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Delito de Opinião

O futuro já não é o que era

Pedro Correia, 20.05.21

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O futuro já não é o que era. Houve tempos em que vender ilusões sobre o dia de amanhã era receita garantida de sucesso e a futurologia quase chegou a atingir o patamar reservado às mais respeitáveis ciências. Houve tempos em que se acreditava que o futuro só podia ser melhor. E não é preciso recuar muito no calendário. Em 1970, Alvin Toffler – ex-editor da revista Fortune – alcançou fama planetária com um best seller intitulado O Choque do Futuro em que antevia dias radiosos, marcados por uma intensa mobilidade social e laboral, produção de bens em larga escala e muitas horas de lazer, centradas nas delícias da sociedade de consumo.

Esses dias parecem-nos hoje estranhamente remotos e estas profecias optimistas parecem-nos hoje totalmente deslocadas. A fé inabalável no progresso humano que caracterizou as décadas imediatas do pós-guerra justificaram milhares de textos recheados de optimismo que agora só nos parecem péssima literatura.

 

Em 1950, havia a crença generalizada de que por volta do ano 2000 os robots substituiriam o homem na maior parte das tarefas mecanizadas. Em 1960, o físico norte-americano Gerald Feinberg, da Universidade de Columbia, previu que na passagem do milénio nasceria o primeiro bebé num planeta artificial.

A crença cega em ilimitados recursos financeiros ao serviço da inovação tecnológica levou várias mentes brilhantes a acertar totalmente ao lado. Na década de 60, Wernher von Braun, um dos pioneiros do espaço, admitiu que por volta de 1984 se fundaria a primeira colónia na Lua, provavelmente por iniciativa da União Soviética, e o biólogo marinho Alister Hardy, professor em Oxford, antevia na mesma época que antes do final do século haveria tractores a lavrar o fundo dos oceanos.


“Ninguém conhece a história da próxima aurora”, ensina um milenar provérbio africano. Mas o optimismo histórico da civilização ocidental levou-nos a acreditar durante demasiado tempo que era possível antever os alicerces do futuro, com a certeza antecipada de que ele seria risonho.

World Future Society [Sociedade Mundial do Futuro] chegou a congregar 60 mil membros. Em 1973 teve como orador convidado o vice-presidente Gerald Ford. Treze anos depois, uma delegação era recebida na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan, que lhe emprestou dignidade institucional.
Era o tempo em que o futuro estava na moda. Figuras respeitáveis anteviam um novo século com veículos “inteligentes” de transporte sem necessidade de condução, a proliferação de hotéis nas profundezas submarinas e migrações em massa de terráqueos para satélites artificiais da Terra.

 

Esse tempo terminou.

A World Future Society está hoje reduzida a 25 mil membros. Quase ninguém quer saber o que nos reservará o futuro. Pelo simples motivo de que só pode ser mau. A crença mudou de campo.

2 comentários

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    Pedro Correia 20.05.2021

    Não digo que o futuro será bom ou mau. Digo que "a crença mudou de campo", por deriva pessimista. E que a futurologia deixou de ser equiparada a ciência, ao contrário do que vinha sucedendo.

    O optimismo militante pertence ao passado. Passou de moda. Descobriu-se enfim que não existem recursos financeiros ilimitados postos ao serviço da inovação tecnológica.
    Parecia óbvio, mas uma multidão de pseudo-sábios andou demasiado tempo a sustentar o contrário.
    Não havia ciência por detrás do que diziam: só fé inabalável no progresso. E demasiados palpites infundados - como hoje sabemos.
    Essa gente está hoje no desemprego. Sinal dos tempos...

    Sublinho também que as previsões sobre o futuro feitas nas últimas décadas - até com datas incorporadas - falharam. E quase sempre falharam por excesso de optimismo.
    Esse falhanço não surge por acaso. Deriva da ideologia do optimismo histórico que impregna o Ocidente e na crença irracional no progresso humano, com carácter irreversível.

    Qualquer análise lúcida dos acontecimentos históricos - nem precisamos de recuar cem anos - desmente essa fé cega no progresso inscrita na matriz humana.
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