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O futuro da Europa

por Luís Naves, em 09.01.16

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Enquanto aqui na parvónia se discute o número de horas de sono de Marcelo Rebelo de Sousa e se fazem profundas reformas estruturais tipo-reposição-dos-feriados, as discussões europeias são sobre o possível colapso da União Europeia, a eventual saída do Reino Unido da UE e o aparente fracasso das políticas de integração dos refugiados e imigrantes que estão a chegar à Europa em quantidades nunca antes vistas*. O artigo de Brendan Simms e Timothy Less cuja leitura proponho, publicado em Novembro na revista New Statesman, produz um pequeno arrepio na espinha e deve ser lido sem complexos e com atenção. Brendan Simms é autor de um livro que me impressionou e sobre o qual já escrevi. Julgo que entretanto foi publicado em português.

 

1

A União Europeia atravessa a sua pior crise de sempre, com dois problemas aparentemente insolúveis, a instabilidade da moeda única e um fluxo migratório sem precedentes. Vários Estados mostram sinais de fragmentação interna e a periferia é uma zona de desastre, na Ucrânia por exemplo, onde se instalou uma rebelião ou guerra civil. Nos próximos meses, a UE vai negociar um entendimento com o Reino Unido, que pode incluir alterações nos tratados, mas se houver acordo e o Brexit for evitado, as questões não vão desaparecer e outros países tentarão negociar excepções. Talvez essas reformas possam adiar a eventual fragmentação da UE, mas os precedentes austro-húngaro ou jugoslavo continuarão a surgir nas discussões, sobretudo se os populistas chegarem ao poder em algum dos países de maior dimensão. Imagine-se a vitória de Marine Le Pen nas presidenciais francesas do próximo ano: o fim da UE seria quase inevitável.

Portugal, como é evidente, não tem plano B para situações de catástrofe. Após graves incidentes em Colónia, a opinião pública alemã mudou de um dia para o outro sobre a questão dos refugiados, mas em Portugal estas notícias são chutadas para canto. O fracasso das elites europeias estimulou o avanço de forças populistas um pouco por toda a parte, a crise financeira mundial pode ter uma terceira vaga que destruirá os melhores planos de recuperação económica, mas em Portugal a discussão é sobre a magia do estímulo económico que trará o fim da sobretaxa.

As elites das instituições comunitárias foram porventura demasiado longe na apropriação de poderes nacionais, contra o desejo dos eleitorados, que desconfiam destas burocracias não eleitas. Os dirigentes subestimaram a insegurança económica e até física que muitos europeus sentem; os incidentes de Colónia não deixam de ilustrar isso mesmo. De repente, a sociedade alemã absorveu centenas de milhares de pessoas provenientes de uma cultura muito sexista, que despreza os valores dos anfitriões. Isto não podia ser mais simbólico: segundo o mito a Europa foi raptada e violada. No fundo, é como se alguém dissesse: ‘obrigado pela ajuda, mas as vossas mulheres são umas prostitutas’. Como é que se faz a integração de pessoas que pensam desta maneira?

 

 

2

Por aqui, tudo vai bem, temos uma visão mítica do assunto, embora as lições dos últimos anos estejam já devidamente esquecidas. Quando estão em dificuldades, os países mais fortes tendem a impor a sua vontade aos mais pequenos, e foi a isso que a Alemanha fez nas quotas de refugiados e durante a crise das dívidas soberanas, impondo políticas que podiam ter sido mais suaves e graduais. Portugal, um país que cumpriu o que lhe foi imposto e assim obteve crédito nos mercados, prepara-se agora para seguir o caminho inverso. Caso falhem as promessas mais ilusórias do novo poder socialista, a Alemanha terá três opções para lidar com os portugueses: ou deixa deslizar o défice orçamental e o euro perde credibilidade ou obriga o governo português a cumprir e criará uma crise política que levará a novas eleições. A terceira hipótese é a definição de reformas profundas na zona euro, criando um sistema a várias velocidades com moedas nacionais e câmbios fixos, algo para o qual falta vontade política ou tempo.

Se a Europa continuar com esta incapacidade, talvez Portugal tenha outra vez o escudo e os nacionalistas dominem o leste; os partidos de extrema-direita farão uma festa com cada incidente envolvendo refugiados; os eurocépticos reclamarão a devolução de poderes; os secessionistas serão mais poderosos na Escócia, na Flandres ou na Catalunha; os Balcãs e a Ucrânia podem mergulhar no caos. O terrorismo acabará com Schengen, estamos em crise há sete anos, cresce a paralisia institucional, já não existem territórios homogéneos, a identidade dissolve-se numa amálgama, as elites andam surdas.

 

* uso a expressão refugiados e imigrantes porque é disso que se trata: metade da multidão é de refugidos, a outra metade de imigrantes económicos. Tem havido sugestões de que estas designações foram sempre usadas politicamente e não são inocentes. Geralmente, trata-se de contestar o uso da palavra ‘migrantes’, mas não vejo onde está a ilegitimidade, já que muitos ‘refugiados’ não terão direito a asilo, pois são provenientes de países sem conflitos generalizados, como Irão, Egipto, Sudão, Nigéria, Kosovo, entre outros.

 

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11 comentários

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De cristof a 09.01.2016 às 15:36

As excepções que os anglosaxonicos querem, para alem das que já têm, concordo que seja o maior sobressalto para a UE. Isto porque a maioria dos países são muito fracos, isolados, e se a Alemanha tremer voltamos as velhas politica dominadoras do eixo Londres-Washington.
Quem acompanha a vida social e media dos EUA interna , já viu e vê diariamente, cronicas mais tremendistas desde sempre e que se saiba amanhã não é véspera desse dia; nem lá nem cá claro.O anuncio do fim foi/é exagerado
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De JS a 09.01.2016 às 15:54

Antes de esta Europa os erros ou os exitos de um dirigente alemão repercutiam-se essencialmente na Alemanha.
PS- Para bom entendedor ...
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De lucklucky a 09.01.2016 às 16:11

"...a instabilidade da moeda única ..."

O autor critica o populismo ao mesmo tempo que chora a falta de instrumentos do populismo como a impressão de moeda.
Com esforço talvez perceba que o populismo é que faz os Governos terem défice e que a sua acumulação constrói a dívida.
E neste mundo ignorante estão todos contra a dívida mas a favor do défice.
---

"o fundo, é como se alguém dissesse: ‘obrigado pela ajuda, mas as vossas mulheres são umas prostitutas’. Como é que se faz a integração de pessoas que pensam desta maneira?"

Bem dito.
Não se faz porque é impossível.
Mas o internacionalismo marxista em que a clique politica-mediática vive não pode deixar de efabular que no Mundo somos todos iguais, de canibais da Nova Guiné a Esquimós do Alaska, todos iguais excepto... a "extrema direita".

E não pode deixar de ser assim porque para tomar o poder no Ocidente precisa que o Ocidente unilateralmente se desarme: psicologicamente, culturalmente, militarmente. E que melhor justificação para se desarmar se se apresentar que não há inimigos porque somos todos iguais.

O objectivo foi, é incentivar o baixar da guarda a todos os níveis.
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De singularis alentejanus a 09.01.2016 às 17:23

"O fracasso das elites europeias estimulou o avanço de forças populistas" e porque não o fracasso de forças populistas estimulou o avanço de forças radicais?
No meu entender, populista é o que promete e não cumpre, servindo-se dessas promessas para chegar ao poder. Não é o caso da grande maioria dos políticos europeus?
É que para mim não há elites europeias no poder, essas estão resguardadas, não se querem misturar com a merda inqualificável dos políticos que grassam por esta Europa.
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De Luís Lavoura a 09.01.2016 às 17:27

Que quadro é o que ilustra este post?
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De Anónimo a 09.01.2016 às 22:12

Europa (raptada por Zeus)
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De Luís Lavoura a 09.01.2016 às 17:30

O artigo lincado é a usual conversa eurocética e nacionalista dos ingleses. É um artigo escrito por ingleses e parte sempre do mesmo ponto de vista: o poder legítimo está nas nações e a Inglaterra não tem nada que ser governada por outros europeus. O que o artigo faz é estender essa conversa a todo o resto da Europa, como se todos os restantes povos europeus tivessem as mesmas obsessões nacionalistas que os ingleses têm.
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De JgMenos a 09.01.2016 às 19:44

A extrema-direita alimenta-se da cretinice militante da esquerda.
Há algo mais extremo na Europa que o islamismo?
Os guetos de amanhã constroem-se com as transigências de hoje.
À ficção do reino do Sião de ontem corresponde a realidade do Estado islâmico de hoje.
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De lucklucky a 10.01.2016 às 15:00

Pela bitola actual todos os Governos Europeus dos anos 80 eram de Extrema Direita. Para não falar que dos Governos hoje em África, na América Latina.

É este o nível 1984 em que estamos de desonestidade politico-jornalista.
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De Vento a 09.01.2016 às 20:22

Devo confessar-lhe que fiquei sem saber o que defende ou o que preconiza para esta Europa.

Vamos por pontos. A questão inglesa sobre os imigrantes ou migrantes que recebe não deixa de fazer sentido no contexto das finanças públicas do UK (refiro-me ao pagamento de subsídios por parte do estado inglês). Mas tudo isto ocorre precisamente porque a UE de Merkel/Sarkozy não possuíam uma visão de conjunto para esta Europa. As imposições e critérios acéfalos na forma como pretenderam lidar com esta crise visava exclusivamente salvaguardar os seus interesses e os interesses de suas instituições financeiras de um colapso para o qual as mesmas anteriormente tinham contribuído.

É notório que os cidadãos europeus abandonados, na falta de outras oportunidades em seus próprios países, seguiriam o caminho dos países que lhes pudessem oferecer o pão que lhes era retirado. O próprio UK foi daqueles que, até se ver confrontado com os subsídios que também paga por cada cidadão que chega - esteja ou não empregado -, alinhou com o status quo. E agora, com a necessidade adicional de investir na guerra que leva a efeito há bastantes anos no médio oriente, vê-se na obrigação de pressionar a UE a alterar as regras que anteriormente aceitou.

Por outro lado, a ingenuidade europeia e dos líderes europeus não foi capaz de entender que jamais se estabiliza o que é instável. E essa instabilidade tem que ver também com toda a região dos balcãs (onde existe uma insanável diversidade étnica, religiosa e cultural) e as desconfianças existentes entre alguns dos países a leste, onde se inclui a Ucrânia, a Hungria, a Polónia e outros mais.

Por outro lado, apelidar de populismos o clamor e o lamento das populações, usando o falso rigor orçamental e os anacronismos de carácter histórico, isto é, usar os conceitos e ideias de uma época passada para lidar com um acontecimento particular de um tempo preciso, o que vivemos, é vestir o fato de avestruz e colocar a cabeça na areia.

Quer a Alemanha, quer a França, quer a Holanda e outros mais jamais sobreviverão sem os países de sua periferia. E o grave erro por esses cometidos foi tratar como periférico o que lhes é central.
Estou à vontade com o que aqui reproduzo, pois isto vai ao encontro de tudo quanto por antecipação afirmei. Alguém poderá dizer que eu sou um iluminado. Somente responderei que o problema não reside em minha iluminação mas no facto de esses outros serem como lâmpadas fundidas.

Mais ainda, afirmei que a Alemanha não tinha condições internas e externas para levar a efeito a pseudo-integração de refugiados, e esta situação só seria resolvida com forte empenho da comunidade internacional. Também afirmei que as ocorrências no médio-oriente levadas ao limite conduziriam a uma inevitável intervenção russa e chinesa no conflito, o que ocorreu.

Portanto, a questão primordial que agora importa discutir é termos consciência que as grandes potências preparam-se para avançar com uma economia de guerra, e todos os pretextos lhes parecem válidos para atingir seus objectivos.

A Arábia Saudita e a Turquia, incomparavelmente mais instáveis que a coesão vivida pelos persas, isto é, no Irão, deixaram de ser referência estabilizadora para seus aliados. E a consciência de que assim acontece pode levar a um passo mal dado com o único objectivo de tentar evitar a implosão destes regimes. Mais claro, é preferível apelar a um nacionalismo sem sentido e a uma guerra contra o Irão, que originará uma guerra mundial, para disfarçar as fraquezas internas.
Concluindo, estamos ainda no fio da navalha. Alguém pensará que poderá nela barbear-se, mas ficaremos todos sem pescoço.
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De Anónimo a 11.01.2016 às 09:31

Cá pelo burgo, o que importa mesmo é a quantidade de pontes que vamos ter este ano e sobretudo se o benfas vai ser campeão. Ate Junho saberemos as respostas. No entretanto, os amores e desamores do CR7 e as viagens de outros pseudo-famosos, vão ocupar o resto do tempo do pessoal, nos intervalos das novelas. A Europa?, deixem la isso para os estrangeiros, mandem "mazé" o dinheiro para irmos comprar BMW e Mercedes.

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