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Delito de Opinião

O lado oculto da Lua, celebrizado pelos Pink Floyd

Pedro Correia, 14.05.22

Natália Correia.jpg Vera Lagoa.jpg

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Há sempre outro lado da história em Portugal. Ou da História, se optarmos pela maiúscula. Mas esse lado costuma permanecer obscuro. Prevalece a narrativa oficiosa, que se torna oficial, e dela emana uma falsa verdade incontestada. De via única.

Felizmente este relato unidimensional vai abrindo brechas. Em forma de ficção. Começou com os portugueses de origem europeia que viviam em África no 25 de Abril. Eram cerca de um milhão, só em Angola e Moçambique. Alguns nunca tinham posto um pé na capital do império quando se viram forçados a abandonar aquele continente em escassos meses, deixando lá tudo, em 1975. Houve inúmeros episódios traumáticos, jamais contados no espaço público: não interessava falar disso. Os civis eram esquecidos em torrentes de imagens e palavras que só aludiam aos militares.

Felizmente um romance e uma série resgataram-nos dessa intolerável omissão. O livro foi O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, editado em 2011. A série foi Depois do Adeus, da RTP, exibida em 2013, com realização de Patrícia Sequeira e Sérgio Graciano. Graças a elas, as gerações mais jovens conheceram enfim o pesadelo dos compatriotas radicados em África naqueles tempos – primeiro lá, depois aqui. Compatriotas sem farda, não os da tropa.

 

Uma série também pode fazer serviço público. Se for na RTP, tanto melhor. Como sucede com 3 Mulheres – Pós-Revolução, em exibição no primeiro canal. Pondo de novo em foco o trio feminino que surgira em 2018, em ambiente pré-revolucionário: Natália Correia, Vera Lagoa e Snu Abecassis. Num país dominado por homens, elas romperam o bloqueio, cada qual a seu modo, contestando o salazarismo.

A nova série realizada por Fernando Vendrell tem vários méritos. A começar no guião e nos diálogos, que jamais soam a falso. E na qualidade da representação – com destaque para Soraia Chaves como Natália Correia: no gesto, na pose histriónica, na inflexão de voz, na pronúncia de cada sílaba. Superlativa.

Também Victoria Guerra (Snu) e Maria João Bastos (Vera Lagoa) compõem bem as personagens, tornando-as credíveis. Victoria trabalha com inegável competência o sotaque, aspecto em que as produções portuguesas costumam desleixar-se a pontos inconcebíveis.

Há notáveis secundários – Fernando Luís (no papel de Alfredo Machado, marido de Natália) e Luís Mascarenhas (interpretando Vitorino Nemésio). E jovens actrizes emanando talento, como Vera Moura e Madalena Almeida.

 

Mérito suplementar: 3 Mulheres assinala com desassombro que no período revolucionário, sobretudo entre 11 de Março e 25 de Novembro de 1975, houve outras intolerâncias – de sinal oposto às da ditadura. Novas prisões arbitrárias, novas sevícias, novos interditos. Eis um: Natália impedida pelo Conselho de Redacção do diário A Capital de ali publicar uma crónica com a frase «A minha revolução não é esta.» Levando à digna demissão de David Mourão-Ferreira do cargo de director, solidário com a escritora censurada.

Desvenda-se a face oculta da Lua, para lembrar um título dos Pink Floyd tão em voga naquele tempo hoje transfigurado pela nostalgia.

 

Texto publicado no semanário Novo.

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