu a visão, bastante igualitária.» Vai-se a ver e descobre-se aqui uma lição de moral.

Autoria e outros dados (tags, etc)


6 comentários

Sem imagem de perfil

De M. S. a 15.11.2014 às 10:56

E se, com um pouco de ginástica mental e imaginação transpuséssemos esta atitude do cego (perdão, invisual) para a política, e para uma maioria confortável dos comentadores da blogosfera?
É que eles agridem outros de forma injustificada, gratuita e, tantas vezes, estúpida apenas devido à cor da «pele» ideológica dos interlocutores.
Como se tivéssemos todos de pensar da mesma maneira e não fosse possível atingir um grau de normalidade nas discussões que seja consentâneo com o percurso de civilidade que as sociedades têm feito.
Às vezes até parece que se está a regredir a épocas bem obscuras da história humana.
Imagem de perfil

De Helena Sacadura Cabral a 15.11.2014 às 12:53

Concordo inteiramente consigo.
E julgo a metáfora do post do jaa, como sempre, excelente!
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 15.11.2014 às 11:23

Excelente apontamento sobre um Cego, antes e depois de perder o sentido da visão.
Sem imagem de perfil

De Vento a 15.11.2014 às 12:32

Desgraçado de cego. Só lhe falta descobrir que é negro, amarelo ou às bolinhas. O(s) gajo(s) é(são) tudo o que odeia(m).
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.11.2014 às 15:40

Este, era cego em todos os sentidos. Também por aqui há muitos cegos que não querem ver e muitos que só querem ver, aquilo que lhes interessa. Outros há que a cegueira é tal que não quando não lhes dizem sim senhor, concordo em absoluto, são rotulados de não saberem nada e muitas vezes de mentecaptos. É assim que hoje se rege esta sociedade hipócrita e completamente cega e surda, quando não lhes interessa ouvir, o outro que muitas vezes está cheio de razão......
Sem imagem de perfil

De sampy a 15.11.2014 às 19:30

O post fez-me lembrar uma das melhores rábulas de Dave Chapelle:

Clayton Bigsby, the black white supremacist

http://www.cc.com/video-clips/ga0sc4/chappelle-s-show--frontline----clayton-bigsby-pt--2---uncensored

Comentar post



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D