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O populismo vai nu

por Diogo Noivo, em 20.12.15

rey.jpg

 

O Podemos pode conseguir hoje um bom resultado nas eleições em Espanha. A ascensão deste e de outros populismos fez-me recordar um episódio célebre protagonizado por Juan Carlos I e por Pilar Rahola.

 

Em 1996, Pilar Rahola foi eleita deputada. Era a cabeça de lista do partido Esquerra Republicana da Catalunha. Como sempre acontece após um acto eleitoral, foi chamada a audiência com o Rei para que este cumprisse o preceito de ouvir todos os partidos antes de indigitar o vencedor daquelas eleições, o Partido Popular. A señorita Rahola decidiu que ia dirigir-se ao monarca tratando-o como “cidadão Bourbón” e que levaria no peito um pin do seu partido, cuja imagem principal era a bandeira republicana. Para além de quebrar o protocolo de Estado na forma como se dirigiria à instituição real, esperava Pilar Rahola que a bandeira republicana surtisse em Juan Carlos I o efeito que o alho provoca nos vampiros. Seria a bandeira a provocar em Juan Carlos de Bourbón a explosão de fúria que poria fim à audiência e que permitiria à deputada sair vitoriosa. Em suma, uma manifestação de infantilismo provocatório, comum aos radicais (à esquerda e à direita) que são obrigados a viver em democracia. E claro, como a provocação era inconsequente – pois dela nada resultaria –, a deputada comunicou com alarde à imprensa o seu propósito antes de entrar na audiência. Sem publicidade, a bravata era uma perda de tempo.

Segundo relatos, Pilar Rahola, ao deparar-se com Juan Carlos I, disse: “Cidadão Bourbón, compreenda que sou republicana e que tudo farei para deixá-lo sem trabalho”. Não atribuindo qualquer importância à ousadia no trato, o Rei respondeu com a sua bonomia lendária: “E eu farei o meu melhor para que não mo tires”. É então quando o Rei repara na bandeira republicana ao peito da deputada. Aproxima-se dela, pede licença, estende as mãos e ajeita-lhe o pin. “A bandeira estava torta, senhora deputada”. Desta vez, coube ao Rei dizer que o populismo ia nu.

A deputada republicana não percebeu que ao desrespeitar o protocolo de Estado não estava a desrespeitar o Rei, mas sim as instituições escolhidas pelos espanhóis na Constituição de 1978. Mas mais importante, o Rei demonstrou que a grandeza das instituições e o respeito pelo modus vivendi constitucional não requerem grandes gestos nem grandes proclamações. Bastou pôr em evidência a debilidade do espectáculo.

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7 comentários

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De Costa a 20.12.2015 às 13:55

Essa insensata Pilar foi chamada a "audiência", evidentemente. Só lhe refiro isso porque esse natural e mero lapso bem pode render algum gozo estéril a insensatos(as) Pilares da nossa praça e que por cá gostam de aparecer.

Costa
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De Diogo Noivo a 20.12.2015 às 16:08

Tem toda a razão, caro Costa. Gralha corrigida – e votos de morte lenta aos correctores ortográficos automáticos. Agradeço o seu comentário e o reparo.
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De lucklucky a 20.12.2015 às 16:53

Lá vem a construção da narrativa construindo uma blame word para acusar os outros de serem populistas quando na verdade também se é.
A Democracia Social é uma instituição naturalmente populista.

Por exemplo cá todos os partidos são populistas do PCP ao CDS, passando pelo PS e PSD, prometem o que não podem cumprir, fazem o que não podem pagar, tiram coisas de uma minoria para dar a uma maioria.





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De Costa a 20.12.2015 às 17:36

Pelo menos por lá - Espanha (estado espanhol, o que se lhe queira chamar) - não se tem que levar, a partir de um arrogantemente dominante púlpito, com os regulares sermões sobre a superioridade da chamada e dogmática "ética republicana".

Que manifestamente, para quem tenha um módico de bom senso (independentemente de se ser republicano, monárquico ou indiferente à questão) e se imponha a liberdade de pensar pela sua própria cabeça - e uma coisa implicará a outra -, só o é enquanto sólido sistema, código e seita dedicados ao mais descarado nepotismo.

Costa
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De Helena Sacadura Cabral a 20.12.2015 às 20:08

Caro Noivo
Pois aqui está outro inteligente texto. Se continuares assim - aqui tratamo-nos todos por tu e eu até tenho idade ser quase tua avó - vais ter uma fila de fãs a ler os teus post's!
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De Diogo Noivo a 21.12.2015 às 17:00

Simpatia sua, ou tua – confesso que me vai custar o trato por tu, não por intenção de manter a distância, mas por hábito de respeito. E avó parece-me excessivo. Estou certo que é por pouco que não somos da mesma criação. Obrigado pelo comentário simpático, Helena!
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De jo a 20.12.2015 às 22:52

Realmente um rei, não sendo eleito por ninguém, não tem de ser populista.

Nem os ditadores nem nenhum dos outros não democratas, que se arrogam de um direito especial para governar, quer seja o nascimento, quer seja a força das armas.

Claro que a nossa direita bem pensante pensa que tem o direito divino a governar e não se deve dar cavaco ao povo, esses maltrapilhos, que não conhece a Verdade. Mas enquanto não conseguirem acabar com as eleições, não pode ser nada.

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