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O herói da nova tragédia grega

por Pedro Correia, em 06.05.17

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1

Eu sei que as memórias andam fracas, mas gostava de saber se alguém ainda se lembra do delírio messiânico que acolheu a vitória eleitoral de Alexis Tsipras na Grécia, em Janeiro de 2015.

Os hossanas tributados durante meses em incontáveis serões televisivos cá no burgo e nas páginas da imprensa portuguesa não deixavam lugar a dúvidas: a "verdadeira esquerda" personificada pelo líder do Syriza iria enfim fazer peito às balas "neoliberais" disparadas de Bruxelas e Berlim proclamando o perdão unilateral da dívida.

"Não pagamos" era a palavra de ordem.

Meninas com pendor anti-sistema confessavam a sua ardorosa admiração pelo efémero ministro grego das Finanças e houve até quem se fizesse fotografar com ele em comícios. Cavalheiros com irrepreensível pedigree revolucionário apressaram-se a produzir epístolas aos indígenas lusos apontado Atenas como a nova capital das luzes europeias. Jornais sempre prontos a deixar-se embalar pelos ventos dominantes derreteram-se de fervor pelo farol helénico, que nos iluminava para o "fim da austeridade".

 

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"A vossa voz anulou a austeridade. A troika é passado", anunciou Tsipras à multidão reunida para ovacioná-lo a 25 de Janeiro de 2015, provocando uma corrente orgástica no rincão luso.

Nem a coligação logo estabelecida entre o Syriza e o Anel, representante da direita nacionalista, fez esmorecer os crentes. Nem sequer o apoio manifestado ao novo Executivo por Marine Le Pen e Nigel Farage, irmãos de fé eurofóbica, abrandou a prosa ditirâmbica daqueles que por cá já anteviam o PS a ser ultrapassado pelo Bloco, equivalente local do novo partido do poder entre os herdeiros espirituais de Sócrates (o genuíno).

Durante grande parte desse ano, enalteceu-se o experimentalismo político, a irresponsabilidade demagógica, o populismo mais rasteiro (incluindo as camisas sem gravata pour épater le bourgeois), a navegação à vista.

Tsipras, o "anti-Passos", era o novo ídolo das massas.

 

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Manuela Ferreira Leite e José Manuel Pureza irmanavam-se no louvor à "devolução da dignidade" do povo grego. "Pela Grécia passa a salvação da Europa", garantia Ana Gomes, insuflada de júbilo. "O Governo grego conseguiu dobrar a Alemanha", entusiasmou-se Freitas do Amaral. "A Alemanha teve de ceder", sorria Nicolau Santos. "A Grécia teve a coragem de resistir às pressões das potências europeias", celebrou André Freire.

"Viva a Grécia", gritou a escritora Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. Enquanto o pintor Leonel Moura constatava que "uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras" e do seu ministro das Finanças, por quem "muitas mulheres da Europa" andariam "perdidas de amores". Isabel Moreira, bem ao seu jeito, corroborava.

Boaventura de Sousa Santos, confirmando que de Coimbra também se observa o mundo, vislumbrou ali rasgos de odisseia homérica: "A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa."

 

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Alguém tem ouvido estas e outras boas almas que se derramavam em cânticos e louvores à "nova Atenas" voltar ao tema?

Certamente não. E provavelmente pelos motivos que surgem enumerados neste artigo do Guardian que nos mostra a verdadeira face da Grécia após dois anos e meio de Executivo Tsipras: mais cortes de pensões (18% até 2019), novos aumentos de impostos, novo pacote de privatizações em marcha, nem vestígio de perdão da dívida.

Tudo isto para travar in extremis  um quarto resgate de emergência e afastar o espectro da bancarrota num país que desde 2009 é incapaz de se financiar nos mercados internacionais e só nos primeiros dois meses de 2015 viu desaparecer cerca de 2,5 mil milhões de euros em depósitos bancários.

Em sete anos, o produto grego caiu 27% - mais do que o ocorrido nos EUA durante a Grande Depressão - e a dívida pública ascendeu a 180% do PIB. O desemprego, agora situado em 23,5%, não dá sinais de queda. Ninguém acredita que daqui a um ano, quando terminar a actual intervenção externa, o país recupere a soberania financeira, hoje hipotecada pelo Banco Central Europeu.

Afinal o Syriza não fazia parte da solução: faz parte do problema.

 

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Outra  greve geral já está marcada na Grécia, desta vez para o dia 17. Mas Tsipras, herói da nova tragédia helénica, resiste firme: continua a não usar gravata.


1 comentário

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De Einstürzende Neubauten a 06.05.2017 às 16:53

"Tudo isto para travar in extremis  um quarto resgate de emergência e afastar o espectro da bancarrota num país"

Pergunto então:

A Austeridade, na Grécia, tem sido um sucesso? É para continuar?

Tudo culpa dos gregos e do Syriza, correcto?

Tsipras é um menino vendido, como os do PASOK. O único coerente foi o Yánis Varoufákis.

euronews: “But they (Troika) say they were willing for compromise and that you tried to have them over a barrel with the referendum that was held – that a compromise was very close.”

Varoufakis: “Well, isn’t this a wonderful reason why our call for the live streaming these meetings is pertinent. Because: ‘They said’, ‘I said’… Why can’t our electorates watch in real time what we actually say?”

euronews: “You apparently recorded them. Did you record those meetings ?

Varoufakis: “I am very proud of having done that, very proud. And anybody can challenge me if they want. The first meeting lasted 10 hours. I can assure you that I got out of it in a haze – dazed and extremely exhausted and stressed. These are very stressful occasions. I would have to come out and give an account to my prime minister of what happened, of who said what when, and to my cabinet, and to my parliament and to the European public. So I asked my secretary for a transcript of what had happened and she said to me: ‘you know, there are no transcripts, there are not minutes, there is no record of what went down.’ I said: ‘what?’ Then I established that this was true, and I thought: ‘Oh, my goodness’. And from that moment onwards I started recording using my phone, for my own record.”

"Uma investigação da agência Bloomberg recorda como um "empréstimo secreto" proposto em 2001 pelo gigante da banca de investimento, para mascarar o incumprimento grego dos critérios de Maastricht, acabou por aumentar a dívida do país ao Goldman Sachs (o banco onde trabalhava Lucas Papademos) de 2,8 para 5,1 mil milhões de euros"

"Afinal o Syriza não fazia parte da solução: faz parte do problema."

Bom pela lógica. A troika, com a suas politica de austeridade, também faz dele parte. Assim como a Goldman Sachs (Draghi, Barroso,etc) Ou é tudo uma questão de dar tempo ao tempo e aquilo há-de resultar?

"Os banqueiros faziam chegar “confidencialmente” ao gabinete de Barroso sugestões de alteração às políticas da UE, que os seus conselheiros liam “com grande interesse”. São emails e cartas que mostram como o Goldman se dizia “encantado” com algumas posições de Barroso"

https://www.youtube.com/watch?v=NQvKM0orhUo

https://www.wook.pt/livro/confessions-of-an-economic-hit-man-john-perkins/1030586

Confessions Of An Economic Hit Man
The Shocking Story Of How America Really Took Over The World
de John Perkins 

As an EHM in the '60s and '70s, covertly recruited by the US National Security Agency, John Perkins helped further American imperial interests in countries such as Ecuador, Panama, Indonesia and Saudi Arabia. He tried to write this book four times but was threatened or bribed each time to halt. The events of 9/11 forced him to reveal the truth.


E o burro, sou eu?!!





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