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O negro é bom porque é negro.

por Catarina Duarte, em 27.11.19

Se, para além de mulher, eu fosse negra, e se, devido ao meu trabalho e dedicação, eu conseguisse alcançar um lugar de destaque na nossa sociedade, nada me poderia deixar mais triste do que a injustiça de associarem o meu mérito ao meu género ou à minha cor da pele.

Fala-se imenso da importância, em sociedade, de se forçar determinados comportamentos para que eles depois saiam de forma natural. Um exemplo disso é a definição de quotas nas empresas, impondo a contratação de mulheres ou de negros, com as quais eu não concordo pois, e falando sobre as quotas em particular, mais não são do que formas de discriminar e de valorizar algo que não tem que ser valorizado – deve ser motivo de igualdade e não de desigualdade.

Para além disso, não acho piada relevar características óbvias de determinada pessoa, quando se fala em determinados feitos ou posições, como se essas características definissem essa mesma pessoa: é a primeira mulher negra a fazer aquilo; quantas mulheres tens como ministras? Claro que é importante falar disso!; é a primeira vez que se contrata um gago para aquele cargo; já viste que até se contratou um homossexual?.

No meu mundo e, agora com algum conhecimento de causa, até posso dizer “na minha casa”, devíamos educar pela igualdade e não pela diferença e, na igualdade, não há espaço para valorizar determinado acontecimento associando-o a uma característica pessoal outrora alvo de dedos apontados.

Quando o fazemos, ainda que com a melhor das intenções, estamos a dar um mau exemplo, estamos a dizer, a quem pretendemos educar, que essas características nos ajudam a atingir objectivos, que são pontos fundamentais para a nossa progressão. Podemos estar, no limite, a valorizá-las tanto que as colocamos acima do que é realmente importante e, na maior parte dos casos, o importante mesmo é o trabalho, o mérito e o trabalho e o mérito. Não falamos de homens, de mulheres, de pessoas negras, brancas, gordas, magras, homossexuais, bissexuais ou transsexuais. Falamos de trabalho e mérito.

Posto isto, se somos pela justiça e pela igualdade, temos mesmo que continuar a valorizar aquilo que menos depende de nós, como as nossas características inatas e físicas, em vez de valorizarmos o trabalho e o mérito, que, em última análise, é aquilo que realmente nos define?


2 comentários

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De Teresa Ribeiro a 27.11.2019 às 12:08

Olá, Catarina
Concordo com tudo o que o Diogo disse no post acima sobre Joacine. Casos assim são, de facto, lamentáveis, porque só servem para dar argumentos a quem afirma que as quotas "mais não são do que formas de discriminar e de valorizar algo que não tem que ser valorizado".
Em tempos, esta tua afirmação fazia-me sentido. Mas depois percebi que só num mundo ideal vale a pena esperar que as pessoas, independentemente das suas características, venham a ser valorizadas por aquilo que é importante: "o seu trabalho e o seu mérito".
Perdoa a minha preguiça. Não sei os números de cor, mas o que não faltam são estatísticas, que aliás inundam copiosamente os jornais todos os anos a 8 de Março, só para falar da discriminação de género. O que esses números revelam é que se não tentarmos corrigir, através da adopção de políticas que promovam a igualdade de oportunidades, estas injustiças (ditadas por uma cultura tendencialmente segregacionista) nem nós, nem os nossos filhos e netos poderão desfrutar de uma sociedade mais inclusiva e equalitária. É isso que queremos? Caminhar pelo caminho que em teoria é o mais certo, mas que na prática não nos leva a lado nenhum?
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De João Campos a 27.11.2019 às 23:12

"Em tempos, esta tua afirmação fazia-me sentido. Mas depois percebi que só num mundo ideal vale a pena esperar que as pessoas, independentemente das suas características, venham a ser valorizadas por aquilo que é importante: "o seu trabalho e o seu mérito"."

Revejo-me nestas palavras, Teresa. Num mundo ideal, diria que quotas seriam algo impensável. Mas o nosso mundo está muito, muito longe de ser ideal.

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