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O Governo de Cinco Minutos

por Luís Naves, em 11.11.15

Fernandes_da_Costa.jpg

 

O Pedro Correia fez referência, mais abaixo, a um episódio da Primeira República, o governo de cinco minutos, e não resisto a publicar aqui um excerto de um texto que escrevi há dois anos (e que não publiquei antes) sobre este estranho acontecimento. O chefe de governo, Francisco Fernandes Costa (1857-1925), na imagem, foi nomeado pelo presidente e estava a realizar a primeira reunião com os ministros que escolhera quando uma turba excitada interrompeu os trabalhos. Sob ameaça, Fernandes Costa apresentou imediatamente a sua demissão. A situação política era volátil, o país estava em crise financeira e os radicais dificultavam a participação da direita no poder, neste caso de um especialista em finanças. O que provocou o protesto foi a inclusão de ministros ‘sidonistas’, ligados ao presidente Sidónio Pais, que fora assassinado meses antes. O texto baseia-se na leitura dos jornais do dia.

 

“Gastou-se demais. Gasta-se demais. Esta é, com efeito, a verdade incontroversa”, assim escrevia o editorialista do Diário de Notícias, na edição de 16 de Janeiro de 1920. Na véspera, 15 de Janeiro, Lisboa vivera um dia memorável, com a nomeação de um novo governo, chefiado por Francisco Fernandes Costa e que manifestações ruidosas forçaram a demitir-se mesmo antes de tomar posse, no que ficou conhecido como o episódio do “governo dos cinco minutos”. Vivia-se um período de grande instabilidade política, a ponto de nessa manhã terem corrido boatos sobre “nutrido tiroteio” na zona da Rotunda. Fora afinal um falso alarme, as descargas do motor de um automóvel avariado na Avenida da Liberdade.

Os partidos tinham organizado um governo liderado pela facção liberal dos republicanos, à direita, mas havia grupos que reclamavam um “gabinete nacional”, ou seja, sem sidonistas (partidários do falecido presidente Sidónio Pais). Apesar das fortes medidas de segurança, o presidente António José de Almeida perdeu o controlo da situação. Conhecido o elenco do governo, logo se organizaram comícios na Praça do Comércio e desfiles pela cidade, até ao Rossio, com cenas de pancadaria e até o atropelamento acidental de um pobre mendigo, que segundo o Diário de Notícias ficou muito maltratado nas pernas.

Os ministros reuniram pela primeira e última vez no gabinete do chefe do governo, na Junta de Crédito Público*. Segundo contou o próprio Fernandes Costa, na sua carta de demissão, “o edifício foi invadido, em tumulto, por muitas pessoas, enquanto muitas mais se aglomeravam nas portas do edifício, as quais, em altas invectivas contra o referido ministério, protestavam contra a sua constituição, reclamando a formação de um ministério nacional”. Foi assim inviabilizada à força a solução Fernandes Costa. O governo anterior, demissionário, de Sá Cardoso, manteve-se até Março de 1920, quando foi formado um gabinete independente, o 23º da Primeira República (descontando juntas revolucionárias e governos provisórios). Por sua vez, esse governo independente duraria três meses, o que era uma eternidade, em comparação ao efémero 22º, o mais curto de sempre”.

 

* O actual edifício do Ministério das Finanças

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