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Delito de Opinião

O preconceito dos traumas

Cristina Torrão, 01.07.22

Visão Biografia Eça de Queirós.jpg

A vida de qualquer um de nós daria um romance, bastava saber escrevê-lo. O grande escritor Eça de Queirós não representa uma excepção, a sua vida é tão interessante como muitos dos enredos por ele criados. O texto que registou a sua entrada neste mundo não podia ser mais absurdo: filho de "mãe incógnita". Lendo eu, na publicação acima representada, que ele foi baptizado na igreja matriz de Vila do Conde a 1 de Dezembro de 1845 e estando habituada a fazer pesquisas familiares online, pus mãos à obra. E, em menos de cinco minutos, encontrei o registo de baptismo de José Maria, com a carta que seu pai fez questão de acrescentar ao livro paroquial:

Eça de Queirós PT-ADPRT-PRQ-PVCD28-001-0018_m006

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À altura do seu nascimento, os pais, Carolina Augusta Pereira d'Eça e o Dr. José Maria Teixeira de Queirós, não eram casados, só dariam o nó quatro anos mais tarde. A condição de mãe solteira parece ter sido vergonhosa demais para a jovem de boas famílias. Mal nasceu, o pequeno José Maria ficou aos cuidados de uma ama. O registo de batizado reza: ".. filho natural de José Maria d'Almeida de Teixeira de Queiroz e mãe incógnita". O pai fez questão de acrescentar ao documento a cópia de uma carta que enviara dias antes a Carolina Augusta, dizendo ter recebido instruções do seu próprio progenitor para fornecer apelido burocrático ao pequeno. E justificava: "Isto é essencial para o destino futuro do meu filho, e para que, no caso de se verificar o meu casamento consigo (...) não seja preciso em tempo algum justificação de filiação".

Seria lógico que, ao verificar-se o casamento, em 1849, a jovem família enfim se reunisse. Mas tal não aconteceu. Depois da morte da ama, o pequeno, de cinco anos, foi enviado para Verdemilho, propriedade dos avós paternos. Tendo falecido a avó, foi despachado, aos onze anos, para casa de uns tios, no Porto, e passou a frequentar o Colégio da Lapa, pois os pais «repetiam a estranha rejeição de o manter fora do seu convívio - e do dos irmãos entretanto nascidos» (Visão - Biografia, p. 24). Só depois de ter concluído a Licenciatura, em Coimbra, José Maria Eça de Queirós foi autorizado a viver com a família, entretanto mudada para Lisboa.

É impossível circunstâncias destas não marcarem, de alguma maneira, a vida de uma pessoa. O mais curioso é não saberem lidar bem com o assunto aqueles que se ocupam, ou ocuparam, da vida e da obra deste escritor. Oscilam entre o exagero de um trauma profundo, como João Gaspar Simões, no seu tomo biográfico dedicado a Eça de Queirós, e o ignorar de qualquer marca, como Maria Filomena Mónica, que, na entrevista dada à Visão - Biografia afirma ser «altíssima (...) a percentagem de filhos ilegítimos em Portugal na altura em que Eça nasceu». Como se o facto de o caso não ser único  invalidasse o impacto na pessoa em questão. O termo "altíssima" é muito relativo, pois a grande maioria dos recém-nascidos, no século XIX, eram legítimos. A ilegitimidade era sempre um estigma.

Bem, é verdade que Eça de Queirós acabou por ser perfilhado. Mas Maria Filomena Mónica acrescenta: «Depois de ter acabado o curso em Coimbra, passou até a viver em casa dos pais que, entretanto, se tinham casado». Esta frase é de uma frieza incrível. A investigadora apaga a infância e a juventude do escritor, mais de vinte anos rejeitado pela casa paterna, impedido de convivência íntima com os pais e os irmãos, apesar de legalizada a situação. Pergunto-me mesmo que tipo de contacto ele tinha com os pais, nomeadamente com a mãe. Se é que tinha algum.

Parece que há uma certa vergonha em aceitar que um génio da literatura possa ser afectado por circunstâncias constragedoras na sua formação. Como se não se tratasse de um ser humano! E esquecendo que a escrita de Eça, simbolizada na sua obra-prima, se centra numa situação de incesto entre dois irmãos que não se conheciam. Não esqueçamos igualmente que a ideia para Os Maias amadureceu a partir de uma outra situação, ainda mais difícil de engolir: a relação incestuosa entre uma mãe e um filho.

A Tragédia da Rua das Flores permaneceu mais de cem anos entre os manuscritos inéditos do autor, só foi publicada em 1980, altura em que deixou de estar na posse dos herdeiros e passou a pertencer ao domínio público. Ou seja, os descendentes próximos de Eça pareciam não se sentir confortáveis com o enredo. E deixemo-nos de pruridos: o escritor denota uma certa obsessão pelo tema, essa possibilidade de duas pessoas de parentesco muito próximo, mas que não se conhecem, se apaixonarem. Foi algo que obviamente lhe ocupou grande parte da vida (caso contrário, não conseguiria escrever sobre isso) e o motivo poderia muito bem ter sido o impedimento de privar com a própria mãe e os irmãos, num altura fulcral da sua formação. Além disso, muitas das suas personagens, mesmo algumas secundárias, são criadas por avós ou tios.

Isto diminui, de alguma maneira, a grandeza de Eça? Pelo contrário! Denota coragem, capacidade de lidar com os seus fantasmas, analisá-los, inventar um enredo nisso baseado e passá-lo para o papel. É aliás isso que define um grande escritor ou escritora: a capacidade de se servir das próprias vivências, de as enfrentar, de as arrancar do seu interior para as observar e analisar perante si. Onde vai um artista buscar as ideias, o material a ser moldado, a fim de criar a obra de arte, senão à sua própria vida?

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