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Ó glória de mandar, ó vã cobiça

por Pedro Correia, em 10.06.14

Ao tomar posse como primeiro-ministro do XVIII Governo Constitucional, em Outubro de 2009, José Sócrates retomou uma antiga tradição da política portuguesa citando um verso de Camões que andava um pouco esquecido: “Esta é a ditosa pátria minha amada.” 

Vem n’ Os Lusíadas, um clássico que ainda seduz políticos contemporâneos da mesma forma que seduziu o Rei D. Sebastião quando, segundo se julga, Luís de Camões lho leu pela primeira vez, no início da década de 1570, no paço real. "Esta é a ditosa pátria minha amada, / À qual se o Céu me dá que eu sem perigo / Torne com esta empresa já acabada, / Acabe-se esta luz ali comigo”, escreveu Camões no canto III, 21ª oitava, d’ Os Lusíadas. É uma das mais belas quadras desta obra matricial da língua portuguesa cujo grau de popularidade se afere bem pela presença de muitos dos seus versos na nossa linguagem de todos os dias.

Com efeito, é vulgar aludirmos à "ocidental praia lusitana” (canto I-1), àqueles que foram "dilatando a fé e o império” (I-2), aos que "se vão da lei da Morte libertando” (I-2), ao "engenho e arte(I-2) ou ao "peito ilustre lusitano (I-3). São igualmente familiares, até a quem não leu uma só linha do vasto poema, versos como estes: "Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta!” (I-3); "Vós, poderoso Rei, cujo alto Império / O Sol, logo em nascendo, vê primeiro” (I-8); "(...) julgareis qual é mais excelente, / Se ser do mundo rei, se de tal gente” (I-10); "Duma austera, apagada e vil tristeza” (canto X-145).

 

Os Lusíadas é uma obra marcante também pelas figuras que cria ou recria.

As Tágides ("E vós, ó Tágides minhas, pois criado / Tendes em mim um novo engenho ardente”, I-4); Vasco da Gama, o "forte capitão” (I-44); a deusa Vénus, defensora dos portugueses, que "novos mundos ao mundo irão mostrando” (canto II-45), pois "se mais mundo houvera, lá chegara” (canto VII-79); Inês de Castro, aquela "que depois de ser morta foi rainha” (III-118); o Velho do Restelo com as suas imprecações ("Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Dessa vaidade a que chamamos fama”, canto IV-95); ou o sinistro Adamastor ("Cheios de terra e crespos os cabelos, / A boca negra, os dentes amarelos”, canto V-39).

Já para não falar das incursões autobiográficas do autor no seu poema, como aquela em que se retrata como alguém que tem "numa mão sempre a espada e noutra a pena” (VII-79).

Ou quando, projectado em interposto navegador no célebre episódio da Ilha dos Amores, nos ensina que "Melhor é experimentá-lo que julgá-lo / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo” (canto IX-83).

 

Camões foi um mestre na arte do aforismo em forma de verso, como Os Lusíadas bem testemunham.

Eis alguns desses aforismos: "É fraqueza entre ovelhas ser leão” (I-68)"Sempre por via irá direita / Quem do oportuno tempo se aproveita” (I-76); "Quanto mais pode a fé que a força humana” (III-111); "Um baixo amor os fortes enfraquece” (III-139); "É grande dos amantes a cegueira” (V-54); "Contra o Céu não valem mãos” (V-58); "Quem não sabe a arte, não na estima” (V-97); "Fraqueza é dar ajuda ao mais potente” (IX-80).

Não admira que o nosso maior poeta continue a seduzir políticos: foi ele quem ensinou que "toda a terra é pátria para o forte” (canto VIII-63). Foi ele que tão bem soube cantar essa "ínclita geração” (IV-50) que se aventurou no ponto exacto "onde a terra se acaba e o mar começa” (VIII-78)".

Foi no entanto também Camões quem ensinou – aludindo a D. Fernando – que "um fraco rei faz fraca a forte gente” (III-138).

Este é um verso que não imaginamos em nenhum discurso de posse. O que não quer dizer que não seja igualmente digno de reflexão.

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20 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 10.06.2014 às 15:13

Li 4 vezes Os Lusíadas. Porque tive que ler, para ajudar a filha mais velha, para ajudar a filha mais nova, porque quis reler para aprofundar o conhecimento da obra maior escrita em português.
No meu pequeno"corner" da Blogosfera onde escrevo o que me dá na gana, porque posso, nunca me cansarei de cantar o peito ilustre lusitano, que também é meu, enquanto vilipendiarem repetidamente o meu país.

"Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos."

Enquanto houver homens e mulheres que se orgulhem da raça, as nuvens de pó levantadas pelos ímpios cascos de Alcácer Qibir não toldarão a visão, o sentimento ou a identidade do povo de Portugal.
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De Pedro Correia a 11.06.2014 às 11:54

'Os Lusíadas' é uma das obras que mais li e mais tenho anotada e sublinhada. Formam um tríptico - com 'Os Maias' e o 'Livro do Desassossego' - do melhor de sempre na literatura portuguesa.
É sempre possível redescobrirmos nos versos de Camões algo de que nunca nos tínhamos apercebido antes, produzindo em nós o efeito de uma revelação. Privilégio exclusivo das grandes obras da literatura universal.
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De Custódia C a 10.06.2014 às 15:36

Muito bom Pedro!
"Os Lusíadas" são sempre uma descoberta, tão actual nos dias de hoje como no séc XVI.
"um fraco rei faz fraca a forte gente” (III-138). Subscrevo a dignidade da reflexão!
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De Pedro Correia a 11.06.2014 às 11:05

Obrigado, Custódia. É sempre bom vê-la por cá.
Não há obra na literatura portuguesa como 'Os Lusíadas', com tantas expressões que ingressaram no vocabulário comum. A tal ponto que muita gente que nunca leu nem jamais lerá esta poema ímpar reproduz versos de Camões (sem saber que o são). Expressões como "ocidental praia lusitana" e "engenho e arte".
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De Custódia C a 11.06.2014 às 13:34

É verdade!
O ano passado, com a minha Comunidade de Leitores, fizemos um exercício interessante que foi ler "Os Lusíadas" em grupo e ...foi fabuloso. As sessões desenrolaram-se em locais bem aprazíveis e a leitura em voz alta, com análise e discussão de cada canto, criou-nos momentos extraordinários. Camões deixou bem claro, o quanto a nossa língua é bela e rica!
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De Pedro Correia a 12.06.2014 às 01:06

Muito bem, Custódia. O meu aplauso a essa iniciativa. Sempre considerei que a poesia se aprecia melhor quando dita em voz alta - a música, a sonoridade, são inseparáveis do discurso poético.
E 'Os Lusíadas' só ganham com a leitura oral - abrindo as vogais em vez de as fecharmos como tantas vezes fazemos na nossa fala quotidiana. É um dos mais belos poemas de sempre - em qualquer idioma. Chego a espantar-me como pode haver alguém incapaz de sentir fascínio por esta obra, que está para as letras portuguesas como o Mosteiro dos Jerónimos, o da Batalha e o Convento de Cristo em Tomar, conjuntamente, estão para o nosso património edificado.
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De da Maia a 10.06.2014 às 16:57

Pois... o Pedro teve a ousadia de lembrar que hoje é o dia de Camões, mesmo!

Isso é complicado, porque os Lusíadas são tomados como injecção na adolescência, ficando assim em remissão, sem curiosidade de reler o texto em idade adulta.

Só um pequeno exemplo... (Canto III, 131)
Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;


Quem são Polixena, Aquiles e Pirro?
É suposto ler-se os Lusíadas sem saber todas as referências?
Num mundo da farsa educativa, é.

Em 4 linhas apenas, Camões remete para o problema da traição de Polixena que na Guerra de Tróia trai Aquiles, levando-o à morte, e será morta pelo filho dele, Pirro... para que as naus gregas possam partir.

Em 4 linhas apenas, Camões invoca o problema de Afonso IV.
- O pai D. Dinis envolve-se com a "mãe velha", Aldonça Talha.
- D. Dinis em Alvalade perde a pretensão de substituir o filho Afonso IV pelo bastardo Afonso Sanches.
- Afonso IV assume o trono, e verá o filho Pedro seduzido por Inês de Castro, afinal sobrinha de Afonso Sanches.

A cena repete-se... e os filhos de Inês seriam ameaça a D. Fernando, tal como o filho de Aldonça foi ameaça a si.
Para que as naus de Fernando pudessem partir, Polixena tinha que morrer.

Em apenas 4 linhas...
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De Pedro Correia a 11.06.2014 às 11:07

Pirro sei quem é, da Maia. Foi o vencedor das recentes eleições europeias em Portugal. Ouvi várias alusões à vitória dele - a "vitória de Pirro".
Cesse tudo o que a musa antiga canta.
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De da Maia a 11.06.2014 às 12:33


Sim, há muitas vitórias atribuídas a Pirlo, para destabilizar Cristiano:
https://www.youtube.com/watch?v=IkyC9ZdHjaU

Espirro és Pirro, se Aqueles forem Aquiles.

Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino, e ao povo caridade,
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade;

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De Pedro Correia a 12.06.2014 às 01:02

E não é que Pirlo anuncia já que, com ou sem vitórias de Pirro, deixará de pôr todo o engenho e arte ao serviço da selecção logo após o Mundial?
http://extra.globo.com/esporte/copa-2014/pirlo-pensa-em-deixar-selecao-italiana-depois-da-copa-2014-12809135.html
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De da Maia a 12.06.2014 às 01:31

Mais um incentivo para o Cristiano, tem que aproveitar para jogar com ele, para ver se supera todos os outros mitos e não só a si próprio...
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De Pedro Correia a 15.06.2014 às 14:19

É verdade, da Maia. E o Cristiano Ronaldo já demonstrou que sabe aprender. Essa é uma das muitas qualidades dele. Não é por acaso que se chega ao título de melhor jogador do mundo.
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De Carlos Cunha a 10.06.2014 às 17:27

o jorge de sena é que não foi lá muito à bola com a "ditosa pátria minha amada", a julgar pelo seu poema "a portugal"

http://www.escritas.org/pt/poema/1774/a-portugal

já quanto aos camões, nota-se que o sena lhe nutria alguma estima, tanto mais que lhe permitiu dar mais umas marretadas (poéticas) no pessoal cá deste jardim à beira-mar plantado......

http://www.ciberduvidas.com/antologia.php?rid=671

não ficam mal lembrados nesta data, os 2 poetas e estes dois poemas do sena.
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De Pedro Correia a 11.06.2014 às 11:13

Há quem pense que a expressão "jardim à beira-mar plantado" é camoniana. Mas não. É muito posterior, de uma oitava contida num longo poema de Tomás Ribeiro (1831-1901) - ele sim, de nítida inspiração camoniana:

«Jardim da Europa à beira-mar plantado
de loiros e de acácias olorosas;
de fontes e de arroios serpeado,
rasgado por torrentes alterosas,
onde num cerro erguido e requeimado
se casam em festões jasmins e rosas,
balsa virente de eternal magia
onde as aves gorjeiam noite e dia.»
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De Carlos Cunha a 12.06.2014 às 08:07

ora aí está um belo exemplo da profecia contido no poema "camões dirige-se aos seus contemporâneos":
"...
E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos..."


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De Pedro Correia a 15.06.2014 às 14:21

Esse é um dos meus poemas preferidos, Carlos. De uma espantosa e arrepiante lucidez.
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De Ssalgueiro a 10.06.2014 às 18:42

Camões também avisou.

"A nau que se vai perder
destruí mil esperanças;
vejo o mau que veio a ter;
vejo perigos correr
quem não cuida que há mudanças."
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De Pedro Correia a 11.06.2014 às 11:26

Isso quando não estava rendido aos encantos da Ilha dos Amores:

«Tomando-o pela mão, o leva e guia
Pera o cume dum monte alto e divino,
No qual uma rica fábrica se erguia,
De cristal toda e de ouro puro e fino.
A maior parte aqui passam do dia,
Em doces jogos e em prazer contino.
Ela nos paços logra seus amores,
As outras pelas sombras, entre as flores.»
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De JgMenos a 10.06.2014 às 23:52

Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,

Faz tredoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciência
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De Pedro Correia a 11.06.2014 às 11:32

No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

(última oitava do Canto I)

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