O meu voto no próximo dia 8 de Fevereiro*
No final de uma partida de Rugby os jogadores agradecem ao adversário, pois sem eles não haveria jogo. A democracia liberal com que me identifico é assim. Precisamos de quem aceite as mesmas regras, mesmo sabendo que nunca partilharemos a mesma camisola. É por isso que precisamos do PS de António José Seguro. Estou podre de saber que muitos dos que votam fielmente no PS o fazem por interesse exclusivamente pessoal, por pertencerem aos grupos por si apadrinhados. Mas as regras que permitem limitar o poder executivo são o chão comum, que mesmo desprezando muita da desonestidade gritante de demasiados dirigentes do PS, me fazem votar AJS.
Os homens providenciais nunca nos trouxeram nada de bom. Se escavarmos muito na história, podemos achar o contrário, mas temos de nos basear em documentos feitos às suas ordens. O aparente providencialismo de Ventura traz agarrado a si iminentes ataques aos checks and balances que nos têm garantido alguma decência democrática. Se o país aceitar mudar essas regras à medida de tal personagem, quem nos vai defender quando ele for substituído por outro idiota, que nem me vai permitir chamar-lhe isso?
Não ficarei surpreendido se, mais ano menos ano, Ventura chegar a Primeiro-Ministro. Nunca contará com o meu voto, mas acho bastante provável que isso venha mesmo a acontecer. A nossa pulsão sebastianista encaixa bem com o providencialismo que ele tenta acenar. Só o narcisismo que permite alguém acreditar que foi escolhido por Deus para salvar o país, prova o ridículo da figura. Como se não fosse suficiente, afirmá-lo publicamente deveria desencadear um protocolo que lhe garantisse uma temporada no hospital Júlio de Matos.
No fatídico dia em que venha a ser Primeiro-Ministro, André Ventura ficará muito empolgado e o seu ego rejubilará, mas no dia seguinte irá entender que governar é muito mais difícil do que ser oposição. Gritar tudo e o seu contrário não resolve nenhum dos nossos problemas. Também porque nunca levará a cabo as medidas que nos trariam mais prosperidade, não duvido que logo depois será castigado eleitoralmente por uma imensa massa de desiludidos. Sobrevivemos com Sócrates, também aguentaremos com ele. Será mais uma vacina a ser administrada à nossa democracia e depois disso escolheremos outra coisa.
Mas para que isso seja possível, o importante é que possamos continuar a pôr a andar quem nos desilude e por isso precisamos de ter em Belém alguém que nos garanta que o espírito desta modalidade, chamada democracia liberal, não será alterado. Por tudo isto, sem precisar de comprimidos para a vesícula nem de ter de tapar a foto de um tipo muito chato e enfadonho, no próximo dia 8 de Fevereiro votarei em António José Seguro.
* Texto publicado no jornal O Portomosense

