Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O mundo novo

por Luís Naves, em 19.01.16

As notícias deviam preocupar a classe política, mas julgo que a retórica vazia vai continuar mais ou menos na mesma. A economia mundial está em situação péssima e acumulam-se sinais de que a crise não acabou. Segundo a Oxfam, um grupo de apenas 62 pessoas tem rendimento semelhante a metade da riqueza mundial (em 2010, o número era de 338). Uma tal acumulação, acompanhada do empobrecimento efectivo de parte da população mundial, terá necessariamente consequências políticas, por exemplo, tornam-se mais aliciantes todas as críticas ao processo de globalização. O facto é que os economistas já não conseguem explicar muito bem as razões da estagnação geral, como não conseguem explicar o nervosismo dos mercados, o petróleo barato, a falta de crédito, os problemas do sistema financeiro, as dificuldades da China e a irritação da classe média.

Em ambientes voláteis e de pânico, quem se põe a jeito torna-se alvo fácil e Portugal pode já estar a pagar a factura pelos sinais que enviou para o exterior de querer acabar com a estratégia de credibilidade e prudência que nos foi imposta durante o ajustamento. Vem aí uma nova vaga de colapsos financeiros e, com a crise migratória, a Europa entrou numa divisão interna, entre leste e ocidente, que pode ser pior do que o anterior conflito das dívidas soberanas (que, aliás, não está resolvido). O contexto em que Portugal se move ainda piora se tivermos em conta que a Espanha parece ingovernável. A nossa dependência é demasiado grande para nos tranquilizarem as cenas de delírio dos vizinhos. Em El-Rei Junot, um livro brutal sobre o falhanço das nossa elites, Raul Brandão escrevia que “a realidade é a força imensa que engendra o mundo novo”. Esta não era uma referência ao mundo novo das utopias lunares ou dos tempos imaginários de candidatos presidenciais cheios de palavreado obeso, era o mundo novo concreto em que teremos de viver e que pede juízo a quem decide.


4 comentários

Sem imagem de perfil

De Justiniano a 19.01.2016 às 14:23

Num destes dias, em que o acordar foi um mau lampejo, depois de leituras várias de mundo adentro, tarefas mundanas e outras ocupações vulgares, fui assolado por uma estranha epifania apocalíptica. À laia de pesadelo, vi o mundo novo. Vi desabar a civilização. A minha civilização, que ao fim de mais de 3 mil anos ostentava o magnífico esplendor do Estado de Direito Liberal e Social!! E de todas as outras civilizações onde um indivíduo é tido por indivíduo e os adeptos do direito se mantêm vivos e prosperam!! Sem reduto, na terra rasgada vi exposta a frágil ossatura. Um mundo novo, ainda mais escuro do que o da canção do L. Cohen. A torpitude em apoteose e em tremendo!!
Um exagero, digo, motivado por qualquer lapso momentâneo, má digestão ou induzido por um qualquer facto que se me haja passado despercebido.
Como é evidente, nem eu acredito nos meus devaneios mais pessimistas. O apocalipse não está ali ao virar da esquina, ainda que hordas de desalmados motejem da prudência. Contudo, menos que o esplendor do meu tempo não quero viver. Menos do que a civilização que me foi deixada pelos meus não quero deixar aos meus. E tudo e muito mais. E por tudo e muito mais, temo!!
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 19.01.2016 às 17:22

"Segundo a Oxfam, um grupo de apenas 62 pessoas tem rendimento semelhante a metade da riqueza mundial"

Patetice pegada. Para começar a fonte é a Oxfam.

Segundo com o quantitative easing é obvio que os mercados estão numa bolha.

Terceiro e depois? Impedem o Luís Naves ou alguém de enriquecer?
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 19.01.2016 às 17:57

"O facto é que os economistas já não conseguem explicar muito bem as razões da estagnação geral, como não conseguem explicar o nervosismo dos mercados, o petróleo barato, a falta de crédito, os problemas do sistema financeiro, as dificuldades da China e a irritação da classe média."

Que tal o Socialismo Conservador em todas as sociedades Ocidentais.
Que tal a punição que isso é a quem cria, inventa, enriquece?

Depois temos as coisas simples como estradas, casas já feitas, produção alimentar com muito mais produtividade.
As frutas maduras da economia já foram tiradas.

Mas para produzir coisas mais complexas seria preciso uma Educação não totalitária e que não vivesse no Séc.XIX. Quando não construída de propósito como a nossa Educação Publica para produzir igualdade, consequente mediocridade e servir as corporações como o PCP.

No Ocidente pune-se quem faz, cria, inventa, enriquece - excepto aqueles com apoio político que podem compensar o pagamento político com protecção legislativa.

E os resultados vão continuar a piorar e com a pressão demográfica.
Imagem de perfil

De Manuel a 20.01.2016 às 11:52

Um dia destes fiquei sabendo que uma garrafa de The Macallan 1946, contendo umas 15 doses de um whisky qualquer, representa a módica quantia de 460.000 dólares e que quem o compra e bebe vive neste mundo. Suponho que são pessoas superiores, muito mais espertas, inteligentes e muito mais ricas do que eu.
Não é por inveja nem por qualquer outro sentimento corrosivo que eu trago aqui este exemplo, que é só um de muitos - é só para dizer que estas aberrações nenhuma ciência humana as consegue compreender e resolver - fazem parte da natureza e da condição humana.
Aprendi a deixar o mundo a rodar e a dedicar tempo a apreciar a delicadeza da beleza de cada momento. E em vez de, por exemplo, passar o tempo a roer-me por não poder beber um whisky de 30.000 dólares dose, passo o tempo feliz porque consigo encontrar a felicidade sem precisar de me transformar numa aberração coberta com carne viva.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D