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O maior no Portugal do Twitter

por Pedro Correia, em 10.10.15

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O Livre é um fenómeno. Partido recordista de menções nas redes sociais e nas arengas dos chamados opinion makers lisboetas, conseguiu mobilizar muitas caras conhecidas da pantalha em torno de um "projecto político" que se resumia à seguinte intenção: chegar ao Governo à boleia do PS.

Embalado neste nobre desígnio e na avassaladora onda de apoio que durante a campanha obteve no Twitter e no Facebook, o líder do Livre apressou-se na noite eleitoral a ser o primeiro dirigente a falar em directo ao País, imaginando-se já eleito. "Nós somos a novidade na política portuguesa e a candidatura do Livre/Tempo de Avançar será a novidade na próxima Assembleia da República", proclamou Rui Tavares, visivelmente empolgado com a sua própria oratória. Sempre com um generoso tempo de antena proporcionado pelas mesmíssimas televisões que ignoraram por completo o PAN, único dos pequenos partidos que conseguiu eleger um deputado.

Alguém deveria tê-lo advertido em tempo útil que existe uma regra de elementar prudência nestas ocasiões: os deputados só chegam a São Bento depois de contabilizados os votos.

O Portugal do Twitter nada tem a ver com o Portugal real.

 

Cheguei a pensar que este escrutínio que rendeu ao Livre a magnífica soma de 39 mil votos e uma percentagem de 0,72% a nível nacional funcionasse como um banho de humildade para Rui Tavares, o mais desconhecido dos políticos portugueses fora do eixo Chiado-Príncipe Real.

Mas não. Quatro dias após o escrutínio, ei-lo de novo embalado pelas ondas mediáticas, desta vez em entrevista ao diário i, mostrando não ter recolhido lição alguma daquele duche de água gelada que o levou a ser o quase-deputado de duração mais efémera da história das noites eleitorais portuguesas.

"Fomos vítimas do sucesso das nossas ideias", revelou nesta entrevista o dirigente máximo do minimalista Livre. Uma frase com ressonâncias churchillianas, digna de ombrear com o "sangue, suor e lágrimas".

 

Rendido ao magnetismo desta frase, corri em demanda do programa eleitoral do Livre, esse manancial de ideias que tanto despertam a cobiça alheia.

Fiquei logo a saber que resultou do "trabalho desenvolvido nos últimos seis meses por dez grupos temáticos, com cerca de 500 subscritores e os contributos on-line de muitos outros". Senti-me esmagado.

 

E o que li lá?

Estas originalíssimas dez ideias-chave, que faço questão em partilhar convosco, lamentando apenas fazê-lo num momento tão tardio:

- Devolver a política aos cidadãos, garantir direitos fundamentais [duas ideias numa frase só]

- Libertar o Estado da Captura Privada [mantenho as maiúsculas originais]

- Renegociar a dívida pública para recuperar [falta especificar o quê]

- Resgatar as pessoas e as empresas [falta especificar de quê]

- Acabar com a precariedade, dignificar o trabalho, proteger o emprego, garantir as pensões [quatro ideias numa frase só]

- Cumprir a Constituição no sistema fiscal: "uma repartição justa dos rendimentos e da riqueza" [falta especificar se o resto da Constituição se cumpre]

- Redistribuir para combater as desigualdades sociais [falta especificar o que se redistribui]

- Melhorar os serviços públicos criando emprego [tudo a funcionar com funcionários]

- Apoiar o investimento e a criação de emprego nas micro, pequenas e médias empresas [discriminando as grandes]

- Apostar nos territórios e na economia local ["apostar nos territórios" será jogo limpo?]

 

Enfim rendido ao poder mobilizador de tão excelso ideário, não pude conter a minha indignação perante a injustiça de quem negou a Rui Tavares o ingresso na sala das sessões plenárias do Palácio de São Bento.

Ingratos eleitores, todos eles.

Incluindo eu.


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