Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

O genocida que gostava de ler

Pedro Correia, 08.10.21

Untitled-1.jpg

 

É mais apaziguador pensarmos em Adolf Hitler como um demente, virtualmente iletrado: duas doses de extremo fanatismo misturadas com uma dose de loucura produziram o mais repugnante ditador de todos os tempos. Mas alguns estudos históricos rigorosos e muito bem documentados têm desfeito aquela imagem demasiado esquemática do líder nazi -- o que acaba por ser ainda mais arrepiante.

Hitler era um leitor compulsivo, possuía uma enorme biblioteca privada, com cerca de seis mil obras espalhadas por três residências (Berlim, Munique e Obersalzberg), segundo revelava já em 1935 uma reportagem assinada por Janet Flanner na New Yorker. Anos depois, o correspondente da United Press International na capital alemã, Frederick Oechsner, avaliava em 16.300 o número de volumes da colecção particular do Führer.

São inúmeros os testemunhos sobre os hábitos de leitura do líder nacional-socialista -- desde os tempos em que combatia como cabo nas trincheiras da I Guerra Mundial até aos dias finais de Abril de 1945, no bunker da chancelaria de Berlim, com a cidade já invadida pelos blindados soviéticos. Costumava ler com um lápis na mão e fazia frequentes anotações nas margens. Quase como se dialogasse com o autor.

Nenhum investigador foi tão longe nesta matéria como Timothy W. Ryback, colaborador habitual da Atlantic Monthly, da New Yorker, do Wall Street Journal e do New York Times, que analisou minuciosamente os 1224 livros remanescentes do ditador -- «que constituem, no máximo, 10% da sua colecção particular» -- hoje depositados na secção de livros raros da Biblioteca do Congresso, em Washington, e na Universidade de Brown, Providence (estado de Rhode Island). Perdidos talvez para sempre, no saque que se seguiu à tomada do bunker hitleriano em 2 de Maio de 1945, estão os cerca de 80 volumes que acompanharam o tirano até ao fim. Um deles -- presume-se -- seria a versão alemã, condensada, da vasta biografia de Frederico o Grande escrita pelo historiador britânico Thomas Carlyle que lhe fora oferecida semanas antes por Joseph Goebbels.

 

Adolf-Hitler.jpgHitler devorava biografias: Júlio César e Napoleão eram duas das personalidades que o fascinavam. E tinha também especial predilecção por obras relacionadas com arte, sobretudo arquitectura. Mas era igualmente um leitor voraz dos dramas de William Shakespeare, conhecia o Quixote  e não escondia o fascínio por pensadores germânicos como Kant, Fichte, Schopenhauer e Nietzsche.

O "triunfo da vontade" foi um dos conceitos nietzschianos que incorporava sistematicamente nos seus discursos.

 

Nada mais perturbante do que um genocida que gostava de livros -- embora tivesse também mandado queimar muitos na praça pública, incluindo obras de Freud, Brecht, Erich Maria Remarque, Thomas Mann e Stefan Zweig.

Na sua biblioteca caseira havia de tudo um pouco -- exoterismo, religião, astrologia, volumes inócuos de auto-ajuda, As Viagens de Gulliver, livros sobre campanhas militares, panfletos de promoção da cozinha vegetariana e a mais execrável propaganda nazi. Também lá figuravam, em destaque, títulos como Peer Gynt, de Ibsen, e Feuer und Blut, de Ernst Jünger, e muitos policiais, incluindo a obra completa de Edgar Wallace. Além, naturalmente, do eterno Príncipe, de Maquiavel, e Da Guerra, de Clausewitz.

«Era a biblioteca de um diletante», assinala Ryback no seu livro A Biblioteca Privada de Hitler (editora Civilização, 2011). Mas uma biblioteca praticamente apenas omissa em poesia.

 

«Tiro o que preciso dos livros», gostava de afirmar Hitler. Uma das secretárias que o acompanharam até ao fim, Traudl Junge, conservava em 2001 a memória dos dias crepusculares no bunker, com o autor de Mein Kampf «sentado na sua poltrona, munido dos seus óculos, a ler um livro» enquanto o regime totalitário se fragmentava em escombros.

O arrebatado leitor de Fichte e Nietzsche prometera que o III Reich duraria mil anos: bastaram 12 para este reino de terror chegar ao fim. Ignoramos se o Führer alguma vez chegou a ler Ricardo III. Mas entre as ruínas do seu regime poderia dizer como este rei imortalizado por Shakespeare: «Lançar-me-ei com negro desespero contra a minha alma e acabarei convertido em inimigo de mim mesmo.»

70 comentários

Comentar post

Pág. 1/3