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O Papa que ri

por Teresa Ribeiro, em 28.02.16

papa_18.jpg

 

O ódio contra o Papa Franciso grassa. Não me espanta. Entrou no seu pontificado como um elefante em loja de santinhos e partiu a loiça toda. Falou dos casos de pedofilia, da corrupção no Vaticano e dos seus crimes económicos, dos católicos divorciados, dos católicos gays... Demasiados issues. Uma poeira que não assenta. Quem é ele para expor assim as fragilidades de uma instituição que se quer sólida e vista como a referência moral e espiritual do ocidente?

Não me surpreende o ódio da hierarquia e de todos os que beneficiam directamente do statu quo, o que me encanita é a reacção das "bases". Dos católicos que desconfiam do seu chefe supremo porque prescindiu da gravitas da função e prefere chegar às pessoas, porque não assobia para o lado e, ao contrário, faz mea culpa, em nome da Igreja, por todos os podres que se lhe reconhecem. Porque denuncia, ao estilo de Cristo, tudo o que no mundo deve ser, aos olhos de um verdadeiro cristão, abominável. Finalmente porque usa e abusa da palavra de Deus para confrontar as suas ovelhas com contradições e hipocrisias quotidianas. Mas não é essa a função de um líder espiritual?

Esta parte, a das consciências, é a que mais mói.  É este ódio que nasce da incomodidade que anda, não duvido, a envenenar parte da comunidade católica. Há dias li no El Mundo, assinada por Fernando Sánchez Dragó, uma crónica intitulada  "Incapacitación" que põe à discussão a necessidade imperiosa de desencadear o impeachment de Francisco: "Es necesario meter en cintura al hereje Francisco si se niega a cambiar el rumbo de su pontificado o a dimitir", escreve este romancista, ensaísta e crítico literário, conhecido pelo seu conservadorismo social e ultra-liberalismo económico. Aqui está um bom discurso de ódio. Das primeiras acusações veladas que começaram a circular no início do pontificado às críticas mais inflamadas foi um passo. Mas agora já entrámos noutro domínio, o dos apelos à rebelião.

Enquanto Dragó traçava estas linhas, o Papa dava um passo que por si só seria suficiente para inscrever o nome de Francisco como um dos mais notáveis na história da ICAR. Em Cuba reunia-se com o chefe da Igreja Ortodoxa, algo que não se via desde 1054.

Nada que esmoreça os que o odeiam de coração. Pelo contrário. Para estes, quanto melhor ele estiver, pior.

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11 comentários

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De Bic Laranja a 28.02.2016 às 19:27

E que disse ele da caça aos cristãos lá pelas terras da moirama?
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De Teresa Ribeiro a 29.02.2016 às 14:50

Que foi um ver se te avias...
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De Vento a 28.02.2016 às 20:59

Não partilho de sua opinião relativamente a ódios no seio da comunidade católica. A existirem são bastante marginais. Aliás, a questão que coloca relembra-me as diferentes correntes, nomeadamente os lefebvrianos, que não deixam de ser católicos com enorme relevância para a diversidade no catolicismo e cristianismo, e que o tempo ajudou a sanar as denominadas pseudo-diferenças.

Outra coisa é a abordagem que faz à denúncia do Papa Francisco a todo o tipo de excessos, e até mesmo corrupções, em nome de um Cristo que era ocultado.

A igreja anglicana e outras mais também viveram, e vivem, os seus momentos de tensão no que respeita a questões ditas doutrinais e outras mais. Neste sentido, ainda que faça parte daqueles que sempre desejou um Francisco e até mesmo afirmei, no momento de sua eleição, que ele traria ao mundo uma outra dimensão da teologia da libertação, não posso deixar de aceitar como legitimas as diferentes formas de expressão do cristianismo também no seio da Igreja Católica.
Mais ainda, se assim não entendesse estaria a contrariar a afirmação de Jesus: "na casa de meu Pai existem diversas moradas".
E ainda mais, a parábola da Figueira estéril no meio da vinha está para dizer que essa figueira não é só a Igreja de então, do tempo de Cristo, mas cada um de nós que pela misericórdia divina tem a oportunidade de ver o tempo dilatado para poder ser adubado e frutificar.
É exactamente isto que o Papa Francisco tem vindo a fazer em todas as suas catequeses.
É ele mesmo que afirma que "não existe Santo sem passado nem pecador sem futuro". A consciência da santidade somente refere o facto de nos reconhecermos pecadores, mas continuarmos lutando por esse dito "futuro".

A garantia que o cristão tem de seus Deus é a Sua própria fidelidade na misericórdia. E ainda que o pecador seja infiel o crente acredita que a Promessa dessa Fidelidade se manterá. Aliás, é esta a natureza de Deus, a fidelidade. Isto é, uma Presença sólida e estável que vem em auxílio do infiel que aspira a tal perfeição. Perfeição esta que poderá ser atingida pela graça e confiança de que sem Ele nada poderemos.
E esta consciência adquire-se porque Ele mesmo se proclama "grande no Amor e na Fidelidade".

E é tão verdade o anteriormente referido que a parábola do trigo e do joio oferece-nos o mote de que por vezes é necessário "não cortar o joio para que também não se ceife o trigo". Significa isto que o Tempo no sentido temporal está directamente relacionado com a Paciência de Deus. Por isto mesmo o Evangelho refere que este Deus misericordioso é "lento à ira" e de "longo respiro" (respira fundo, dizemos nós para nos acalmarmos). E é também o sábio agricultor que sabe esperar, que dá tempo para a semente boa crescer, apesar do tal joio. (vide Mateus 13,24-30)

Por último, é necessário existir a consciência que o acolhimento não significa a aceitação de tudo. Faz parte desse processo de misericórdia que a seu tempo produzirá seus frutos.

Na construção da palavra Misericórdia existem os termos miseratio, cordia e dar. Miseratio deriva da palavra miserere, que significa compaixão; e cordia vem da palavra cor, que significa coração. Assim, seu significado diz respeito a sofrer com, ou, por outras palavras, dar o coração a quem sofre. É preciso compreender que quem está em pecado também é sofredor; e, não obstante, a parábola do filho pródigo revela-nos o acolhimento do pecador e a rejeição do pecado. Logo, só o Amor vencerá.

Estou em crer que não obstante as tensões que existem entre todos nós é necessário introduzir a substância do que nos pode unir para contrariar episódios de grande separação e até mesmo ódios.
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De Teresa Ribeiro a 29.02.2016 às 14:49

Diga tudo isto a quem anda a rezar pelo fim deste pontificado clamando por um Papa menos abelhudo.
(É claro que as outras Igrejas também não escapam a tensões e escândalos. Todas são feitas por homens, com a "graça de Deus")
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De Vento a 29.02.2016 às 20:34

Ora aqui está, Teresa. Se elas são constituídas por homens, e são, nada melhor que lhes falar da potência de Deus. Na realidade, a beleza deste Deus é constituir a Sua Igreja com fracos para que todos compreendam as fraquezas uns dos outros.
Se assim não fosse, por que necessitaríamos de Deus?

Importa referir que a parte substantiva do comentário reside no facto de não se cair nos mesmos erros. Qualquer um é livre para aceitar ou rejeitar um Papa, já não pode usar a sua liberdade para impor sobre todos a sua vontade.

Na Igreja Católica entendemos que a Pedra Angular, a Cabeça, é Cristo e todos os demais não passam de seus membros. Portanto, cada um ocupe o seu lugar, aceitando o carisma que lhe é dado, e beba da seiva da Videira, para que os ramos não sequem.
Enquanto membros desse Corpo Místico temos um serviço Universal, que é lavar os pés uns aos outros. Pedro resistiu a que Jesus lhe lavasse os pés. Mas quando se deu conta que se Ele o não fizesse não poderia ter parte n´Ele até pediu que lhe lavasse a cabeça.
Concluindo, qualquer confissão cristã que não adopte este serviço, deixando-se lavar por Cristo, não está preparada para caminhar.
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De jj.amarante a 29.02.2016 às 00:30

Não há propriamente "o" "chefe da igreja ortodoxa", e o Paulo VI e o patriarca Atenágoras de Constantinopla já tinham retirado a excomunhão mútua feita em 1054. Neste post (http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2016/02/igreja-de-roma-e-igreja-de-moscovo_16.html) refiro alguns pormenores que talvez a interessem.
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De Teresa Ribeiro a 29.02.2016 às 14:42

O primo inter pares é o patriarca da igreja de Constantinopla (Turquia). No caso o encontro era com o patriarca Russo, sim, mas este estava em representação da Igreja Ortodoxa. A excomunhão foi retirada, mas as igrejas continuavam de costas voltadas, daí o impacto deste encontro, que se traduziu neste comunicado conjunto: http://press.vatican.va/content/salastampa/pt/bollettino/pubblico/2016/02/05/0084/00190.html#es
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De JAB a 29.02.2016 às 10:05

Aprecio o seu entusiasmo pelo Papa Francisco, mas permito-me discordar. "Entrou como elefante em loja de santinhos"? Mas ele entrou a tremer e quase assustou... Muita da "pseudo-simplicidade" só traz problemas de organização e de funcionalidade. Não é aqui espaço para grandes desenvolvimentos, mas sempre poso dizer que tudo o que afirma de positivo neste Papa (casos de pedofilia, da corrupção no Vaticano e dos seus crimes económicos, dos católicos divorciados, dos católicos gays - transcrevi)... já foi feito antes - embora silenciado pelos "media" - pelos anteriores, nomeadamente Bento XVI e de forma muito mais profunda e consistente; dizer que desde 1054 não se reunia um Papa com um Chefe ortodoxo não é verdade; basta pensar no encontro do Paulo VI como Atenágoras, como exemplo. "Mea culpa" em nome da Igreja? E João Paulo II em 2000 o que fez? "Usa e abusa da Palavra de Deus"; sim, no verdadeiro sentido da palavra. e sem a "saber" interpretar correctamente; imagina a Igreja à imagem de Buenos Aires, pensa que o mundo é a Argentina... Depois lá vem o Lombardi desmentir ou desculpar... Quanto à relação de Francisco com a Cúria Romana vem mesmo a propósito o que o DO tem publicado ultimamente da séria "Yes Minister"... Ele é mesmo mais um produto das "manigâncias" vaticanas. Foi a mesma "hierarquia" que o colocou lá. Para quê ainda não percebi bem, mas tenho as minhas suspeitas. Não estou contra o Papa, não pertenço às hierarquias que se sentem em perigo, mas estou atento (nomeadamente ao que me chega de Roma) e francamente preocupado com muita coisa que vem acontecendo desde a primeira hora... E fico-me por aqui. Por sorte, este Blog não é lido no Vaticano...
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De Teresa Ribeiro a 29.02.2016 às 14:38

Caro JAB: Das suas palavras conclui-se, portanto, que Francisco não fez mais que todos os seus imediatos antecessores. Mas se assim é, como se explica então toda a incomodidade em torno da sua figura?
Desvaloriza também o encontro com o patriarca ortodoxo, embora no comunicado conjunto que saiu dessa reunião tenha sido considerado "o primeiro da história": http://press.vatican.va/content/salastampa/pt/bollettino/pubblico/2016/02/05/0084/00190.html#es
Quando diz que este Papa não sabe interpretar correctamente a palavra de Deus, arrisca-se. Afinal para um católico a soberba é um pecado mortal...
Já quanto às teorias da conspiração não arrisca nada. Nem dá para comentar.
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De JAB a 29.02.2016 às 17:54

Obrigado pela réplica, Teresa.
Algumas das suas afirmações já foram comentadas por outros aqui, nomeadamente a ligação com as Igrejas ortodoxas. É muito complicado, é mais político que religioso. Não vou comentar mais.
Quanto à "interpretação" da Palavra de Deus, sei do que falo e com conhecimento de causa. Não tenho medo e não cometo o pecado da soberba. Somos todos servos de uma causa, de uma Palavra, se assim quisermos falar.
A incomodidade da Igreja não é com as novidades do Papa, mas por apresentar como novidade o que é conhecido, como se ninguém tivesse feito nada até agora; é dizer coisas sem conhecer, para provocar, e depois, perante a verdade dos factos vir desmentir. Como escreveu alguém, ele é "sim... não... talvez... bom. entendam-se vocês". Coloca em causa verdades fundamentais da teologia e da moral cristã e depois vêm outros dizer que o Papa não queria dizer isso. E por aí fora, Tinha aqui conversa para horas. Mas não é o sítio nem o momento.


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De lucklucky a 29.02.2016 às 16:07

Um Papa que não tem pejo em estar com Ditaduras - seria bonito um seu texto sobre um encontro do Papa com a Igreja ortodoxa no Portugal Salazarista, uma ditadura bem menos violenta que a Cubana.
Que não tem pejo em ser populista, em incentivar a destruição da economia e destruir a confiança na sociedade.

É um Papa sem cultura e sem saber. Não passa de um chefe de uma ONG.
Não tem Passado não tem Futuro.
Só tem o Presente.

Nota-se o truque habitual jornalista-politico de usar a palavra "ódio" para atacar o outro.

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