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O Islão e a Europa (1)

por João André, em 10.01.15

E pronto. Bastaram uns dias e a esquerda já tem culpas no cartório. Até me admirei isto não ter aparecido mais cedo. A esquerda são aqueles tipos que comem criancinhas (não muçulmanas) ao pequeno almoço e que cometem esse pecado incrível de querer compreender as causas dos actos de indivíduos. Que disparate. Como se atrevem? Deviam era exercer o seu "direito ao silêncio" (adoro esta expressão novolinguística). Nem vale a pena explicar porque razão tais comentários seriam em si mesmos uma tentativa camuflada de limitar aquilo que pretendem defender.

 

O princípio de quem ataca esse tipo de declarações parece ser simples: os atacantes eram terroristas com ódio à liberdade de expressão do jornal e cartoonistas pelas suas aparentes injúrias ao Islão. Porque razão o fizeram? Porque eram terroristas. Porque razão eram terroristas? Porque o fizeram. O argumento anda, mais ramificação menos ramificação em torno des lógica (sic).

 

A muita gente dá jeito manter uma imagem monstruosa dos atacantes. Não são verdadeiramente humanos, são monstros com noções de cultura completamente díspares das nossas. Deveríamos era construir muros/deportá-los/prendê-los/massacrá-los (riscar o que não interessa). Quem são eles? Pois... eles, os terroristas. São muçulmanos, não é? Esses. Pois.

 

A desumanização do outro lado é truque tão antigo como a humanidade. Essa desumanização pode ser feita pelo lado da cor, cultura, raça, religião, ideologia, idade, etc. É a melhor forma de garantir a hostilidade. Infelizmente é também falsamente execrável. Qualquer ataque às tentativas de entender os possíveis motivos dos terroristas/assassinos (não riscar nenhuma opção) é não só um mau serviço à liberdade que se pretende defender, é também altamente contraproducente. As teorias para explicar o racismo ideológico, o ódio religioso ou a rejeição cultural de um grupo ou indivíduos podem estar completamente erradas. Sousa Santos poderá estar a dizer disparates atrás de disparates. Só que isso não sucede por tentar explicar.

 

Infelizmente ainda domina um conceito estranho que parece defender que é possível ser-se inatamente racista (seja lá qual for a forma que o racismo assuma) e que impede a análise destas mentalidades. Infelizmente não o somos (as coisas seriam mais simples) e há sempre razões sociais e individuais para os actos como os desta semana em França. A melhor forma de impedir a sua repetição é precisamente compreender aquilo que lhes deu origem. Não estamos a desculpar os terroristas, estamos a tentar evitar que outros surjam. Não o fazer seria o mesmo que condenar o virús do ebola por ser mau e não tentar compreender como evitar novos surtos.

 

Como o Pedro escreveu, não somos todos Charlie. Evitei tais facilitismos no meu texto por isso mesmo. Somos humanos. E, por muito que muitos o queiram ignorar colocando a cabeça na areia, os terroristas também o eram. Por isso são perigosos.

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1 comentário

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De M. S. a 10.01.2015 às 18:00

Caro João André:
O raciocínio de quem condena os que querem compreender as causas (não desculpando NUNCA os execráveis crimes, repito para os duros de entendimento, não desculpando NUNCA os execráveis crimes, que é a minha posição) tem um telhado de vidro bem à mostra.
Fale-lhes de alguns dos crimes de guerra de Israel contra os palestinianos (nem me refiro aos contra os radicais do HAMAS em Gaza, falo contra os palestinianos moderados, pois quando se trata de traulitada toca a todos) e os tais que nem querem ouvir falar em compreender crimes como os de anteontem veem logo com a compreensão, o contexto.
Falam logo dos ataques a Israel, que este tem direito a defender-se, etc. e tal - o que é verdade, tem direito a existir e a defender-se, e tem a obrigação de repartir o território de acordo com as determinações internacionais e de não ocupar o território que não lhe pertence: colonatos, saberão o que é?.
É que falar de Israel, falar do caos Iraque pós-bushiano em nome de uma maciça mentira, falar da Síria pós-Obama em nome da mesma política suicida no Médio Oriente e Norte de África (agora na Ucrânia também), três fontes que bem alimentaram os radicais islamitas - radicais sempre existiram e sempre existirão, o que é preciso é não os alimentar com mais pretextos inúteis e estúpidos - não interessa, pois vai bater no mesmo ponto.
Arrasa a visão maniqueísta: nós e os nossos, bons; vós e os vossos, maus.
Mas o pior é que, independentemente das opções diferentes em tudo na vida que cada um possa ter, vivemos no mesmo mundo e sofremos as consequências do que acontecer: maniqueus bons e maniqueus maus.
Este maniqueísmo, esta incapacidade de pensar a partir de argumentos e não a partir de acusações de culpa é um dos grandes dramas do tempo presente.

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