O irónico e fabuloso destino de AJ Seguro
Como se sabe, António José Seguro teve uma carreira quase sempre ligada à política partidária até deixar de ser líder do PS, em 2014. Teve uma liderança algo titubeante, tentando distanciar-se da herança socrática, hesitando entre uma colaboração institucional com o então governo de Passos Coelho - cuja carreira política até ali era muito semelhante - e uma oposição tímida, o que levou à sua deposição pelo aparelho que apoiava António Costa. Depois disso, remeteu-se a um total silêncio e resolveu fazer vida fora da política, estudando e conhecendo o mundo das pequenas empresas.
Até que, num momento de provocação a Costa, Pedro Nuno Santos lançou o seu nome como putativo candidato à presidência da república. Tanto bastou para que Seguro saísse do anonimato político a que se recolhera e aproveitasse a deixa, coleccionando alguns apoios enquanto o partido que liderara o ignorava ou até o desprezava explicitamente.
Depois das intenções, Seguro passou aos actos e anunciou a candidatura ao cargo da chefia de estado. O PS afadigou-se a procurar um candidato, só que, perante a eterna indisposição de António Vitorino para a missão (tal como qualquer outra actividade política activa, de que Vitorino foge como o Diabo da cruz) ou da risível hipótese do impopularíssimo Santos Silva, teve mesmo que apoiar oficialmente Seguro, sem o menor entusiasmo, embora JL Carneiro tentasse dar um ar mais enfático. A candidatura de Seguro vogou sem provocar ondas de lama nem responder a provocações, sabiamente afastada do partido, e conseguiu aproveitar confusões de outros e a desistência contínua de parte da esquerda para ficar em primeiro na 1ª volta. Por causa disso, começaram a brotar frases, sobretudo nas redes sociais, dizendo que, se fosse eleito, o PS voltaria ao poder (como?), que iria a correr dissolver a AR, que renomearia Sócrates para primeiro-ministro, que implantaria o regime soviético, que imitaria Vasco Gonçalves, que reeditaria a Geringonça, faria de Portugal uma nova Venezuela, etc e tal. Isto não é ironia da minha parte: tudo isto vi escrito e escarrapachado, e que iam atribuindo a Seguro. Sim, repito, a Seguro.
Agora, na 2ª volta, o candidato que tinha sido apeado da liderança do partido por causa de uma "vitória poucochinha" numas Europeias teve uma vitória enormíssima, com o maior número de votos numa eleição presidencial e dois terços da percentagem. Aquele que tinha sido desprezado pelo próprio partido e que estava remetido a uma travessia de um deserto permanente ressurge por causa de uma mera sugestão de PN Santos e acaba como chefe de estado com amplíssima legitimidade eleitoral, mesmo que muitos votos tenham sido contra outro candidato, e no meio de um conjunto de desastres que assolaram o país sem que no entanto a abstenção tenha subido.
Lembro-me de ver uma reportagem sobre o que AJ Seguro tinha ido fazer depois da liderança do PS e de pensar que se voltasse à política estaria muito mais bem preparado, uma vez que tinha tido mais vida (empresarial, académica) para lá da mera actividade partidária, a única que tinha conhecido, e seria até menos cinzento. Espero bem que isso se concretize, mesmo que não espere que ToZé Seguro seja um estadista de envergadura superior. Veremos.
Mas a política é por vezes engraçada e, tal como outras vertentes da vida, move-se por pequenos acasos e acontecimentos fortuitos e não por excessivas planificações. E isso só lhe dá mais sal.


