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Após as eleições legislativas do passado dia 6, fomos confrontados com algumas novidades, das quais destaco os novos partidos que pela primeira vez elegeram deputados. Falo do Chega, do Livre e o do IL.

A representação de cada um deles no hemiciclo de São Bento é limitada mas cada um representa novas e diferentes abordagens da realidade, com que naturalmente iremos ser confrontados.

Estes três partidos têm características em comum e outras que os distingue. Cada qual à sua maneira representam duas visões do mundo.

Num dos lados desse mundo estão aqueles que acreditam que uma pessoa vale pelo que é, pela forma com que enfrenta o mundo, pela forma como se relaciona com os demais, pela capacidade de dar e pelo que aceita em troca disso. Acham também que cada ser humano tem um potencial de acrescentar coisas boas ao mundo e por isso deve ser tido em consideração pela pessoa que é. Lidar com um desconhecido de acordo com esta abordagem é exigente e trabalhoso. Mais fácil seria classifica-lo pelo grupo em que o poderíamos encaixar. E essa é a abordagem alternativa. Essa é a abordagem que classifica o indivíduo de acordo com uma caracterização pré-definida e que dessa forma lhe rouba a individualidade. No fundo é uma abordagem preconceituosa, e o preconceito é um atalho de raciocínio que simplifica e poupa o esforço necessário à avaliação e ao conhecimento do outro. Tem um elevado potencial de criar erros de avaliação e por isso de impedir a realização pessoal das vítimas destas avaliações errôneas. No momento seguinte é a sociedade que fica a perder pela ausência do benefício que as vítimas destes preconceitos poderiam acrescentar aos seus pares.

Esta segunda forma de estar na vida, e também na política, é preguiçosa, é injusta e racista.

Para o Chega e para o Livre o indivíduo é menor que o grupo a que pertence e por isso não deve ser avaliado pelo que é. Um e outro dizem representar grupos em contraponto com outros grupos de uma forma em que é difícil encontrar pontes de entendimento.

Pelo contrário o IL, e o liberalismo que representa, defende que acima de tudo está o indivíduo. Avaliar o indivíduo pelo grupo a que pertence é redutor do seu potencial e isso não deve ser o motivo para que as portas do elevador social lhe sejam fechadas.

Não é o estado que deve reconhecer direitos ao indivíduo, mas sim o indivíduo que deve definir os limites do estado. O estado não é a concretização da liberdade pois o inverso é o que deve acontecer.

Após anos e anos em que a política esteve refém da economia, parece que finalmente o debate ideológico regressou à Assembleia da República. Os debates de quinta-feira vão ser mais interessantes e são bem vindos.


17 comentários

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De Anónimo a 13.10.2019 às 18:32

Não é binário, é escalar.

lucklucky
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De Paulo Sousa a 13.10.2019 às 19:39

Concordo se está a dizer que não coloca estas duas visões lado a lado mas que a hierarquiza pelo seu valor.
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De Anónimo a 13.10.2019 às 19:14

Gostei muito da forma clara como expos a diferença entre individuo e membro de comunidade. Racionalmente tendia a concordar: acreditava que as pessoas valem pelo que são por si só, pelo seu valor, carácter e competência. Era a primeira a dar exemplos de pessoas de extractos sociais desfavorecidos que conseguiam singrar e mostrar o seu valor intelectual. A repudiar um tratamento privilegiado - através de quotas -, para as mulheres, preferindo enaltecer aquelas que se destacaram apesar dos entraves. A chamar a atenção para a tonteria de associar aos negros um padrão de fragilidade económica, social e cultural, fazendo ver que só pessoas sem mundo podem desconhecer a existência de gente civilizada e bem instalada em todas as raças, em qualquer parte do mundo.

Era nisto que acreditava até a vida me obrigar a ver os muitos condenados a desempenhar um papel determinado por pertencerem a determinados ‘grupos’. Discriminações baseadas no género, na orientação sexual, na raça, na deficiência ou tão só no estatuto social ou económico. Julgo que é pacífico que estas discriminações existem, salvo para quem estiver muito distraído ou, então, de má-fé. E era nisso que acreditava até a vida, por outro lado, me demonstrar que, salvo honrosas mas raríssimas excepções, é em grupo e pelas relações em grupo que se conquista um lugar ao sol.

Se não tenho paciência para as marchas gay, também não tenho para os casamentos de Santo António.

Se não tenho pachorra para a desculpabilização das agressões das quadrilhas dos bairros sociais à polícia, também não tenho paciência para as quadrilhas de gestores de grandes empresas e banqueiros, todos familiares, amigos, conhecidos e agremiados pelo interesse do desfalque ao próximo.

Se me enerva ver manifestações de histeria feminista com apelo ao ódio aos homens, fico pior ainda quando vejo o número de mulheres assassinadas ou simplesmente agredidas por trogloditas que não aguentam um par de cornos ou tão simplesmente uma mulher com opinião.

Nesta matéria de individuo versus grupo estou na corda-bamba. Se a razão me diz que cada um vale pelo que é, o coração sabe dizer que cada um é também aquilo que os outros deixam que seja. Diz que classificar um individuo conforme a pertença a um grupo rouba a individualidade. Pergunto-me em que momento se dá esse roubo (esse furto violento). Será no momento em que o catalogamos? Ou antes, no momento em que nascemos ou determinado facto nos condena a uma vida com barreiras físicas ou de preconceito?

Ouvi anteontem alguém dizer que não é por um ter um homossexual no Parlamento que os homossexuais ficam melhor representados, assim como não é por ter uma negra que os negros são melhor defendidos. O que interessa são as políticas que se defendem e se executam. Com isso concordo.

Isabel
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De Paulo Sousa a 13.10.2019 às 19:37

Nenhum destes partidos que conquistaram a minoria absoluta, ou outro do campeonato dos grandes, alguma vez levará a cabo políticas que acabem com a existência de patifes e de crimes. Meter características de grupo nisso é uma excelente forma de complicar a coisas. Sabemos que isso até pode encerrar boa vontade mas também sabemos que isso não é solução. As periferias francesas mostram-nos que regar os problemas com dinheiro apenas os torna maiores. Não há formulas garantidas, mas repetir as medidas que sabemos não terem sido eficazes esperando ter um resultado diferente... não é inteligente.
Obrigado pelo comentário
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De Anónimo a 13.10.2019 às 22:53

Sim, também não acredito que o façam.

De qualquer modo, quanto aos crimes sabemos que se os indivíduos funcionam em bando, apanhá-los individualmente não resolve. É preciso conhecer a prática da rede para a desmontar. E face aos níveis de corrupção que conhecemos era essencial desfazer estas práticas que inviabilizam qualquer possibilidade de existência de um País respeitável.

E as políticas de coesão social não deveriam passar pela distribuição de dinheiro público sem critério e escrutínio.

Isabel
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De Anónimo a 13.10.2019 às 19:47

Estrato*social. Apre, esta até a mim doeu.
E indivíduo com acento.
Desculpem.

Isabel
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De Anónimo a 13.10.2019 às 21:24

Muito bom Isabel !

WW
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De Anónimo a 14.10.2019 às 15:26

Obrigada.
Isabel
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De Anónimo a 13.10.2019 às 21:43

Mais 3 partidos para o chinfrim politiqueiro e para a luta dos direitos adquiridos !
Entender o indivíduo como algo superior á sociedade onde se insere é errado, entender o indivíduo como algo inferior á sociedade onde se insere é errado.
Tem de existir ponderação, o problema é que existem muitos grupos de indivíduos que se acham acima da sociedade onde se inserem uns pequenos mas que se valem do seu poder económico , outros que se valem do seu número enquanto a restante maioria esmagadora da sociedade os tem de aturar e aparar os respectivos golpes. A IL defende a total ausência de regras em sociedade, os mais fortes é que são bons, os outros dois defendem não nada, são aberrações do nosso sistema eleitoral que permite que dezenas milhares de votos não se traduzam em representação e outros com 50 mil votos em Lisboa já têm deputado, já para não falar nos votos brancos / nulos ( quem decide o que é um voto nulo ?????).
E agora fora de tópico alguém me pode explicar como é um país (e uma sociedade) com mais de 600 mil funcionários públicos que só trabalham 35 horas por semana e ganham bem mais que o ordenado mínimo, além da esterqueira da banca falida e empresas ancoradas privadas que vivem do Estado pode ter algum tipo de futuro ?

WW

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De Paulo Sousa a 13.10.2019 às 22:05

Definição do contrário de total ausência de regras: 600 mil funcionários públicos que trabalham 35 horas e que recebem mais que o equivalente em idênticas funções no privado.
Esta definição que acrescento é exagerada como é exagerado dizer que a IL defende a total ausência de regras.
A ponderação é de facto importante.
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De Anónimo a 14.10.2019 às 00:27

Tem razão, exprimi-me mal a IL não defende a total ausência de regras, apenas defende que as regras apenas se devem aplicar á maioria...

WW
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De Antonio Vaz a 14.10.2019 às 09:20

«Pelo contrário o IL, e o liberalismo que representa, defende que acima de tudo está o indivíduo»
«o indivíduo» ou alguns indivíduos?
Mas afinal, que "liberalismo" é representado pelo IL? Que "liberalismo" pode o deputado João Cotrim Figueiredo representar na AR?
Frases em código (tipo «Não é o estado que deve reconhecer direitos ao indivíduo, mas sim o indivíduo que deve definir os limites do estado. O estado não é a concretização da liberdade pois o inverso é o que deve acontecer.») para os "esclarecidos" acenarem que sim, ou demagogia panfletária («Avaliar o indivíduo pelo grupo a que pertence é redutor do seu potencial e isso não deve ser o motivo para que as portas do elevador social lhe sejam fechadas.») não chega para convencer que o Cotrim Figueiredo não vai apenas ser um parceiro de voto do PSD e do PP, naquilo a que, por exemplo, o Pedro Marques Lopes no DN, descreve como «Propostas como a flat rate ou a quimera da liberdade de escolha no ensino e na saúde dificilmente serão levadas a sério.», enquanto são oposição.
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De Paulo Sousa a 14.10.2019 às 23:28

Se imaginarmos uma escala de zero a cem, em que o zero corresponde a um estado mínimo e o cem a um estado absoluto, podemos dizer que a nossa situação ultrapassa largamente os 75. Votar IL não é desejar ir para o zero mas apenas travar este frenesim em que nos pedem o nif quando bebemos um café e apenas temos de confirmar no portal da AT os valores das despesas que realizamos ao longo do ano. Tudo isto para ter urgências pediátricas encerradas e polícias a contactar a central com o telemóvel particular.
Se estiver satisfeito nos 75, se for beneficiário do SNS Premium, vulgo ADSE, e não se preocupar com o desequilíbrio em que vivem os seus concidadãos, então usufrua e continue a votar na manutenção da situação. Se achar que as gerações mais novas mereciam ter um futuro melhor então talvez seja altura de mudar.
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De jo a 14.10.2019 às 11:15

a doutrina económica da IL não distingue as pessoas pelo que são, distingue-as pelo que têm.
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De Paulo Sousa a 14.10.2019 às 22:03

Discordo mas lembro-lhe que na actual doutrina económica quem tem dinheiro pode escolher onde é tratado e quem não tem ... não tem escolha. As urgências dos serviços de pediatria enceram mas não se passa nada porque estamos satisfeitos com o socialismo.
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De Antonio Vaz a 14.10.2019 às 23:20

«As urgências dos serviços de pediatria enceram» porque o "socialismo", graças sabe-se lá a que deus, apenas cedeu a uma pequena possibilidade do verdadeiro "liberalismo" - só deus sabe o que se poderia esperar de um verdadeiro "liberalismo" saído do IL! Para além das exigências neo-liberais da Troika...
Mal dos "socialistas" que "estejam satisfeitos com o (vigente!) socialismo": eles devem exigir muito mais, por exemplo, no que toca a romper com o financionamento de hospitais que reclamam ser instituições privadas: se são privados não devem exigir que o Estado lhes transfira parte do OE.
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De Paulo Sousa a 14.10.2019 às 23:46

Se reparar bem o SNS na sua versão económica é mais socialista que na versão Premium. Esta última subcontrata serviços porque está focada no doente que por sua vez quando tem uma dor de barriga não recusa tratamento por objeção ideológica.
É curioso que os mais empedernidos defensores dos SNS das massas são na maioria beneficiários da versão Premium. Não fosse estar impedido de o fazer, por motivos familiares, era capaz de apostar qual o seu sistema de saúde.

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