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O PAN que o Diabo amassou

por Rui Rocha, em 01.07.19

Era uma vez uma menina que vivia numa casinha em Pandora, a capital do país. Dois anos antes, em 2034, o governo de coligação entre o PAN, de André Silva, e o PS, de Paula César, tinha requisitado as mulheres com idade entre 30 e 35 anos para participarem na Grande Panificação, uma campanha destinada a erradicar a utilização de linguagem anti-animal por crianças e jovens. Expressões como “fazer figura de urso” tinham sido proibidas já em 2024, ainda durante o 2.º mandato do governo de Costa, o Magnífico, mas o partido Agro-Beto (antigo CDS) na clandestinidade tinha apelado à desobediência e, em zonas remotas do país, a sua utilização continuava. Agora, com a Grande Panificação, esperava-se resolver o problema de vez. A mãe da menina, chamada a participar nessa grandiosa tarefa, só ia a casa ao fim-de semana. Durante um tempo, o avô panterno da menina tinha vivido com eles, mas um vizinho com quem tinha criado certa animosidade acabara por denunciá-lo por blasfémia contra o Panteísmo, a religião oficial da República Pantuguesa. Julgado em processo sumário pelo Supremo Sacerdote Ivo Rosa, e apesar de negar ter proferido quaisquer ofensas contra o Deus Pug, o avô não tinha conseguido eliminar a presunção de culpabilidade e fora declarado Panasco (literalmente, aquele que mete asco ao PAN). Condenado, encontrava-se a cumprir pena de 3 anos no Panóptico, um estabelecimento de alta segurança situado em Panços de Ferreira. A condenação tinha sido publicada no Panfleto, o jornal digital oficial da República, e o respectivo texto afixado na porta da casa da menina, para vexame dos que ali moravam e de cada um que ali passasse, incluído o vizinho denunciante que, em todo o caso, acabara por ingressar também ele no Panóptico, na sequência de uma denúncia de um colega de trabalho. O pai da menina, por seu lado, saía de madrugada e nunca chegava antes das 10 da noite. Trabalhava no turno da manhã na apanha manual da azeitona (a colheita mecânica fora proibida em 2022) e, no turno da tarde, no Pombal Contraceptivo da Câmara Municipal de Pandora (antiga Lisboa). O dia da menina começava sempre cedo. Logo pelas sete soavam as sirenes que marcavam o início da jornada. Como todas as crianças, durante meia-hora, em jejum, entoava o Panegírico, uma ode à liderança de André Silva e às façanhas dos Deuses Pug, Pinscher e Poodle e um esconjuro contra as tentações do Pandemónio. Depois, era a hora de tomar a Panaceia (o comprimido homeopático para prevenir calos, joanetes, afrontamentos e bicos de papagaio) e a bebida de beterraba, hortelã e sementes de linhaça. Às 8 ligava a televisão para assistir na Pantalha (o canal único de televisão) às sessões formativas que tinham substituído a frequência da escola. A aquisição de conhecimentos era avaliada pelos Espantalhos, os funcionários que tinham sucedido aos professores, através de uma prova online com periodicidade mensal. Apesar de não se dar mal na disciplina de Biodança, a menina tinha apetência especial para a matéria de Tosas e Tosquias. Normalmente, concluídos os estudos, e depois de almoçar o prato diário de tofu, a menina teria passado a tarde a assistir à Pantomina, o programa de entretenimento conduzido pelas Irmãs Mortágua e Rita Ferro Rodrigues. Mas a avó materna da menina estava doente e era preciso levar-lhe o almoço. A menina, a quem chamavam Capuchinho Vermelho, pegou na sua capinha e chamou a cadela Beagle para a acompanhar uma vez que os humanos estavam proibidos de sair de casa sem a companhia de um animal não humano senciente. Desceram a rua, passaram pelo Panteão, última morada de heróis como Camilo Mortágua e Boaventura Sousa Santos, e dirigiram-se à floresta. No caminho, encontraram um lobo que perguntou onde iam. A menina explicou-lhe e o lobo correu para a casa da avó, chegou primeiro, comeu a avó, pôs a touquinha e enfiou-se na cama. Quando a menina chegou, apercebeu-se que a avó tinha umas mãos, uns olhos e uma boca muito grandes. Fez-lhe aquelas perguntas todas e, quando chegou à da boca, o lobo respondeu “é para te comer”, saltou da cama, comeu a menina e adormeceu. Um soldado da GNR que passava por ali, entrou, viu o lobo a dormir e lembrou-se que este podia ter comido a avó. Preparava-se para cortar a barriga do lobo quando apareceram 3 utilizadores do Facebook que o impediram: que não, que era preciso perceber se o lobo não teria justificação para proceder daquela maneira. Exigiram a elaboração de um relatório de integração social, um levantamento de condições económicas e oportunidades de vida, uma análise exaustiva da infância do lobo e diversas outras perícias. Fizeram uma petição que exigia a punição do soldado da GNR pelo crime de maus tratos na forma tentada. Graças à intervenção dos três utilizadores do Facebook, o lobo passou a viver na casa da avozinha, tendo direito a quatro refeições quentes diárias, visita semanal do veterinário e corte periódico de unhas. O soldado da GNR foi julgado e, com a excelente defesa de um advogado que uns anos antes ficara célebre durante a audição para lamentar de Joe Berado, foi condenado apenas a 20 anos de exílio numa reserva de ursos do Quebeque. A cadela Beagle, essa viveu feliz para sempre.

 

* publicado na edição de Junho do jornal Dia 15.


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