Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O que se passa na América Latina?

por Luís Naves, em 31.08.18

O que se passa na América Latina? Ainda não ouvi uma boa explicação, mas o cenário é preocupante: colapso na Venezuela (e talvez na Nicarágua), a Argentina a pedir ajuda ao FMI, o Brasil numa crise política alarmante, talvez à beira de uma eleição catastrófica. Se juntarmos a isto os problemas financeiros na Turquia (um dos canários da mina) e a crescente guerra comercial entre potências, está a formar-se um daqueles momentos de alta volatilidade que terminam em rebentamentos de bolhas ou quedas bolsistas. Há pelo mundo dívidas insustentáveis, países que mergulharam em súbitas dificuldades de liquidez, regimes presos por um fio, mas se desta vez ocorrer por contágio uma crise financeira, Portugal não tem muitas hipóteses de escapar à queda das exportações e ao aumento de taxas de juro e serviço da dívida, não dispondo de instrumentos para contrariar uma recessão — não é possível baixar impostos e não é possível aumentar a despesa. Se isto acontecer, veremos que o governo acreditou de tal forma na própria propaganda que não terá boa maneira de explicar à população como é que estamos de novo a enfrentar o abismo.


10 comentários

Sem imagem de perfil

De Vento a 31.08.2018 às 14:26

Não tenho veleidades para tudo saber, mas posso partilhar consigo o que vejo como reflexo de uma globalização da política.
A América Latina e do Sul, tal como ocorre na Europa e outras partes do mundo, na sua suposta transição democrática fundeou-se nos mesmos modelos centralizadores das antigas ditaduras. Significa isto que o modelo de progresso e de avanço democrático baseou-se no estabelecimento de uma oligarquia itinerante e alternada cujos princípios se fundamentam no uso dos recursos dos bens do Estado partilhando-os entre as diferentes famílias eleitas para melhor simular a existência de uma democracia falsamente estabelecida.

Sabe-se também que hoje o modelo que as populações aspiram centra-se no desejo de uma melhor saúde e acesso a esta, no desejo de uma melhor educação e acesso a esta, no desejo de, face a questões demográficas e à longevidade, uma melhor assistência a estas populações bem como de garantias aos que nesta faixa entrarão e, não menos importante, um ordenamento laboral efectivo e afectivo que não se cinja a meras cartas constitucionais e à publicação de códigos legais.
Os modelos ditatoriais assentavam seus ideais na existência de um Estado forte economicamente, detentor dos centros fulcrais do desenvolvimento económico, onde se incluía o sector energético, para também garantir um melhor controlo social e "paz" social, pois para eles, tal como para os actuais, só de pão vive o Homem. Logo, estabeleceu-se um modelo baseado na chantagem e na coerção.

A pseudo-viragem para a democracia cantou bem a liberdade mas baseada nos mesmos modelos anteriores. Assim, garantia-se uma melhor fidelização e corrupção das supostas elites. A nuance residiu no estabelecimento de um modelo pseudo-distributivo, baseado essencialmente na acumulação da dívida, para melhor mascarar as actividades de bastidor.
Através deste cenário não faltaram e não faltam os profetas do liberalismo que advogavam e advogam os recursos e as riquezas do Estado para as mãos dos privados e uma pseudo-desestatização das competências. Acontece que esta falácia residia e reside no facto de transformar um Estado num subsidiador das actividades privadas em nome de um progresso social. Para tal, quer a saúde, quer a educação, quer a previdência, quer a ordem laboral, quer a ordem económica e financeira constituíram-se como instrumentos de retórica progressista. E o caos estabeleceu-se.

O jogo ficou de tal forma viciado que a única habilidade para se garantir um pelouro na cena política foi a introdução de modelos farisaicos e pseudo-moralistas onde não faltaram os géneros e congéneros, a corrupção dos princípios e das estruturas familiares, a desordem social através de pseudo-garantias encapotadas por um discurso também este pseudo-humanista, para fazer crer que agora não se necessita de pão para viver mas somente de verbos ou palavras.

Quando o caos se estabelece, sabemos que o único interventor na História capaz de alterar seus rumos é Deus. E é neste cenário que o capitão Bolsonaro no Brasil brilhantemente pega nas angústias de um povo para melhor capitalizar a sua visão. É sabido que em regra as esquerdas ditas progressistas não gostam de ordem quando se encontram na oposição e também não a sabem estabelecer quando se encontram em processo de governação, pois acabam reféns de suas falsas propostas e necessitam garantir sua permanência no que pensam ser sua base de apoio.

A partir desta reflexão permito-me, Luís Naves, avançar para Trump. Trump percebeu o caos e a desordem; e uma nova face do nacionalismo surgiu. Como Deus age na História, eu não sei. Mas conta connosco para agir. Quando anunciavam a "morte de Deus" eles pretendiam transformar-se em deuses. E quem quer ser deus tem de ter escravos. Portanto, a luta é contra os deuses. Anuncia-se a revolta dos escravos sem se ser zelote.
Sem imagem de perfil

De António a 31.08.2018 às 20:44

Vento, a sua escrita é tão concentrada e cruzada que se arrisca a não passar a mensagem. Mais alongada seria mais perceptível, e acho que devia ser, porque é interessante.
Sem imagem de perfil

De Vento a 01.09.2018 às 14:55

Obrigado, António. Você compreendeu. Outros buscarão o sentido.
Sem imagem de perfil

De António a 31.08.2018 às 20:51

Caro Luís Naves, a menor preocupação deste governo será explicar como caímos no abismo. Foi o grande capital, a UE, o euro, o Passos Coelho, as privatizações - não faltarão bodes expiatórios, nem quem os engula. Ou não estaríamos onde estamos.
Sem imagem de perfil

De JgMenos a 01.09.2018 às 00:50

O principio de que o investimento pressupõe poupança, travestiu-se de que havendo crédito tudo é possível.
E se o crédito está disponível - porque é coisa que se inventa livremente no papel - porque adiar o que é obviamente desejável e até urgente?

Até que a mama estanca e quer inverter o jorro de dinheiro.

Ganharam-se eleições, as ditaduras são inaceitáveis para todas as 'boas almas', a austeridade faz-se cada vez mais com os pés - emigra-se, atiram-se ao mar....
Sem imagem de perfil

De António Maria Lamas a 01.09.2018 às 09:49

Perante este cenário de miséria que nos espreita, ainda há "anormais" a lutar contra a unica réstia de esperança de termos alguma folga financeira com a prospecção de petróleo e gás na costa algarvia.
E o senhor dos afectos a dar lhes importância.
Sem imagem de perfil

De António a 01.09.2018 às 13:00

A Venezuela tem petróleo. Muito, ao que dizem.
Sem imagem de perfil

De António Maria Lamas a 01.09.2018 às 15:57

Muito mal estaria Portugal se lhe acontecesse o mesmo que à Venezuela, se descobrisse petróleo.
Mesmo que a "troica PS/BE/PCP quisesse, sempre temos a CE (e porque não, o Centeno) para o evitar.
Sem imagem de perfil

De V. a 01.09.2018 às 15:44

Muitos desses países são favelas gigantescas onde os menos dotados são os que se reproduzem mais, dentro de narco-estados homicidas e totalitários que aboliram a possibilidade de progredir na estratificação social a não ser pelo crime, pela patranha e pela delação. Cultivam o populismo barato e promovem a inacção da sociedade civil com superstição, futebol, prostituição e drogas. O que é que tinha para correr bem?
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 02.09.2018 às 01:29

Os democratas e ou os jogam como democratas não aceitam limites ao seu poder. E os ditadores ou candidatos a, são ainda piores.

Logo vendem dívida, imprimem moeda, atacam quem cria, inventa, faz, em nome do povo. Sempre em nome do povo.

E o povo apoia. E depois o povo não percebe o que lhe aconteceu...

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D