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O mercado interno, o euro e os encantos do passado

por José António Abreu, em 12.02.15

Resumindo, não é possível um mercado interno com união aduaneira, a funcionar correctamente – e durante muito tempo –, num ambiente de distintas moedas. Não é possível na União e não foi nunca em parte alguma do Mundo. É bom que os detractores do euro pensem nisso quando pensam nisso: sem moeda única, não há mercado interno.

[...]

Duas coisas me irritam, confesso, nos cépticos do euro: a constante referência à soberania nacional e o apelo ao regresso ao tempo do escudo, quando o mel e o leite corriam abundantes pelas doces encostas pátrias, concedendo a todos o benefício do progresso e do bem-estar. Quanto à soberania, lamento, não sei do que falam: há quanto tempo não é Portugal verdadeiramente soberano nas matérias que transferiu para a União e cuja recuperação formal não serviria de qualquer modo para nada? Num Mundo global, países da nossa dimensão e com os nossos recursos têm pouca soberania – sustento aliás que Portugal ganha soberania na condição de membro da União. Quanto ao argumento do passado, de um tempo em que um escudo pujante nos garantia um lugar cimeiro entre as nações ricas do Mundo: quando foi isso? Portugal tinha em 1985, ano anterior à adesão, um PIB per capita pouco superior a 50% da média comunitária, tendo crescido desde então acima dos 70%. Querem comparar o país com escudo com o Portugal de hoje? Era melhor em quê? Havia desemprego, inflação, juros altos, salários em atraso. Melhor em quê? E ao que voltaremos no dia em que, recuperado o amado (e não assim tão velhinho) escudo, sucessivas desvalorizações empobrecerem o país como fizeram tantas vezes ao longo da nossa História, pondo-nos ainda mais longe dos tais países ricos que alegadamente nos exploram dentro da UE (coisa que não farão quando estivermos fora, claro – isto é uma ironia)?

[...]

E não sendo novidade, também é facto que está feita boa parte do caminho da integração, logo da resolução dos defeitos da concepção da zona euro. Como escreveu Alberto Gallo do Bank of Scotland, a zona euro está cada vez mais unida, com união bancária (ainda incompleta, é certo), união financeira (a meio caminho), união orçamental (a fazer-se) e até com a prometida compra de títulos da dívida soberana e sua mutualização (parcial, nos 20% assumidos pelo BCE do Quantitative Easing). Pediam solidariedade europeia? Pediam injecções de dinheiro “à americana”? Pediam a diminuição do preço do euro para beneficiar os deficitários? Check, check, check. Quando a crise começou e sobretudo a partir daquilo a que chamo o tempo dos resgates (2011), nada do que desde então se fez era previsível. Muitos eurocépticos (contra o euro, pelo menos), previram então a saída da Grécia – e de Portugal – e a desagregação iminente da zona euro e da própria União. Já lá vão 4 anos, eles continuaram a prevê-la a cada sinal de crise, muito mudou mas a união não se desagregou. A Europa, quer queiram quer não, está unida. A Alemanha, tão e sempre odiada e apontada como responsável pela crise, continua a ser o travão contra os excessos e as euforias induzidas pelos Syrizas do dia, ainda que continue a ceder sempre que é preciso – sempre que a Europa precisa.

 

Paulo de Almeida Sande, no Observador. Há muito mais no artigo, sobre passado, presente e eventual futuro. O risco não abordado - com potencial para tornar excessivo o optimismo revelado no final do texto - é que os populismos destruam um processo forçosamente lento, pela necessidade de efectuar reformas difíceis em alguns países (que lhes permitam não constituir um peso excessivo e permanente) e de levar outros a aceitar uma progressiva união fiscal e orçamental (através de um orçamento comunitário reforçado, por exemplo).


1 comentário

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De rmg a 12.02.2015 às 17:59



É notável como ainda aparecem pessoas a falarem do Portugal de há 15 anos o do de hoje como se aquilo fôsse um "espectáculo" e depois se tivesse tornado uma "catástrofe", no pressuposto (mal intencionado) de que o mundo e a vida não mudaram nada, truque velho de quem se acha mais esperto que os outros.

O mundo mudou mais nos últimos 10 anos que nos 30 anteriores, onde apesar de tudo já tinha mudado mais que nos 100 para trás.
Isto é assim tão difícil de entender para se insistir no anacronismo barato?

Com o risco de ser injusto, das duas três: ou são novos demais e não estudaram nada, ou são velhos demais e já não dizem coisa com coisa ou votam em certos partidos e aí estão desculpados porque se estão a desculpar.

Ainda ontem almocei com um filho que vejo pouco porque nunca pára quieto e a opinião dos tipos de 40 e poucos anos que se mexem sobre os tipos de todas as idades que não fazem a ponta de um corno senão dizer mal de tudo o que desconhecem é bem esclarecedora.

Este país perdeu a pouca indústria e agricultura que existia entre 1975 e 1980.
E "sectores estratégicos" é coisa que não temos desde o tempo da "outra senhora" e do condicionamento industrial.

No mundo de 2015 já nenhum país tem "sectores estratégicos" que não estejam, clara ou disfarçadamente, nas mãos de outros que por sua vez pertencem a outros e por aí fora.

A um par de anos dos 70 estou a começar a chegar à conclusão de que se algum dia alguém se lembrar de fazer um referendo sobre a questão só votem pessoas em idade activa , que o futuro é deles e das suas esperanças e não dos idosos e das suas frustrações.

Continuamos uns "provincianos" do caraças!
Sem sentido pejorativo, que eu agora vivo metade do mês na "província" e por mim vivía o mês todo...

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