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O mundo virtual dos jornalistas.

por Luís Menezes Leitão, em 13.11.16

O jornalismo tem que interpretar a realidade. Não pode tomar os seus desejos pela realidade. Neste aspecto, talvez o mais belo filme de todos os tempos, o Citizen Kane, que é precisamente sobre a manipulação jornalística, já reconhecia que essa manipulação tem como limite os factos. Quando Charles Foster Kane, o dono do Inquirer está a concorrer às eleições, e se perspectivava como vencedor, é apanhado num escândalo matrimonial. O jornal tinha preparado uma primeira página a dizer "Kane elected", mas os directores do jornal recusam-se a passá-la, reconhecendo que, com o voto contra dos puritanos, o dono do seu jornal não tinha hipóteses de ser eleito. A primeira página passou por isso a ser "Charles Foster Kane Defeated: Electoral Fraud". Os factos podem ser manipulados, e são-no frequentemente pelos jornalistas, mas não podem ser alterados.

 

A realidade é que o mundo em que os jornalistas vivem, de Washington D. C. (um bastião ultrademocrata) ou de New York (outro bastião democrata) não representa a América comum. E na América comum Hillary Clinton era profundamente odiada. Apercebi-me disso a primeira vez que visitei os Estados Unidos, ainda no tempo da presidência Clinton. Como é óbvio, quis ir à Casa Branca, e deparei-me lá com uma manifestação furiosa. Julguei que era contra o Presidente, mas verifiquei espantado que era contra a Primeira Dama. Perguntei a razão da manifestação e explicaram-me que ela se estava a meter na política presidencial, o que não era aceitável para uma Primeira Dama, uma vez que não tinha tido o voto popular. E essa imagem da Primeira Dama, que por via do casamento se ingere na presidência do país, ficou no imaginário norte-americano. Afinal de contas a personagem da série House of Cards, Claire Underwood, não representa precisamente esse tipo de Primeira Dama? 

 

Desde então, nunca achei que Hillary Clinton tivesse qualquer hipótese de ganhar a presidência. Não me espantei quando perdeu a nomeação para Obama, e também sempre fiquei convencido de que não iria bater Trump, que já tinha arrasado candidatos republicanos melhores do que ela. O recurso a Michelle Obama, ao próprio Obama e aos cantores nos seus comícios só demonstrava a sua fragilidade, que aliás ficou evidente na noite eleitoral, quando não conseguiu assumir a derrota. Mas os jornalistas continuavam convencidos dessa realidade alternativa e até ao último minuto as televisões americanas recusavam-se a reconhecer a vitória de Trump. Quanto às revistas, já estavam na rua anunciando a vitória de Hillary Clinton, como aconteceu com a Newsweek. Até a Directora da nossa Visão se queixou de ter tido que alterar toda a sua edição em meia dúzia de horas, sendo se calhar por isso que a revista surgiu nas bancas com o título "Oh! Não!". É melhor os jornalistas esperarem pelos verdadeiros factos, antes de começarem com as interpretações sobre os mesmos. Se não, podem acontecer coisas destas.

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1 comentário

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De Vento a 13.11.2016 às 15:40

Sabe, Luís, na sociedade ocidental em particular vive-se a realidade - sim, é uma realidade - do faz de conta: faz de conta que somos progressistas e apoiamos o feminismo deificador e idólatra; faz de conta que somos progressistas e apoiamos o insulto contra todo o contrário desse progressismo sem identidade e raiz; faz de conta que somos progressistas e rejeitamos o anti-puritanismo que caracteriza esta realidade; faz de conta que somos progressistas e deixamo-nos transformar numa amálgama acéfala. Em suma, idealizamos uma sociedade falsamente puritana que julgamos ser real; e também, para parecer que somos progressistas, argumentamos tais ideais como princípio de defesa do oprimido e do pobre, isto é, vimos em socorro de nossa própria miséria fingindo ser do outro que nunca acede às benesses ou às migalhas que tal progressismo aparenta oferecer.

Numa sociedade onde os recalcados emergem e os traumas do passado alimentam-se através da falsa ideia de liberdade, uma liberdade fundamentada no princípio que a diferença só é permitida se for igual a tal progressismo, retira-se a capacidade crítica e inovadora que impulsiona as sociedades.

A este uniformismo dou-lhe o nome de progresso retrógrado. Portanto, não nos espantemos que o que ocorreu na América, e que acorrerá por outros pontos mais do ocidente, seja precisamente a expressão de que tal fingimento atingiu seu ponto de saturação.

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