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Delito de Opinião

O problema do excesso de analogia

Luís Naves, 02.03.24

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A propósito deste texto de João Pedro Pimenta, ocorreu-me a seguinte reflexão:

As analogias históricas podem ser úteis para entender conflitos, mas também podem cegar quem fique demasiado preso ao exemplo. Este tem sido o problema de uma discussão onde dizer que a Rússia não pode perder a guerra da Ucrânia equivale a ser acusado de putinofilia.
A Rússia perdeu a Guerra da Crimeia no século XIX, é um facto, o império foi derrotado e a península manteve-se russa. Na interpretação nacionalista da época, os eslavos do sul (cristãos ortodoxos) continuaram a ser oprimidos pelo império otomano (muçulmano) graças à ajuda britânica e francesa. Os russos nunca se apoderaram de Constantinopla e ainda hoje têm pena.

 

A Prússia de Bismarck, que não se meteu no assunto, foi a potência que beneficiou dos ressentimentos que a Rússia acumulou neste conflito. Para citar um exemplo, a débâcle do exército francês em 1870 teve a ver com a "neutralidade" russa durante a guerra franco-prussiana, maldade que o czar fez a Napoleão III, que no início da carreira foi um dos vencedores do conflito da Crimeia. Se a Rússia tivesse atuado, a Prússia não teria vencido a França.
A guerra de 1853-56 na península da Crimeia levou os russos a manter forte rancor em relação à Áustria-Hungria, já que tinha sido um exército do czar a sufocar a rebelião húngara de 1848-49, ajuda que Viena pagou com cinismo. A rivalidade entre os dois impérios nos Balcãs foi um dos motivos cruciais da I Guerra Mundial, onde a Rússia já era aliada de britânicos e franceses. A ofensa austríaca nunca foi perdoada em Sampetersburgo.
A ressaca da Crimeia pode ser encontrada em Tolstoi (que combateu em Sebastopol) e nos livros de Dostoievski, sobretudo nos Cadernos de Um Escritor, mas também no romance Os Possessos, onde há referências ao sentimento que os russos das classes elevadas tinham em relação aos europeus ocidentais. Nesse romance, as personagens falam de política e, num dos diálogos, alguém explica que os territórios a ocidente do Dniepre deviam ser incluídos numa hipotética Polónia reconstruida.
A Polónia deixara de existir e estava dividida entre três impérios, a frase é pronunciada por um tolo e a intenção de Dostoievski é irónica, mas lá está o problema que persiste 150 anos depois, a divisão entre russos e eslavos ocidentais; podemos acrescentar que os então rutenos da Galícia, no império austro-húngaro, que falavam a língua ucraniana, submetiam-se às elites polacas da época. Os ódios foram intensos e traduziram-se, durante a II Guerra Mundial, em massacres de populações polacas e judias às mãos dos nacionalistas ucranianos. É interessante verificar que os nacionalistas russos (incluindo Vladimir Putin) falam desta "fronteira" no Dniepre, com russos a leste. O resto é a Polónia histórica ou o ocidente em declínio e eles não estão interessados.
Peço desculpa pela dispersão, quero apenas sublinhar que a História explica melindres e ódios, permite ver melhor os erros do presente, mas as novas circunstâncias são mais importantes do que a analogia. A Rússia é uma potência nuclear e jamais permitirá que o Ocidente controle a península da Crimeia (que permite o domínio do Mar Negro) ou a aproximação da NATO a Moscovo. Admito que as potências ocidentais queiram marchar sobre a antiga Galícia (Lviv ou Lvov ou Lemberg), é possível que esta guerra se prolongue, mas isto só pode acabar com uma negociação entre EUA e Rússia, que são as duas maiores potências nucleares. Não se está a escrever a história do passado, mas a do futuro.

A proposta de Macron foi propositadamente vaga. Talvez o presidente francês quisesse desviar as atenções domésticas, mas um choque direto entre tropas da NATO e forças da Federação da Rússia aproxima-nos do holocausto nuclear e será um disparate sem nome. Ninguém com juízo pode acreditar que esse resultado seja racional. Os conflitos mencionados ao longo deste texto foram todos horríveis e provocaram inúmeras vítimas, mas nenhum dos líderes envolvidos imaginou a possibilidade de ficar sem planeta. Há novas regras de jogo e são simples: as potências nucleares não se envolvem em combates directos, pois é tudo muito mais perigoso do que no tempo de Hitler ou Estaline.
Há outra contradição neste episódio. Muitos países europeus da NATO não conseguem cumprir o compromisso de gastar 2% do PIB em defesa, parecem ter problemas de munições e equipamento; curiosamente, a NATO europeia gasta cinco ou seis vezes mais dinheiro em defesa do que a Rússia, mas os líderes dizem agora que há perigo de ataque russo. Como é isso possível e de que forma se resolve o problema sem ter de aumentar os orçamentos nacionais de defesa? Simples: é preciso uma futura política militar europeia, que não consta dos Tratados, paga com dívida da UE. Bruxelas, que não elegemos, passará a decidir sobre guerra e paz. A Ucrânia é apenas o campo de batalha, mas não é o motivo.

imagem criada por inteligência artificial, Bing Image Creator

 

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