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O que valeu a pena ver em 2014 - 2/3

por José Navarro de Andrade, em 30.12.14

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O Washington, o Jefferson e o Franklin da revolução televisiva

 

É possível que o actual apogeu da ficção televisiva constitua o preâmbulo da inexorável falência da indústria audiovisual tal como ela hoje opera, ou seja, segundo o modelo de negócio vigente. Para onde se vai ninguém sabe, onde se está só alguns entendem, aqueles que tomam decisões, quase todas em função de dilemas instantes. Olhando na direcção certa não é difícil verificar que constelação de influências deu azo a que hoje, na(lguma) televisão, se possam ver as mais inquietantes, refinadas e sagazes narrativas, com génio e têmpera de meter o cinema no sapato. Averiguando as audiências televisivas dos EUA (porque as respostas hão-de ser avistadas no terreiro dos mercados, lugar onde estas coisas se tramam, e não nas nuvens institucionais, no seu melhor limitadas a diagnosticar resultados), constata-se que os canais de cabo pago (HBO, Showtime, etc.) lograram uma massa crítica de assinantes que lhes propiciou orçamentos de produção ao nível das estações generalistas. Estribados nesta fartura, irreproduzível noutros territórios, nomeadamente europeus, demandaram à conquista dos segmentos de audiência mais sofisticados, por hábito resilientes à televisão e à sua corrente oferta ficcional. Significa isto que uma sequência de séries impossíveis em canal aberto, como “Sopranos”, “Dexter” Californication”, “The wire” “Generation Kill”, “Six feet under”, “Big love”, “True blood”, “Deadwood”, “Weeds”, “Boardwalk empire” e “Breaking bad”, teve o poder e a virtude de recolher ao redil da televisão espectadores desavindos, que nelas surpreenderam um desafogo de inteligência, irreverência e originalidade, assim alargando a base de clientes de tão selectos canais. Estamos elucidados quanto à “criação de novos públicos”, um mantra muito recitado e pouco acertado – it’s economics, stupid...

Ainda não houve neste século, nem na literatura nem no cinema, personagem com a dimensão comparável à de Walter White (o definitivo Bryan Cranston) de “Breaking Bad” (“Ruptura total”) quer lhe peguemos pela tragédia quer pela farsa. Com a temeridade própria dos desesperados, Walter White arrasta o seu cancro terminal ao longo de 62 horas, perverte toda a ordem estabelecida, seja a familiar, seja a legal, seja a criminal (porque no crime há uma ordem muito estrita) no passo em que eleva o sarcasmo, o farisaísmo e um sentido utilitário dos escrúpulos a patamares inéditos, sobretudo porque nunca resvala para fora das baias do quotidiano e não incorre na fastidiosa panóplia de tons épico, melodramático ou lírico, que habitualmente se usa para enlear o sentimento do espectador.

Tendo Walter White recebido ceptro & coroa de Tony Soprano, quem lhe terá sucedido no trono após a sua esplêndida morte? Ouso denominar Will McAvoy, o anchorman, ou pivô, em português de gema, de “The newsroom” – há condições para afirmar que Jeff Daniels era um actor persistentemente desinteressante até dar a pele por esta personagem.

“The newsroom” é apresentado como “uma criação” de Aaron Sorkin. Estamos assim em face de um ordenamento industrial em que argumentistas (uma bateria deles), realizadores (todos com crédito seguro, nenhum com cartel de auteur), produtores executivos e demais artistas ou colaboradores, subsumem a sua participação criativa à batuta abrangente de Sorkin. Sendo a ficção de cinema americana essencialmente politizada – fenómeno que tanto irrita as facções mais reacionárias dos Republicanos quanto é desapercebida pelos olhares europeus – Sorkin é aquele que melhor converteu a política pura e dura em ficção, com paralelo histórico talvez em I.A.L. Diamond e poucos mais. Do seu palmarés como argumentista avultam “A few good man” (“Uma questão de honra”) obsequiando Jack Nicholson com o melhor momento da sua carreira ao recitar um dos discursos mais ambíguos, desassombrados e desconfortáveis da história do cinema (perfeito anti-Capra); “Charlie Wilson’s war” (“Jogos de poder”), “Moneyball” (“Jogada de risco”), que devia ser de visão obrigatória para qualquer decision maker (pardon my french…) e a série de TV que lhe trouxe popularidade “West wing”. O que singularizar e sublima “The newsroom” será o abandono de qualquer pretensão naturalista, ideia prodigiosa sendo o jornalismo a matéria da série. Sorkin dispensa ostensivamente a credibilidade para ambicionar alguma verdade, pois essa coisa da “credibilidade”, tão diligenciada nas indústrias emparelhadas da informação e da ficção, é erário de burlões, sem o qual seriam incapazes de cultivar a sua arte. Cada episódio constitui-se, assim, num pequeno debate sobre ética, desde os processos de trabalho às relações afectivas. E este plano invejável e impossível de comportamentos revela-se por diálogos e frases de supina perspicácia e gramática; ninguém fala assim, com réplicas súbitas e argutas, com tamanha agilidade verbal e tanta intuição imediata das questões; ninguém discute desta maneira, tão mental e emotiva, sem, no entanto, descair na mesquinhez, na sua típica forma de insulto pessoal; ninguém em “The newsroom” pergunta que horas são ou se o café está quente, todas as palavras são usadas para exprimir estados de alma estratosféricos. “The newsroom” não imita a realidade, mostra-nos o que na realidade deveria passar no íntimo das cabeças jornalísticas em plena posse das suas faculdades. Que o faça de maneira amável com o espectador, sem lhe dar lições de moral nem fazer com ele chantagens emocionais, e de forma delicada com as personagens, permitindo-lhes a dúvida e a incerteza, que é a maneira de não as ajuizar, faz de “The newsroom” um prodígio de escrita e de narrativa, só ao alcance de talentos e recursos incomparáveis.


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