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O que dirá Freitas agora?

por Pedro Correia, em 29.03.18

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1

Na sequência do inaceitável acto homicida que visou o cidadão russo Serguei Skripal e a sua filha Iulia, por intervenção de agentes infiltrados da Rússia em território britânico, o Governo do Reino Unido expulsou 23 diplomatas de Moscovo e solicitou a solidariedade activa dos seus aliados. Nada mais compreensível.

Nos últimos dias, 28 países - incluindo 19 Estados membros da União Europeia - anunciaram também a expulsão de quadros diplomáticos russos: um gesto de firmeza política que ultrapassa largamente o plano simbólico. Pelo menos 125 diplomatas receberam já ordem para fazerem as malas.

Entre as raras capitais da UE que permaneceram à margem deste processo inclui-se Lisboa. "Governo prefere diálogo à expulsão: diplomatas russos a salvo em Portugal", na síntese certeira de um título jornalístico. Isto apesar de o Executivo liderado por António Costa "acreditar que a concertação no quadro da UE é o instrumento mais eficaz para responder à gravidade da situação presente", como jesuiticamente observou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. O tal que gosta de "malhar", mas é "na direita". Esquecendo que Putin é o maior apoiante financeiro e logístico da mais repulsiva extrema-direita europeia.

 

2

O nosso Governo, lamentavelmente, ignorou neste processo os compromissos inscritos na aliança histórica que mantemos desde 1373 com o Reino Unido - aliás a mais antiga relação diplomática ininterrupta da história.

Pior: a diplomacia portuguesa parece cruzar os braços perante reiteradas e comprovadas violações de direitos humanos cometidas pelo Estado russo - que inclui ataques cibernéticos com a colaboração de sofisticada pirataria informática, a intromissão em processos eleitorais estrangeiros, o assassínio e detenção ilegal de opositores, o silenciamento de jornalistas e as agressões militares contra a soberania de Estados vizinhos, nomeadamente com a anexação da Crimeia, pertencente à Ucrânia, e a criação dos bandustões russos da Abcásia e da Ossétia do Sul, tornados enclaves em território soberano da Geórgia.

Como se isto já não bastasse, os agentes de Putin liquidam compatriotas incómodos em solo estrangeiro, recorrendo a uma substância tóxica proibida por convenções que o próprio Estado russo subscreveu.

Entre os nossos amigos e aliados da UE e a cleptocracia russa, com a sua corte de oligarcas corruptos, ficamos equidistantes. Algo que não acontecia desde os tempos pós-revolucionários, quando uns tantos lunáticos andaram por aí a enaltecer a putativa integração de Portugal no lote dos países pertencentes ao Terceiro Mundo.

 

3

Afinal o prometido "novo impulso para a convergência com a Europa" que o Executivo PS prometeu em Novembro de 2015 no seu programa era apenas uma flor de retórica. Na óptica de Santos Silva, que há três meses celebrava como "vitória para Portugal" a eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo, a solidariedade europeia será uma via de sentido único.

Por mim, fiquei esclarecido. Aguardo apenas com alguma curiosidade o pronunciamento de Diogo Freitas do Amaral, que era vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros do Executivo da Aliança Democrática, que em 1980 decidiu expulsar quatro diplomatas russos, no quadro dos duros protestos ocidentais contra a invasão soviética do Afeganistão ocorrida meses antes e que incluiu apelos do primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro ao boicote português dos Jogos Olímpicos de Moscovo, onde a participação nacional esteve reduzida ao mínimo.

Tudo isto sucedeu, note-se, quando ainda nem éramos membros do espaço comunitário europeu.

O que dirá Freitas do Amaral agora?


14 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 29.03.2018 às 14:06

" diplomatas russos a salvo em Portugal"

Pensava que as medidas diplomáticas deveriam visar a protecção das várias populações nacionais dos diplomatas russos.

Pedro, concordo contudo. Já li artigos de opinião que defendem o boicote ao Europeu / Mundial(?) - não quero saber de bola - de Futebol na Rússia. Mas vamos ser coerentes. É também fundamental acabarem-se com os Paraísos fiscais onde a oligarquia plurocrata russa esconde o dinheiro - é necessário uma reforma do sistema financeiro (de onde vem o dinheiro? ). E de permeio acabar com essa chachada dos vistos Gold.

Já agora, onde pára o 007?
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De Pedro Correia a 29.03.2018 às 22:22

Salvos de expulsões, todos eles.
Ficariam sempre pior se regressassem neste momento à Rússia, onde as temperaturas são geralmente negativas.

O 007 já não é o que era. Deixou de beber 'dry martini', passou a beber 'minis'. Pelo gargalo.
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De Diogo Noivo a 29.03.2018 às 14:35

E por falar em interferências russas, partidos de extrema-direita, e em movimentos apostados em fracturar a Europa e em atentar contra o Estado de Direito, parece que a primeira visita que Carles Puigdemont recebeu na prisão foi de um co-fundador da AfD alemã. No creo en brujas, pero...
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De Pedro Correia a 29.03.2018 às 21:28

Parafraseando um ditado popular, "Diz-me quem te visita na prisão, dir-te-ei politicamente o que és."
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De Anónimo a 29.03.2018 às 23:30

Já a M. Rajoy ninguém o visita na prisão porque tem o poder judicial do seu lado.
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De Pedro Correia a 29.03.2018 às 23:58

Sente-se solitário? A si ninguém visita?
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De sampy a 29.03.2018 às 15:05

Bem, isso de estarmos de braços cruzados não corresponde à verdade. Ainda ontem tivemos o exemplo de uma acção assertiva de Costa, com o encerramento compulsivo do hangar dos Kamov e a os mecânicos russos expulsos das instalações. Putin não conseguiu pregar olho esta noite...
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De Pedro Correia a 29.03.2018 às 21:29

Ficou muito abalado, garantem-me as minhas fontes no Kremlin. Vai chamar o camarada Jerónimo para consultas a Moscovo.
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De Anónimo a 29.03.2018 às 16:06

Boa tarde Pedro Correia. Tenha uma boa Páscoa. Posso enganar-me mas penso que o Pedro Correia vai poder comer amêndoas calmamente até ao Verão sem ser interrompido por alguma reflexão pública de Freitas do Amaral.
António Cabral
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De Pedro Correia a 29.03.2018 às 21:30

Também não creio serem iminentes as palavras do eminente professor, que deve andar meditabundo.
Boa Páscoa, António.
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De João Pedro Pimenta a 30.03.2018 às 03:34

Isso já é má vontade, Pedro. Sabes perfeitamente que a "direita" a que Santos Silva se referia era o Bloco e o PCP, essas "forças do mais reacionário que há", como ele próprio afirmou, por isso recua perante Putin. Mas pensando bem, o PCP continua a não ser muito hostil aos russos. Estes regimes apoiados tanto pela extrema-direita como pela extrema-esquerda confundem uma boa alma.
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De Pedro Correia a 30.03.2018 às 08:39

Lamento o infortúnio do augusto ministro, João Pedro. Muita pastilha anti-stress já deve ter engolido ao integrar agora um governo apoiado por duas forças políticas "do mais reaccionário que há".
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De Anónimo a 30.03.2018 às 14:02

Faz bem Portugal em não hostilizar a Cristandade a leste.

WW
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De Pedro Correia a 30.03.2018 às 14:10

Espírito cristão. Dar a outra face aos russos, esses notáveis defensores da "Cristandade" (Estaline até foi educado num seminário).
A História, que é sábia, ensina-nos que é um erro. Mas há quem persista em ignorar as lições da História.

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