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Delito de Opinião

O Hemiciclo Preparatório

Rui Rocha, 07.01.19

Certo. Devemos aos gregos a semente da democracia e às democracias liberais a ideia de que a uma pessoa corresponde um voto. Mas foi preciso chegarmos à segunda década do século XXI depois de Cristo para encontrarmos um verdadeiro salto em frente na prática da democracia representativa. E desta vez não é à Grécia ou às Ilhas Britânicas que ficamos a dever este feito extraordinário. É verdade. Foi mesmo aqui em Portugal que um grupo de valorosos parlamentares trouxe a um mundo embasbacado o princípio “um deputado, várias passwords, diversos votos”. É claro que, como sempre acontece, estas ideias revolucionárias enfrentam enorme resistência. E mais uma vez aí os temos, os do costume, a pôr em causa a bondade deste avanço civilizacional. Se virmos bem, são os mesmos que se insurgem contra a falsificação de assinaturas ou a venda da Torre de Belém a incautos, os que põem em causa os benefícios das pulseiras do equilíbrio e do Cogumelo do Tempo, os que gozam com a homeopatia, os que duvidam dos mails do Príncipe da Nigéria, os que esboçam um trejeito de desdém quando vem à baila o último acto altruísta do José Paulo Pinto de Sousa a favor do seu primo Zé Sócrates, os que fazem galhofa sempre que se refere a Ericeira, os que não resistem a um trocadilho estafado sempre que se fala em robalos. É sempre assim. Por incrível que pareça, ainda há por aí gentinha que não acha piada a vigarices. Mais. É bem provável que estes acabem por triunfar, que a tacanhez prevaleça. Vamos lá ver. O que é normal é uma pessoa esquecer-se da sua própria password. Vais ao Multibanco e tungas. De um momento para outro, aquele código que sabias de cor há mais de 20 anos varreu-se. Ou tentas aceder ao gmail e tufa. Será que a tua password era abcdefgh ou era isto em maiúsculas? Ou seria 123456789? De um momento para o outro, não sabes. Esforças-te, puxas pela cabeça, ficas com suores frios, mas nada, népias, nickles. E da outra vez foi a tentar fazer login no Facebook, não foi? Pois foi. Isto é mesmo assim. O ser humano está “programado” para, mais tarde ou mais cedo, em geral mais cedo do que tarde, esquecer-se da sua própria password. Mas há deputados, verdadeiramente sobredotados, passe o pleonasmo, que não só sabem o seu código de login como ainda se lembram do de vários colegas do Parlamento. É verdadeiramente assombroso. Tão assombroso que o mais certo é mesmo, como dizíamos, que a inveja venha a prevalecer, impedindo a Humanidade de chegar mais cedo ao futuro, derrotando esses portentos capazes de votar uns pelos outros. Agora, se tiver de ser assim, e por certo será, se o imobilismo tiver de prevalecer, e por certo terá, que tudo isto se faça ao menos de forma adequada. Há quem tente paralisar a façanha preconizando um sistema de reconhecimento da íris? Há. Mas, a íris é a parte mais visível (e colorida) do olho dos vertebrados, sendo esta uma condição que a maior parte dos deputados já perdeu há muito tempo, pelo que o método é, a bem dizer, inviável. A verdade é que se o que se pretende, vá lá saber-se porquê, é garantir que os nossos eleitos estão mesmo presentes, o melhor mesmo é o Dr. Ferro fazer a chamada. Deputado Carlos César? O deputado Carlos César pediu para informar que foi aos CTT levantar a duplicação do subsídio de viagens aos Açores e que vai chegar um bocadinho mais tarde, Senhor Presidente. Deputada Fertuzinhos? A deputada Fertuzinhos pediu para avisar que apanhou trânsito à saída da sua residência em Guimarães e que vai chegar um bocadinho mais tarde, Senhor Presidente. Deputada Isabel Moreira? Deputada Isabel Moreira? Deputada Isabel Moreira, eu estou a vê-la aí a pintar as unhas, importa-se de responder à chamada? Presente, Senhor Presidente. Ai, senhora deputada, senhora deputada, se continuar assim desatenta vou ter de chamar cá o seu paizinho outra vez. Deputado Duarte Marques? Presente vírgula Senhor vírgula Presidente. Deputado Silvano? Presente, Senhor Presidente. Deputada Cerqueira, escusa de fazer voz grossa para fazer-se passar pelo deputado Silvano que eu vejo-a bem daqui. Peço desculpa, Senhor Presidente. O deputado Silvano está ou não, deputada Cerqueira? O deputado Silvano está neste momento a tomar um banho de ética, Senhor Presidente. Demora muito? Demorará, Senhor Presidente, uma vez que a sujidade estava muito entranhada. Hmmm. Deputado Feliciano? Presente, Senhor Presidente. Deputada Maria das Mercês, escusa de fazer voz grossa para fazer-se passar pelo deputado Feliciano que eu vejo-a bem daqui. Peço desculpa, Senhor Presidente. O deputado Feliciano está ou não, deputada Maria das Mercês? O deputado Feliciano está neste momento a tomar banho com o deputado Silvano, Senhor Presidente. O ponto é este: a introdução do método de chamada, ademais de garantir a presença dos deputados, já que assim tem de ser, tomará tanto tempo que os impedirá de legislar, circunstância que só poderá reverter a benefício da Nação. Para além disso, é completamente adequado ao estádio médio de desenvolvimento de boa parte dos eleitos parlamentares que estará em linha com o da garotada que frequenta a escola primária ou, nos casos mais favoráveis, o ciclo. Nada melhor, portanto, que transformar a Assembleia da República numa espécie de hemiciclo preparatório com chamadas, faltas de material e recados nas cadernetas dirigidos aos encarregados de educação.

 

* publicado na edição de Dezembro do Dia 15.

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