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O (quase) silêncio da Fatah

por Alexandre Guerra, em 15.05.18

A Grande Marcha de Retorno esbarrou literalmente na vedação que delimita a Faixa de Gaza do território de Israel. Era uma iniciativa que estava condenada desde o início. A ideia de uma caminhada triunfal de milhares de palestinianos até Jerusalém não seria mais do que uma fantasia, uma tentativa de reabilitar as intifadas de anos anteriores, numa espécie de grito de revolta por parte de quase dois milhões de pessoas desesperadas, que há vários anos estão autenticamente presas num território com cerca de 40 quilómetros de cumprimento e 10 de largura, onde as condições de vida se degradaram para níveis miseráveis, reflectindo-se em indicadores sociais muito preocupantes.

 

É importante sublinhar que, hoje em dia, quando se fala na causa palestiniana e num futuro Estado palestiniano, na verdade, o que está em análise são duas realidades distintas. Não quer isto dizer que ambas não possam vir a coexistir sob um único Governo e estrutura política, mas, actualmente, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza são dois mundos substancialmente diferentes. E se isso já era evidente há uns anos ao nível social e religioso, sendo Gaza uma sociedade claramente mais conservadora do que a Cisjordânia, agora, em 2018, as diferenças são consideráveis no campo político-económico, sobretudo, por duas razões.  

 

A primeira razão tem a ver com a morte de Yasser Arafat, em 2004, e a consequente perda de influência da Fatah na Faixa de Gaza. Recordo de ter estado em várias casas de famílias palestinianas na Faixa de Gaza e, quase sempre, numa das divisões havia uma fotografia do histórico líder. Isto, numa altura em que a Fatah já tinha pouca influência naquele território, mas onde Arafat continuava a ser o elemento político unificador. Após o seu desaparecimento, o Hamas rapidamente ascendeu ao poder, ao mesmo tempo que reforçava a sua presença na gestão dos serviços públicos e no apoio social. Ora, com a Cisjordânia historicamente dominada pela Fatah e a Faixa de Gaza nas mãos do Hamas, criou-se uma dualidade política que resultou em duas estruturas de poder diferentes e, por vezes, competitivas naquilo que é a luta pela liderança da causa palestiniana.

 

A outra razão está directamente relacionada com o bloqueio imposto por Israel que, basicamente, já vem dos tempos da intifada de al-Aqsa (2000-2005). Por esta altura, estive por duas vezes naquelas paragens e já então os palestinianos da Cisjordânia não podiam ir visitar os seus familiares à Faixa de Gaza e vice-versa. Era assim e assim continuou. E na altura cheguei a perguntar a muitos palestinianos como eram os tempos anteriores à intifada de al-Aqsa e todos me disseram que nem na primeira intifada (a chamada “revolta das pedras” entre 1987 e 1991) Israel tinha imposto tantas restrições de movimentos. Pois bem, os anos passaram e esse estrangulamento foi-se intensificando na Faixa de Gaza, com a agravante dos bombardeamentos israelitas em 2014 sobre aquele enclave, destruindo, ainda mais, muitas das suas infraestruturas públicas e de saneamento. Ao mesmo tempo, sem aeroporto e porto, e com as fronteiras encerradas com Israel (restando apenas a fronteira de Rafah Crossing com o Egipto, mas que muitas vezes está fechada), a débil economia da Faixa de Gaza foi-se degradando, empurrando a população palestiniana para um caos humanitário.

 

Na Cisjordânia, apesar das dificuldades existentes, tudo é diferente. Há uma estrutura de poder minimamente estável, os serviços públicos funcionam, existe uma economia, as universidades fervilham de actividade, os restaurantes e café estão abertos nas várias cidades palestinianas, digamos que há uma certa dinâmica de sociedade. Além disso, a circulação entre a Cisjordânia e Israel, através de vários postos de controlo ao longo da fronteira, é muito mais facilitada.

 

Este enquadramento talvez seja importante para se perceber a passividade com que a Fatah e os palestinianos na Cisjordânia estão a encarar esta sublevação. Na verdade, dos relatos que chegam da Cisjordânia, registam-se apenas alguns confrontos em Hebron e Nablus, mas pouco significativos e nada comparáveis aos protestos de Gaza. Tudo indicia que a Fatah não está interessada em promover uma nova intifada. A única declaração que se encontra é esta, algo inócua, na qual se apela ao mundo muçulmano para proteger Jerusalém. Ainda esta manhã, a BBC News passava imagens em directo da rotunda Al Manara, em Ramallah, onde, normalmente, se concentram manifestações, e o ambiente era estranhamento calmo para aquilo que costuma ser em momentos de contestação e que eu, pessoalmente, lá vivi em diversas ocasiões.

 

A questão é saber se neste momento interessa à Autoridade Palestiniana e à Fatah abraçarem a causa dos seus "irmãos" da Faixa de Gaza, sabendo de antemão que qualquer acto mais agressivo contra Israel terá consequências dramáticas na Cisjordânia, em cidades como Ramalhah, Belém, Hebron ou Nablus. Do que se vai percebendo, a Fatah e o poder instalado em Ramalhah não parecem estar dispostos a sacrificarem a sua condição para dar força a uma terceira intifada. Para já, os palestinianos na Faixa de Faza estão entregues à sua sorte, como aliás, tem acontecido há quase 20 anos.   

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11 comentários

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De Meister Von Kälhau a 15.05.2018 às 19:02

United Nations Security Council Resolution 242

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None abstained
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Unanimously approved

The preamble refers to the "inadmissibility of the acquisition of territory by war and the need to work for a just and lasting peace in the Middle East in which every State in the area can live in security".

In 2004 the International Court of Justice, in an advisory, non-binding opinion, noted that the Security Council had described Israel's policy and practices of settling parts of its population and new immigrants in the occupied territories as a "flagrant violation" of the Fourth Geneva Convention.

Israel deve entregar os territórios ilegitimamente ocupados.
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De lucklucky a 15.05.2018 às 20:42

Ora aqui está o típico Marxista admirador de carne para canhão, uso de escudos humanos incluindo deficientes quando é o seu lado que está no poder.

Típico da cultura totalitária de Poder em que os caídos em desgraça são mandados limpar campos de minas com as pernas, só que agora em vez de russos são palestinianos.


Protestas pela ocupação da Sérvia, Kosovo? Protestas pela ocupação de Moçambique, Angola etc? Protestas pela ocupação da Dalmacia?
Protestas pela ocupação das Kurilas? Protestas pela ocupação da Istria?
E muitos outros.
Não não protestas, porque não são Israel.

A única razão porque há guerra é porque o jornalismo Marxista quer a guerra, em todos os outros locais do mundo a guerra termina por se aceitar o status squo.no terreno.
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De Meister Von Kälhau a 15.05.2018 às 19:11

Possivelmente o silêncio da Fatah deve-se mais à inimizade com o Hamas do que à empatia pelas políticas de "Bibi" Netanyahu.
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De Sarin a 15.05.2018 às 21:12

Que simpático, "possivelmente"...

A Fatah não tem interesse em começar uma acção com um movimento que não pode controlar. Nem quer fazer perigar a relativa calma que conseguiu - não significando com isso que desistiu de reclamar os territórios e o Estado.
É o Hamas que, mais radical, terá de encontrar outra forma de chamar a Gaza a Comunidade Internacional - já se viu que esta apenas lamenta à distância, não vá pisar os calos a alguém.
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De lucklucky a 15.05.2018 às 20:56

"Era uma iniciativa que estava condenada desde o início. "

Condenada!? A iniciativa foi um sucesso

Vê-se mesmo que ainda não entende o que é o jornalismo.
Os incentivos que cria, o que desincentiva. Os comportamentos que fomenta,
os comportamentos que pune.
Não entende sequer a lógica que o jornalismo criou neste conflito em particular.

A iniciativa do Hamas foi um sucesso: teve muitos mortos palestinianos.


"Há uma estrutura de poder minimamente estável, os serviços públicos funcionam, existe uma economia, as universidades fervilham de actividade, os restaurantes e café estão abertos nas várias cidades palestinianas, digamos que há uma certa dinâmica de sociedade. Além disso, a circulação entre a Cisjordânia e Israel, através de vários postos de controlo ao longo da fronteira, é muito mais facilitada."

Mistério...porque é que será?
Será porque não existe tanta violência Palestiniana ?
Será porque o Hamas dispara rockets e morteiros sobre Israel e não a Fatah?

Será porque não existem ataques e tentativas de Invasão de Israel em que o jornalismo Marxista na sua constante manipulação coloca como título "Protestos"?

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De jo a 16.05.2018 às 09:58

A culpa dos civis que morrem atingidos por balas reais é sempre deles.

Quem lhes mandou colocarem-se no caminho da bala?

Claro que defender-se de uma multidão desarmada com snipers, além de perfeitamente legítimo demonstra uma coragem a toda a prova.
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De lucklucky a 16.05.2018 às 18:11

Não sabe que "civis" cometem violência e por isso deixam de ter a protecção?

O que chama a tentar rebentar e invadir um país alheio, atirar cocktail molotov e pedras e disparar armas?

Toma lá civis com "apenas" "light weapons":

https://twitchy.com/sarahd-313035/2018/05/15/embarrassing-msnbc-reporter-accidentally-torpedoes-medias-unarmed-protesters-lies-video/

E se civis o rodeiam numa rua e não o deixam passar mesmo sem armas isso não é violência? Se civis se aproveitam da porta aberta de sua casa para entrar isso não é violência?

http://alaqsavoice.ps/news/details/203028

Tradução para si: é um tipo do Hamas a declarar que mais dos 50 mortos eram do Hamas.

Isto claro são dados que não interessam ao Jornalismo Marxista que você vê e lê todos os dias
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De Anónimo a 16.05.2018 às 21:58

Para ser mais preciso: 53 das 62 vítimas!

É difícil identificar este número entre milhares de manifestantes (crianças, jovens, mulheres, idosa/os, etc.). As forças israelitas atiraram discriminadamente...
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De Vento a 15.05.2018 às 22:11

A sua reflexão está muito bem estruturada, quer no que explicita quer no que infere. Porém a pergunta que aqui deixo é a seguinte: Em que é que isso retira a legitimidade à contestação em Gaza?
ou
Há legitimidade na barbárie do governo israelita e na fanfarronice de Trump em deslocar a embaixada para Jerusalém?

Parece-me que na faixa de Gaza leva-se a efeito a afirmação que "nem só de pão vive o Homem".
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De Bea a 15.05.2018 às 22:12

Pobres palestinianos da faixa de Gaza. Lutam sozinhos contra Golias. E não são David.
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De lucklucky a 16.05.2018 às 18:12

São vocês que constroem todos os dias os "pobres palestinianos" e ainda querem mais.
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De Anónimo a 17.05.2018 às 14:36

Pobre é o seu cérebro, lucklucky. Precisa de um transplante de cérebro!

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