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Em relação à crise de refugiados, a imprensa portuguesa continua a não perceber duas coisas: a rota e a quantidade. Hoje, na rádio, uma jornalista colocava na mesma frase as ideias contraditórias de que a fronteira húngara estava “fechada a sete chaves” e de que ontem "entraram na Hungria 10 mil pessoas". Aliás, nos últimos seis dias, entraram na Hungria mais de 40 mil migrantes, transportados das fronteiras croata e sérvia para campos de refugiados em território húngaro e para a fronteira austríaca. É portanto estranho que frases como aquela continuem a surgir nos noticiários: ou a fronteira não está fechada a sete chaves ou não entraram dez mil pessoas.

O arrastão mediático de indignações e superioridade moral impede que seja compreendida a vedação que o governo húngaro construiu na sua fronteira com a Sérvia. Ao travar a passagem a salto de pessoas indocumentadas (de acordo com a sua interpretação da lei internacional), o governo húngaro forçou a Sérvia a registar todos os refugiados. Aliás, Budapeste continua a dizer que a responsabilidade pelo registo cabe aos gregos. Embora tenha sido acusado de não cumprir o Acordo de Schengen ou de o ter posto em causa, o primeiro-ministro húngaro, o famigerado Viktor Orbán, pode ter evitado o colapso desse acordo.

O que a imprensa portuguesa ainda não compreendeu é que TODOS OS REFUGIADOS PASSAM PELA HUNGRIA E TODOS PASSAM PELA ÁUSTRIA; a rota balcânica tem de atravessar forçosamente aqueles dois países, só que agora os contrabandistas já não controlam o processo e os refugiados fizeram nos países anteriores o registo obrigatório, que inclui identificação da pessoa. O registo dá-lhes o direito a livre circulação no espaço Schengen. A Hungria está inclusivamente a comprar tendas resistentes ao frio intenso (isto não vai parar no Inverno) e é agora um país de trânsito semelhante à Áustria, embora mais pobre, mas a lidar diariamente com as mesmas enormes quantidades de migrantes, que carecem de tratamento, alimentação, transporte.

A outra incompreensão tem a ver com os números desta migração em larga escala. A Comissão Europeia já procedeu a duas distribuições de refugiados, somando 160 mil pessoas (Portugal receberá 4500), mas as chegadas diárias à Europa Central continuam a aumentar depressa e, em breve, podemos estar perante números muito superiores, não me admirava que fossem cinco e dez vezes maiores. Se temos uma quota de 3%, é fazer as contas. Os números alemães também já não batem certo: estão à espera de um milhão de pessoas; sendo que a imigração normal costuma ser de 400 mil anuais, então estamos a falar de 600 mil adicionais; ora, a quota alemã foi de apenas 35 mil; é muito evidente que isto é só o começo.

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10 comentários

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De Vento a 24.09.2015 às 11:15

Luís, vários aspectos convém referir nesta crise de refugiados:
1 - O imperialismo moral em que se refugiou a Alemanha para poder salvaguardar-se daqueles que dizia estar disposta a receber mas que não receberá;

2 - É necessário um mecanismo de coordenação para que NA ORIGEM seja combatido o problema. Faço notar que este aspecto também passa por paulatinamente preparar a opinião pública de cada país e mundial para uma acção conjunta que se avizinha.
Putin já começa a dar o mote, e isto revela que já existem movimentações internacionais. Aliás, Merkel também vai dando o mote.
Ver aqui:
http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2015-09-23-Putin-acusa-Estado-Islamico-de-professar-falsa-religiao
e aqui:
http://rr.sapo.pt/noticia/34995/merkel_apela_a_entendimento_global_para_resolver_crise_dos_refugiados

Tudo isto começa a ir ao encontro do que desde início aqui afirmei. Se tiver curiosidade busque os comentários a este respeito.

Agora, Luís, só necessitamos deixar que o deus Cronos (o tempo) ajuste o papel de cada um. Estou em crer que o mais tardar em Janeiro de 2016 alguma acção (conjunta) no terreno se inicie.
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De JPT a 24.09.2015 às 11:16

Meu caro, quando é que aprende que aquilo que o governo húngaro construiu não é uma "vedação". É um muro. Um "muro de arame" como ouvi ontem dizer. E se fosse uma sebe, era um "muro de relva", presumo. É como essa coisa de embicar com uma jornalista (da Antena1, que eu também a ouvi) dizer, sem parar para respirar (entre outras coisas), que num país cuja fronteira está "fechada a sete chaves" "entraram 10 mil pessoas". Aprenda: quando se tem razão não é preciso fazer-se sentido. É esse o lema da política europeia nessa matéria.
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De zazie a 24.09.2015 às 11:44

Tem a ideia contrária à do Rui Ramos que não vai diminuir com o frio?

O que eu penso é que esta rota de imigração aumenta porque não há controle de serem apenas refugiados de guerra e, muito menos, exclusivamente sírios como se propaga.

Se este fluxo já existia antes de o transformarem num caso europeu por causa de uma fotografia, mais continuará sabendo-se que agora até passou a uma obrigação imposta pela Alemanha.

Eles sabem quem manda. Esse é o aspecto mais curioso.
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De jo a 24.09.2015 às 11:52

Isso será verdade mas o que preocupa é que os líderes da União Europeia parecem também não ter compreendido isso.

Veja-se a quantidade de reuniões que fizeram para evitar que o FMI sofresse um calote dos gregos e compare-se com a preocupação atual.

Para não falar que parece ser mais importante regulamentar o horário de abertura do comércio grego do que as fronteiras da UE.
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De zazie a 24.09.2015 às 12:18

Mas eu também continuo sem perceber porque ninguém explica as coisas de forma objectiva (não estou a falar de si porque a si nunca mais o consegui ler nos jornais, apesar de ser jornalista)

As quotas são apenas em função do nº total que a Bismerka estipulou ou são percentagens anuais?

E são percentagens em função de algum estatuto prévio de serem considerados refugiados ou pura e simplesmente pessoas com livre circulação no espaço Schengen?

O estatuto diz muitas coisas. Pode-se consultar online http://www.cidadevirtual.pt/acnur/refworld/legal/handbook/mpc-1ap.html

Mas, como é óbvio de ver, esta triagem nunca poderia ser feita nas fronteiras com milhares de pessoas a entrarem de roldão.
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De zazie a 24.09.2015 às 12:20

Só mais uma questão.

Refere aí a rota balcânica porque é a mais rápida e a que está a ser mais usada.

Mas há outras. Esta decisão da UE inclui as outras?
Ou seja- que tencionam fazer com quem aparece a outras portas, vindo por outros caminhos.
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De IsabelPS a 24.09.2015 às 15:29

Não é só os números, é o "caudal".
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De cristof a 24.09.2015 às 19:23

Fico sinceramente muito agradecido de poder ter informação, em vez de narrativas pre programadas nas redacções. Por vezes gostaria de entender a razão, porque jornalistas fazem certos papeis.
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De lucklucky a 24.09.2015 às 22:04

Não percebem nada... É uma invasão e isto é só o começo.

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De Anónimo a 25.09.2015 às 01:10

A vedação húngara é uma autêntica aberração e indesculpável, a que a UE insiste impávida e serena. Nem a imprensa portuguesa percebeu nem os estadistas perceberam ou não querem perceber. Enquanto não discutirem o porquê deste êxodo, cada vez será maior e não parará. Esquecem-se que aqui estão em causa a venda de armas e a compra de petróleo a loucos. É aqui que se tem de pôr um travão, mas o incrível, é que ninguém, quer discutir o essencial, o que revela que vivemos numa Europa, de hipócritas.

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