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O legado de Mário Soares

por Pedro Correia, em 07.01.17

 Mário Soares (com Lopes Cardoso, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, Francisco de Sousa Tavares e outros) na manifestação da Fonte Luminosa, em Lisboa (19 de Julho de 1975)

 

Em democracia, só existe uma forma legítima de mudar os titulares das instituições políticas: pelo voto. E quem nos ensinou isto, numa sucessão de actos exemplares durante os anos de brasa da revolução, foi um homem chamado Mário Alberto Nobre Lopes Soares, que hoje morreu aos 92 anos. Um homem que no Portugal pré-constitucional, quando a guerra civil esteve por um fio, enfrentou a "rua" com notória coragem física e um desassombro cívico que a História (com H maiúsculo) registará. A "rua", instrumentalizada pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda, não valia afinal mais de 15% nas urnas, como muitos concluiram com espanto ao fazer-se a contagem dos primeiros votos.

Personalidade cheia de contradições, como em regra sucede às figuras que deixam a sua impressão digital nos acontecimentos históricos, Mário Soares acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, deslocando-a para o centro. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da "lusofonia".

Mas o que mais lhe devemos foi ter participado na primeira linha do combate pela instauração no nosso país de uma democracia autêntica -- aquela que assenta no sufrágio livre, periódico e universal. Com argúcia e ousadia, Soares disputou a "rua" aos comunistas, desmonstrando-lhes em comícios como o da Fonte Luminosa -- como De Gaulle fizera ao promover o gigantesco desfile dos Campos Elíseos na ressaca do Maio de 68 -- que o espaço público não é uma espécie de coutada particular das forças extremistas. E nunca deixou de fazer a indispensável pedagogia da vontade popular expressa nas urnas, mesmo quando isso ia contra o ar do tempo, como sucedeu no histórico frente-a-frente televisivo com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em 6 de Novembro de 1975.

Esse é o Soares que a História recordará.

Texto reeditado

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20 comentários

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De Makiavel a 11.01.2017 às 20:08

Citando Raquel Varela, no seu livro "A história do PCP na Revolução dos Cravos", "No dia 26 de Novembro, Ernesto Melo Antunes vai à televisão dizer que o PCP é indispensável para construir a democracia portuguesa e, contra o PS e sectores mais à direita, recusa a ilegalização do partido, que permanece na composição do VI Governo Provisório."

Aqui tem um nome, uma data e uma citação.
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De Pedro Correia a 11.01.2017 às 22:50

"Sectores mais à direita"? Mas quem?
Continua o vácuo. A conversa da treta.
Quem defendeu isso? Onde está o nome, a citação? A data?

Facto:
No dia 26 de Novembro o PCP era partido de governo e estava representado na Assembleia Constituinte com o terceiro maior grupo parlamentar.
Facto:
Ramalho Eanes, vencedor militar do 25 de Novembro, nunca defendeu um disparate desses.
Facto:
Mário Soares, vencedor civil do 25 de Novembro, também não. Aliás o PS e o PSD integravam o VI Governo Provisório, tal como o PCP.

Esses são os nomes que contam. Seis meses depois Eanes era PR e Soares era PM.

Não conheço nenhum responsável político ou militar da época que defendesse a "ilegalização" de um partido que tinha assento no Conselho de Ministros. Nem isso, como é óbvio, faria o maior sentido.
O resto era conversa de barbeiro, de taxista ou de café.

Chamar História à conversa de barbeiro é confundir a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obras.
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De Makiavel a 12.01.2017 às 10:43

Dizer que Mário Soares e Ramalho Eanes não defenderam a ilegalização é dizer o óbvio ululante. Pois se foram as vozes deles (acrescentaria Melo Antunes a essas vozes) que se levantaram contra a corrente mais à direita que defendia essa via, qual o interesse em afirmar isso?
Nenhum responsável político ou militar defendeu taxativamente essa via. Isso seria ridículo.
Mas as declarações de Melo Antunes em 26 de Novembro, sobre a participação do PCP no futuro político do país, só podem ser entendidas pela existência de correntes dentro dos vencedores do 25 de Novembro que advogavam o afastamento do PCP da vida política portuguesa.

http://www.rtp.pt/noticias/25-novembro-1975/declaracao-de-melo-antunes-em-26-de-novembro-a-mao-estendida-ao-pcp_v874940

Não consta que Melo Antunes tivesse feito essas declarações enquanto cortava o cabelo, chamava um táxi ou bebia um café na Brasileira.

Poupe-se em trocadilhos estafados.
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De Pedro Correia a 12.01.2017 às 12:26

Como de costume, você não adianta nada. Anda em círculos.
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De Makiavel a 12.01.2017 às 18:15

Estou a ver que precisa de um desenho para perceber. Passo, não tenho pachorra.
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De Pedro Correia a 12.01.2017 às 21:36

Que direi eu...

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