O paradoxo de uma auto-proclamada modernidade
Já foi há uma mão cheia de anos. O motivo que levou a que nos cruzámos várias vezes foi pouco mais do que banal e por isso as conversas demoraram a ir para além do estritamente social, o que só numa ou noutra vez acabou por acontecer. Ela era uma jovem mãe natural do norte do país que trabalhava nos EUA numa das Big Tech e lá foi falando sobre como combinava a vida profissional com a familiar. Um percurso de vida interessante e mais um exemplo de como somos valentes a exportar mão-de-obra qualificada.
Pelo que entendi, será difícil, pelo menos nessa altura seria, sobreviver nessa empresa sem que se abraçasse todas as inúmeras camadas de preconceitos inventados para combater preconceitos. A fauna humana é ali muito diversa, tudo o que seja esquisito deve ser aplaudido e tudo o que não o for torna-se coisa sem pilhéria nenhuma. O slogan dos recursos humanos, não dito mas assumido, parece ser: “Gente normal, shame on you!”
Certa vez, falou sobre uma colega de trabalho que usava hijab e cujo casamento tinha sido arranjado entre os pais dela e do respectivo marido. Que era uma coisa cultural, que se davam super bem e tinham uns filhos muito queridos, e aquilo é assim. Eu, sem comentar, intriguei-me: como se estava a normalizar algo medieval?
Lembrei-me disto há dias quando li, ou audioli, o Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco. A trama anda à volta de Teresa de Albuquerque e Simão Botelho, apaixonados e impedidos de casar pelo pai dela, por ter tal sujeito como pessoa indigna para a sua filha. Em vez desse Botelho, filho de Domingos Botelho, seu rival de há muito, o pai de Teresa arranja-lhe um casamento com Baltazar Coutinho, um primo de Castro Daire. O arranjo não vai por diante e não vale a pena estragar o suspense, podendo dizer apenas que é uma perdição sem fim.
Quem teve de ler e analisar esta obra nas aulas de Português terá ouvido que se trata de um romance trágico, impedido pelas convenções sociais da época. Os amores impossíveis e trágicos eram conduto das obras românticas do século XIX, onde o sofrimento dos amantes e a rigidez das regras sociais nunca faltavam.
Na sociedade portuguesa onde cresci e vivo coisas como estas, casamentos combinados ou impedidos pelos pais dos noivos, serão menos do que raros e socialmente não aceitáveis. Para aqui chegarmos, um longo caminho foi percorrido. Os direitos do individuo foram erguidos contra essas coisas de antigamente. A muçulmana que trabalhava na dita Big Tech até pode ser muito feliz com o marido, coisa que apesar de nunca a ter visto mais gorda espero que se verifique, mas ser acrítico perante convenções que já há dois séculos eram sinal de atraso, é diferente de as aplaudir. Isto entre nós não é normal, e uma coisa é, por não me dizer respeito encolher os ombros e ignorar, outra é propalar que somos tão modernos, tão modernos, que até sentimos necessidade de aplaudir práticas medievais.

