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O Parolismo

por jpt, em 10.04.19

Uma entrevista de Augusto Santos Silva, mNE (basta googlar que se encontrará uma versão resumida, com cerca de 10 minutos). Não particularmente interessante, não tanto pelo ministro mas devido ao tom afável e até algo subserviente da entrevistadora - há ali uma nuvem de comunhão de casta, tonitruante no final na partilha de "grande amigo", que abre auto-estrada para que Santos Silva saia incólume e até com louros da entrevista, de facto conversa.

Mas, e para além de algumas afirmações interessantes sobre política externa, ainda que não inovadoras, infelizmente não esmiuçadas, o cabeçalho terá que ser as declarações sobre política interna - já agora, nem uma palavra sobre as eleições europeias e sobre "que Europa?", para além de plácidas considerações sobre defesa comum, mostram o tom demasiado "charmoso" da entrevista. E sobre esta Augusto Santos Silva, reclamando alguma rusticidade lexical que faz ancorar no seu portismo, diz serem "parolos" os que se preocupam com as redes familiares no poder político.

Somos então parolos, prisioneiros do parolismo, quando resmungamos com a política de pleno emprego político na família do presidente do PS, o infausto César. Somos parolos - eu, com toda a certeza - quando nos iramos com o secretário de estado da defesa do consumidor que quer o amante capitão à mão de semear, desgraduado em motorista. Somos parolos quando notamos que no PS, confrontado com tanta festividade empregadeira, a sua secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, considera que o seu partido de ninguém recebe lições de ética (conviria lembrar, para o caso de alguém se ter esquecido, que o anterior governo do PS, no qual estavam inúmeros ministros actuais, foi chefiado pelo antigo 44 da penitenciária de Évora, durante anos sufragado por mais de 95 por cento dos congressistas socialistas, entre os quais Costa, Santos Silva e, claro, Ana Catarina Mendes). Assim apresentando diferente doutrina da defendida pelo actual mNE que já declarou que "não faz julgamentos éticos", isto a propósito da trafulhice infecta que foi o anterior governo PS. 

Somos parolos ainda quando nos interrogamos sobre isto do PS nem mesmo depois da trapalhada com Sócrates ter o mínimo de cuidado nestes arranjos familiares - uma ligação cronológica, produtora de "sensações", nada colocada na entrevista, ainda que a entrevistadora até tenha aludido a hipotéticas "sensações" do eleitorado. Somos completamente prisioneiros do parolismo, dirá o douto Silva.

E, mais ainda, somos parolos, do parolismo, quando lemos o letal texto de João Pedro George (1, 2) - que terá continuação na próxima edição da revista Sábado - sobre como funcionam as relações familiares no poder político e na administração pública, como promovem a redistribuição de recursos por uma pequena clique. Eles, os socialistas, os Santos Silvas e Megas Ferreiras (bombardeado sem dó nem piedade no texto de George) são os "cosmopolitas", para usar o termo que ASS usa na entrevista como auto-definitório, de si e do seu partido. Nós somos os "morcões", parolistas.

Ah, quem me dera poder escrever palavrões no blog (e no facebook). 

Adenda: um comentador residente no DO comentou o postal com ligação a um pequeno filme, declarações de Sousa Santos evidentemente a propósito do caso Sócrates - indivíduo do qual ele foi ministro, e com o qual anteriormente foi ministro. 

O interessante é que nesta longa e plácida entrevista concedida ao "Observador", apresenta-se como um cientista social, que é, e reclama essa condição para o seu exercício da política, fundamentando-se em "estudos, sondagens", sendo de tal forma veemente que a entrevistadora se aprestou a apresentar-se como algo diferente, como "intuitiva". Mas para defender Sócrates - em 2015, ainda antes do afastamento da Procuradora-Geral, e bem antes daquele fim-de-semana de 18, no qual o presidente César, a criatura então ainda não-secretário de estado Galamba e a jornalista Câncio, confluiram numa espécie de grito de Ipiranga, querendo apartar o PS do seu sempre aclamadíssimo ex-secretário-geral -, para defender Sócrates, dizia eu, já Santos Silva vituperava a justiça portuguesa, negando as más-práticas tão duradouras do seu antigo chefe, para isso fundando-se num tão intuitivo e nada científico "é o que eu sinto". Como se que a fugir-lhe o pé para a chinela, um deslize parolo, por assim dizer.

Um bocadinho menos de reverência da entrevistadora não lhe teria ficado nada mal ...


29 comentários

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De Vorph Valknut a 10.04.2019 às 14:51

"devido ao tom afável e até algo subserviente(…)no final na partilha de "grande amigo"

https://www.youtube.com/watch?v=d-Cl_tAJQv4


Lembrem-me, mas se calhar isto está desligado.
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De jpt a 10.04.2019 às 16:13

pura e simplesmente, financiamento da fundação
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De jpt a 10.04.2019 às 16:41

obrigado pelas ligações. Fiz uma adenda com o primeiro filme, declarações realmente ligadas ao conteúdo desta entrevista.
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De Vorph Valknut a 10.04.2019 às 18:24

Jpt, já agora, consegue arranjar-me bilhetes para a jantarada do Café Império?
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De jpt a 10.04.2019 às 21:17

hum ... não me parece, não há bilhetes, é por admissão, ritualizável, bem mais difícil do que uma qualquer Loja maçónica ...
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De Vorph Valknut a 10.04.2019 às 15:13

Escrevo este texto contra o aviso de vários amigos e amigas, que me disseram: «Cuidado com o Mega. Não te metas com o Mega. O Mega é demasiado poderoso e rancoroso, vai de certeza exercer pressão ou mover influências nos bastidores para prejudicar a tua actividade profissional. Não te esqueças que tens duas filhas para criar».

João Pedro George

Obrigado pelo texto
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De jpt a 10.04.2019 às 16:46

A gente deve é agradecer a João Pedro George o texto. Como eu disse na partilha destes textos no meu mural de FB, se em Portugal há alguém com o ethos e o pathos de kamikaze é ele.

Mas também uma coragem, até fora-de-moda: o gajo afronta um "poder cultural" estabelecido desde finais dos anos 1980s, há trinta anos. Mas é meio louco, bate na maçonaria. Nunca lhe perdoarão, nem daqui a décadas (ele bem quer esconjurar isso no princípio do texto mas não lhe valerá de nada). Vai penar. E ainda por cima vem demonstrar o que são as "relações familiares", o nepotismo luso, neste caso a versão socialista (que haverá outras), neste preciso contexto. E fala de taco, mostra os orçamentos. Tudo fala disto, todos sorriem, muitos apupam, mas ninguém bate assim forte. Ele demonstra o modus vivendi lisboeta, o funcionalismo público, disseca a mentalidade estatista (e maçónica) que predomina. Alguém piedoso lhe arranje um exílio que em Lisboa nunca mais se safará.
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De Vorph Valknut a 10.04.2019 às 17:24

Dele ( João Pedro George) li o "Puta que os pariu", uma biografia de Luiz Pacheco, o poeta maldito (porventura a escolha do biografo não foi inocente)…


Talvez esteja ligado…

Luiz Pacheco - Os amigos


https://www.youtube.com/watch?v=7GO7c0kQJUc&t=22s

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De jpt a 11.04.2019 às 23:53

eu não li isso. Não sou leitor de biografias, mero gosto meu, não uma declaração de princípios - li, em puto, a de Hemingway, li a (auto)biografia do Kiff, the Riff, claro, mas acho que não li mais nenhuma. O George lia na década passada, quando brilhou, de facto, na internet portuguesa. Estes textos são abrasivos, vão-lhe custar caro (repito-me), mas são necessários.
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De Robinson Kanes a 10.04.2019 às 15:28

Uma coisa é certa, deve ter sido das poucas vezes em que Santos Silva disse algo com sentido: somos parolos porque continuamos a permitir este estado de coisas... Quinta joga o Benfica...
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De jpt a 10.04.2019 às 16:47

e a gente discutirá o VAR ...
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De Luís Lavoura a 10.04.2019 às 15:57

dirá o douto Silva

Acho que deveria ter escrito "doutor" em vez de "douto", já que, douto ou não douto, A. Santos Silva é certamente doutor - ao contrário de tantos políticos portugueses que precisam de se fingir licenciados.
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De jpt a 10.04.2019 às 16:48

douto está bem dito, por doutor, e com imensa intensidade, tratou-o implicitamente a entrevistadora
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De Luís Lavoura a 10.04.2019 às 16:01

como funcionam as relações familiares no poder político e na administração pública

Funcionam exatamente da mesma forma que no poder não político e na administração privada: pela portuguesíssima regra da cunha. O poder político português é tão-somente um espelho do poder privado português - nem pior, nem melhor. Que poderíamos nós esperar? Como poderíamos querer que, sendo o político filho do povo, ele fosse diferente desse mesmo povo?
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De jpt a 10.04.2019 às 16:49

não voto nesta para lavourada da semana
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De Pedro Correia a 11.04.2019 às 14:22

Nem eu. O comentador terá de esforçar-se mais.
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De jpt a 11.04.2019 às 23:53

para quando comendador, é a minha dúvida
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De Luís Lavoura a 10.04.2019 às 16:54

E Jesus disse aos seus discípulos, "aquele de Vós que não tenha culpas no cartório, que lhe atire a primeira pedra". (Está mal citado, mas não faz mal, porque os evangelhos também são, consabidamente, muito inexatos.) E eu acrescento, aquele de Vós que nunca tenha ganhado um lugar por intermédio de cunha, nem nunca tenha conseguido um lugar para outrém metendo uma cunha, que atire a primeira pedra a este governo.
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De jpt a 10.04.2019 às 16:59

Qual o vidro que você quer que eu parta?
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De Cristina M. a 10.04.2019 às 19:41

junto-me à lapidação.
fale por si, LLavoura, pode ser?
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De jpt a 10.04.2019 às 21:18

deve ser ...
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De Pedro Correia a 11.04.2019 às 14:24

Disse que teria de esforçar-se mais. E esforçou-se mesmo.
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De Cristina Filipe Nogueira a 11.04.2019 às 23:43

As pedras só podem ser atiradas para os telhados...?
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De jpt a 11.04.2019 às 23:57

eu por "vidro" falava em janelas .... Atirar pedras às pessoas, a vulgar lapidação, constrange-me, ateu que vou
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De jpt a 11.04.2019 às 23:55

mas demasiado "em esforço". Gosto do arreganho mas aprecio a souplesse, aqui em falta
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De Tiro ao Alvo a 11.04.2019 às 14:06

O Lavoura tem a mania de generalizar, pensando que muitos de nós são como ele e que os que não são como ele só se governam com cunhas. Ele pode não acreditar mas, em Portugal, existem muitas empresas, como existiram no passado algumas, onde a cunha não funciona, o mesmo é dizer, onde os Lavouras não teriam lugar.
Ele também devia compreender que o que estaria certo é que, em se tratando de serviços públicos geridos pelo Estado, a cunha nunca deveria funcionar. Mas, como se vê, os Lavouras aceitam, sem qualquer constrangimento essa pratica como normal.
E, infelizmente, ainda existem muitos Lavouras.
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De jpt a 11.04.2019 às 23:56

não crucifiquemos o douto(r) Lavoura, consideremos que ele está aqui a ser motriz de debate, provocatório por assim dizer
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De Anónimo a 11.04.2019 às 18:59

" Num país em pequenino, respeitinho é que é preciso" ( ou qualquer coisa do género).
Dois provincianos bacocos que não se reconhecem como tal
Mas têm "público", ó se têm , neste nunca por demais abençoado "torrâozinho de açúcar"...


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