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O progresso do retrocesso

por José Meireles Graça, em 13.01.20

Na última campanha eleitoral a Iniciativa Liberal tinha uns cartazes em que mostrava o lento deslizar para os últimos lugares da EU, no que toca ao rendimento per capita, em paridades do poder de compra, do nosso país.

O assunto passou para a opinião publicada e para o debate político, e é dramático. Lembremos os factos:

  1. A Estónia e a Lituânia ultrapassaram Portugal (segundo aquele indicador, que é o que vou utilizar sempre para o que segue), na vigência do governo anterior;
  2. No mesmo período, dentro da EU, cinco países tiveram um desempenho pior que o português: foram eles a Grécia, a França, a Eslováquia, a Suécia e o Reino Unido. Destes, só a Grécia e a Eslováquia têm um problema sério de atraso relativo, e só deles, portanto, é que se pode dizer que defrontam o mesmo problema que Portugal;
  3. Há agora oito países ainda abaixo do nosso lugar na hierarquia dos 28: são eles a Bulgária, a Grécia, a Croácia, a Letónia, a Hungria, a Polónia, a Roménia e a Eslováquia. Mas, destes, apenas a Grécia e a Eslováquia cresceram menos do que nós. Ou seja, tudo o mais igual, o objectivo estratégico do nosso país parece ser atingir o 26º lugar, ou facilitar a admissão na EU da Albânia, do Montenegro e da Sérvia, para que nos afastemos da embaraçosa cauda.

É esta a medida do apregoado sucesso do governo PS. E como a IL trouxe estas aborrecidas comparações para o espaço público, havia que engendrar o adequado spin, tarefa em que o PS se especializou desde os gloriosos tempos de Sócrates.

Coube a Centeno, há dias no Parlamento, dar o mote, e foi ele que afirmou, com a suficiência aparvalhada que é a sua marca d’água, que todos os países que cresceram mais do que Portugal têm dívidas públicas substancialmente inferiores. O peso do serviço da dívida compromete o crescimento, por inibir o investimento público.

Quem se der ao trabalho de pesquisar vai descobrir que há várias listas do ranking do endividamento e nesta, por exemplo,  a Itália é apresentada como tendo um endividamento maior, mas nem por isso cresceu menos do que Portugal. Depois, o problema é complexo porque o endividamento líquido é diferente do bruto, e não é indiferente que os financiadores sejam nacionais ou estrangeiros.

Sendo embora ocioso negar que a dívida condiciona o crescimento, a menos que resulte de investimentos reprodutivos, é fantástico que seja um ministro do PS a vir negar o mantra das virtudes dela: não vai longe o tempo em que o partido, o seu actual líder, e legiões de economistas albardados de cátedras, defendiam as virtudes do défice e o seu efeito multiplicador. De resto, um magistrado da opinião como Pacheco Pereira, decerto bebendo nos alquimistas universitários que ainda não se reconverteram (coisa que o próprio fará dentro de algum tempo, por mudar de opinião a cada 15 anos, sempre papagueando os últimos autores que julga de referência), continua a debitar com superioridade as mesmas lérias que lhe granjearam um nome e audiências.

Dizer que o país não pode crescer mais porque está peado é uma confissão de impotência, talvez natural num académico convertido em funcionário partidário e às tranquibérnias do PS, que toma como política. Mas não é política, é politiquice, por muito que resulte no sucesso do partido que o acolhe e na garantia de uma carreira de tachos e prebendas futuras.

Se os juros da dívida comprometem a despesa pública, só impõem impostos altos porque não há qualquer esforço para a diminuir. Ora, o que distingue os países recordistas no crescimento não é apenas terem um endividamento menor – a fiscalidade é também mais leve. E o argumento de que a nossa carga fiscal não é das piores tem um grave defeito lógico, que consiste em nós, fazendo o mesmo que aqueles que queremos alcançar, nunca podermos encurtar a distância.

Talvez por isto, há dias tropecei num argumento novo, que será o de a diferença de crescimento vir do facto de os países com melhor desempenho terem uma população com níveis superiores de educação. Não é porém difícil perceber que a educação, só por si, nunca garantiu crescimento em lado algum: os países que já e os que nos vão ultrapassar tinham níveis de educação superiores quando, por serem comunistas, não progrediam; e a própria mãezinha destes regimes, a Rússia, que igualmente apostava na educação, não é propriamente um exemplo de milagre económico. Aliás, Portugal hoje exporta médicos, enfermeiros, arquitectos e outros depositários de um saber no qual o país investiu. Conviria perceber por que razão vão enriquecer quem na formação deles não despendeu pevas.

Neste ponto, seria altura de declarar o meu apoio a este texto do deputado da Iniciativa, porque pareço navegar nas mesmas águas. Mas não navego: mesmo acreditando (e acredito) que a redução de impostos é um excelente catalisador do crescimento, há pelo mais duas condições (entre muitas outras) que têm de estar presentes, e são elas a previsibilidade e a saúde das contas públicas. Ora, um horizonte de quatro anos é curto para aliciar investidores, é preciso que acreditem que o país não é, como na realidade é, um lugar onde é pacífico que a melhor maneira de criar riqueza é distribuí-la; e o nosso endividamento pode facilmente derrapar, à boleia de uma qualquer convulsão europeia que mude as agulhas do BCE, ou um atentado que cause danos à indústria do turismo que o Governo diz que promoveu, mas foi promovida pelas low-cost e os atentados islâmicos noutras paragens.

Donde, a prioridade deveria ser a redução do endividamento através do  alargamento de superavits, e portanto pela redução da despesa pública, isto é, pela eliminação de serviços públicos inúteis ou redundantes e despedimento de funcionários.

Reduzir impostos sem reduzir a despesa é uma aposta arriscada e eu não sou adepto de jogos de fortuna e azar, a menos que a feijões.

Ai e tal, se não for assim não será de maneira alguma porque toda a gente quer mais, não menos, despesa pública, e já, mesmo que um crescimento robusto viesse a permitir no futuro um aumento nominal da despesa.

Será. Há que concluir então que talvez não haja outro remédio senão um crescimento poucochinho.

Mas não foi isso que elegemos, um governo poucochinho?


15 comentários

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De Anónimo a 13.01.2020 às 19:25

Um pais que pune quem se destaca.
Se fosse pela cultura do regime - e aqui tanto vale antes ou depois do 25 de Abril - nunca internet teria aparecido para todos em Portugal. A única razão por que assim sucedeu é porque os de fora o fizeram. Foi por cópia, foi para parecer moderno.
Mas se fosse pela vontade dos moralistas dos Expressos, Publicos, DN's RTP's, RDP's etc... nunca teríamos tido acesso.


lucklucky
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De Anónimo a 13.01.2020 às 19:34

Acredito que ninguém elegeu um governo poucochinho...
Elegeu-se quem nos tirou, parcialmente, das aflições (PaF),
ao
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De jo a 13.01.2020 às 20:05

Os nossos liberais queixam-se que o Estado não desenvolve o país

Claro que os nossos capitalistas de pacotilha que andaram a torrar bancos e empresas privatizadas, ao mesmo tempo que eram incensados pelos nossos jornalistas especializados em economia, não têm nada a ver com isto.
Pelo menos já pararam de dizer que a nossa banca é "séria segura e confiável", como diziam em 2010 e 2011, era um verdadeiro mantra.
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De Aurélio Buarcos a 13.01.2020 às 20:43

1. Poucochinho, muito poucochinho,, foi o número de votos que elegeram Antonio Costa; digamos que em cada dez pessoas inscritas nos cadernos eleitorais nem uma votou nele, 0.98 ou coisa do género é o resultado oficial.
2. Se estiver numa fila com dez pessoas, é provável que nenhuma delas tenha votado em Costa isso diz tudo sobre a sua (dele) legetimidade.
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De Elvimonte a 13.01.2020 às 23:44

Post keynesiano, anti-keynesiano e pró-keynesiano. A fazer lembrar aquele cartaz (não o do Marx, Mao, Marcuse) com a seguinte inscrição: dantes era indeciso, mas agora já não tenho a certeza.

O único fio condutor da sua lógica é a alarvidade intectual, tão recomendável como a gaguez da Joacine no lugar de deputada ou professora.
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De José Meireles Graça a 14.01.2020 às 00:41

Sim senhor, Keynes, Marx, Mao e Marcuse num comentário de quatro linhas não está mal, e estaria melhor se quisesse realmente dizer alguma coisa. Infelizmente, tão grandes autoridades para suportar um insulto gratuito é que é um desperdício. Sugiro que, para voltar a comentar aqui, contenha a sua raiva, Elvimonte. Não exijo dos leitores concordância, e ainda menos aplauso, mas não tenho de aturar moços malcriados.
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De Anónimo a 14.01.2020 às 00:58

Até lhe daria inteira razão (porque a tem) mas o que comentador JO escreveu acima ainda cá está gravado e bem gravado, diga-se.
O problema dos "liberais democratas" é que só querem liberalismo para os "outros" e enquanto assim fôr não terão apoio de ninguém a não ser deles mesmo.

WW
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De jpt a 14.01.2020 às 09:51

Estamos então condenados ao poucochinho? De facto, com a vida a correr e as décadas a sucederem-se, cada vez mais me disso me convenço
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De Anónimo a 14.01.2020 às 12:33

Aparentemente, sim. Mas tenho uma longa história de falhanços nas previsões, de modo que há esperança.
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De jpt a 15.01.2020 às 09:58

é a última a ceder, essa esperança. Heróica, claro
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De Cristina Torrão a 14.01.2020 às 10:00

Baseada na minha experiência (27 anos de vida num país que englobou um país de leste), a aposta na educação nos antigos países comunistas não passa de um mito. No geral, havia boa formação técnica, para que a sociedade funcionasse, mas mais a nível médio. E, quanto a estudos humanísticos, era uma desgraça. Claro, a União Soviética precisava de engenheiros bem formados, na sua corrida pela conquista do Espaço, ou na indústria bélica. Mas era uma formação muito controlada, apenas para uma elite. A população em geral era muito ignorante (embora praticamente não houvesse analfabetismo, mas de pouco adianta saber ler e escrever, se existe controlo apertado em relação às nossas leituras), ainda hoje se nota essa ignorância na antiga RDA. Era um sistema educativo muito fechado, centrado apenas no seu mundo, como se quer numa ditadura. Ora, assim não se podem alargar horizontes, embora se possam formar bons profissionais em algumas áreas.

Aos tempos da queda do Muro de Berlim, notava-se, na população da Alemanha de Leste, uma grande ânsia de parecer moderno, em tudo querendo imitar os seus compatriotas do Oeste. Faziam-me lembrar pessoas da província a querer imitar citadinos (sem querer menosprezar o saber e a experiência de vida de quem é oriundo de regiões isoladas). Mas os alemães de leste exibiam um "provincianismo" que revelava estarem muito longe de serem pessoas cultas, bem formadas e informadas. Esse atraso ainda hoje se verifica, já que houve muitos erros na unificação alemã, que hoje aliás se pagam caro (pelo menos, a nível interno).
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De Anónimo a 14.01.2020 às 12:39

Acredito, Cristina. A ser como diz, o argumento de que as diferenças de educação são a explicação para as diferenças de desempenho na economia fica ainda mais enfraquecido.
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De Cristina Torrão a 14.01.2020 às 18:39

Mas não foi isso que eu quis dizer. O desempenho da economia dos países comunistas era tão desastrosa, que eles faliram. E eu tentei mostrar que a educação, por lá, não era famosa. Ou o Anónimo conhece alguma Universidade famosa de leste, ao nível de, por exemplo, Oxford, Sorbonne ou Harvard?

Pretendi, acima de tudo, demonstrar dois aspectos:

1 - Educação não é igual a educação; de nada adiantam campanhas de alfabetismo, se servem apenas para ler a propaganda do Partido.

2 - A educação não é o único garante de um bom desempenho da economia, mas é um factor essencial.
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De Anónimo a 14.01.2020 às 21:32

saiu muito crânio da Lomonosov, minha senhora. Pode equiparar-se e muito bem à Ivy League.
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De Vento a 14.01.2020 às 14:51

Compreendo sua perspectiva, José Meireles.

Estou em crer que esta análise necessita de elementos mais concretos e globais.

1 - A China, que possui uma economia de escala global, mendiga agora favores à Casa Branca para um acordo Comercial. Isto, não obstante a referida escala global, revela que internamente a China não tem escala em proporção da sua população.
2 - A UE, controlada pelo eixo Paris-Berlim, no sentido de manter a sua economia com escala, asfixiou essa mesma escala através de um conceito económico bizantino e pitagórico, que resultou na perda dessa mesma escala ao direccionarem políticas de austeridade que preservassem o seu esquema económico e financeiro.
3 - Os USA, na pessoa de Trump, conhecedor que a economia dita global funcionava fundamentalmente para sectores que nada mais faziam que deslocalizar produção e ligeiro crescimento para as áreas de deslocalização dessa mesma produção, mas gerando um deserto em outras áreas, sabendo que internamente possuía escala, capacidade de crescimento e população que ajudasse a tal crescimento, implementou um conjunto de medidas que resultou numa espécie de milagre económico, com crescimento inegável e melhoria do emprego.

Aqui chegados, importa compreender que Portugal não tem estratégia económica e financeira, e jamais poderá ter no contexto abordado no ponto 2 desta reflexão.
Compreende-se de tudo isto que a esquerda e a direita em Portugal nada mais podem fazer que não garantir um certo status de sua clientela, ou corporações, e fingir que minimiza a pobreza aumentando ridiculamente alguns que nada possuem para garantir um pouco mais aos que se enquadram no grupo referido.
Portanto, as políticas futuras da UE e de Portugal, até que o colapso se torne mais evidente, será trabalhar os Orçamentos para garantir a sustentabilidade financeira alemã e francesa, que resultará, como já resulta, no prejuízo de sua força produtiva.
Assim, a Portugal compete aplicar a solução fácil, prática e pouco esforçada de criar Orçamentos baseados no crescimento de Impostos, mesmo que encapotados, e diminuição no défice dos serviços que deixam de ter serviços adequados, mas garantem algum contentamento salarial em quem aí trabalha.
Dito isto, e não havendo mesmo alternativa, Portugal continuará a trabalhar para pagar juros e serviços da dívida.

Concluindo, a fórmula teórica em fazer acontecer produção e inovação em bens transaccionáveis e redução de impostos nada mais é que um mito aplicado em teoria, mas impossível no contexto.

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