O grito da princesa
Não tencionava escrever sobre Clara Pinto Correia, porque nada de especial tinha a dizer. Não a conheci pessoalmente, nem acompanhei a sua vida, ou os seus escritos. Ela começou a ser notada precisamente na altura em que fui para a Alemanha (1992). Nessa época, viver na Alemanha era quase perder o contacto com Portugal, sem internet, nem redes sociais, e com telefonemas caros. Totalmente diferente do contacto diário de hoje em dia.
Durante uns anos, assinei a revista VISÃO e dei-me conta de algumas crónicas de Clara Pinto Correia. Era o início da internet e dos emails, apenas uma minoria tinha acesso a tais "luxos" e ela escrevia sobre isso: envio de emails, as novas tecnologias... Não me interessavam particularmente. Muitas vezes, passava à frente, sem ler.
Li o Adeus Princesa, mais por causa do meu marido, que ficou interessado, ao ler, num artigo alemão, que o livro tinha a ver com a base alemã de Beja. Já foi há décadas, pouco recordo, apenas que achei interessante. Agora, fiquei com vontade de o ler de novo.
As redes sociais estão cheias de pessoas que a conheceram, contam momentos passados com ela. Recordam como era inteligente e talentosa, enchem-na de elogios, para depois exprimirem a sua grande tristeza sobre a sua morte.
Estranho... Li que ela sofria de solidão, em Estremoz, que estava pobre, que enfrentava uma ordem de despejo da casa onde vivia há mais de vinte anos. Não sei se é tudo verdade. Mas andará longe?
De repente, ouvi o grito.
Alguém postou o link de uma crónica sua (afinal, ainda escrevia crónicas), publicada cerca de duas semanas antes de morrer. Pouca gente sabe (eu só soube agora) que ela escrevia, há alguns anos, numa publicação online intitulada PÁGINA UM. A sua última crónica tem passado despercebida (como, suponho, as outras que ela lá escrevia). E, no entanto, foi ela que me levou a escrever sobre a pessoa, da qual, até há poucos dias, nada tinha a dizer.
Na verdade, Clara Pinto Correia não escreveu essa crónica pouco antes de morrer. O director do PÁGINA UM, Pedro Almeida Vieira, afirma ter sido a única crónica que me aterrorizou, pela possível verdade nela contida. A primeira versão chegou-me em Agosto, excruciante, quase insuportável. Durante meses pedi-lhe que ponderasse: não porque duvidasse da sua coragem, mas porque temia pela ferida que pudesse reabrir — nela e nos leitores.
O texto acabou por ser publicado a 23 de Novembro passado. Porque, segundo Pedro Almeida Vieira, Clara Pinto Correia encarava-o como um dever cívico, embora confessasse não se sentir segura.
Pedro Almeida Vieira diz ainda que nada aconteceu, depois da publicação. E acrescenta: talvez ela esperasse que aocntecesse.
Passado duas semanas, Clara Pinto Correia foi encontrada morta, em sua casa.
A crónica é difícil de digerir. Perguntei-me várias vezes se a deveria divulgar. Trata-se de algo muito íntimo, sobre uma pessoa que acabou de falecer. Por outro lado, a própria Clara Pinto Correia insistiu na sua publicação, considerando-a um dever cívico. E, na própria crónica, ela escreve: "conto-vos a minha história para que as outras mulheres se sintam mais acompanhadas ao fazerem o mesmo".
Ela queria realmente que o texto fosse divulgado. O tal grito... Deve ter ficado muito desiludida por praticamente ninguém o ter ouvido.
Aqui vai o link. Com um título pouco aprecidado aqui no Delito: Me too.


