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O futebol e a fuga de cérebros

por João André, em 02.02.16

Ontem andava a tentar fazer o apanhado das notícias do dia e surgiram duas notícias em simultâneo e que de certa forma se fundiram (coisas de ouvir noticiários televisivos quando se lêem jornais online): a notícia sobre as transferências de futebol e sobre as fugas e movimentos de cérebros. Inicialmente não compreendi por que razão juntei os dois temas, mas após reflexão tive uma ideia meio louca. Passo a explicá-la.

 

No futebol, quando um jogador termina o contrato, pode transferir-se para outro clube sem que o clube que deixa tenha que ser compensado. Isto está de acordo com as regras de um mercado laboral livre e é perfeitamente correcto. Há algumas regras em certos países (por exemplo na Inglaterra) onde o clube que adquire o jogador tem que pagar uma compensação ao clube que o forma. Uma regra semelhante existe no caso de transferências durante contratos, em que 5% do valor da transferência é pago aos clubes envolvidos na formação do jogador até este ter 23 anos de idade. É a chamada "contribuição de solidariedade".

 

E foi aqui que comecei a pensar se um sistema destes não seria interessante para o mercado laboral em geral. Aviso desde já que não sei que consequências teria nem como poderia ser implementado. A ideia seria simples: quando um profissional fosse trabalhar para outro país que não o da sua formação profissional (não necessariamente o da sua nacionalidade), o país de acolhimento poderia pagar uma compensação ao país de formação. Esta deveria estar dependente do número de anos de escolaridade e do nível da mesma. Um doutorado em física levaria a uma compensação diferente da de um electricista. Essa compensação deveria ter lugar uma única vez - aquando da entrada do profissional no país de acolhimento - mas poderia ser repetida se este profissional voltasse a mudar de país. O pagamento deveria ser feito pelo empregador (o próprio no caso de empregados por conta própria) mas até um montante máximo. Os valores deveriam ser tais que pudessem levar a uma compensação real para o país formador mas não tão elevados que dificultassem a empregabilidade dos profissionais.

 

Sei que esta ideia apresenta desde logo a dificuldade de se configurar como mais uma taxa para empresas e ser desde logo um obstáculo à empregabilidade. É essa a minha maior dificuldade com ela. Parto apenas do princípio que uma empresa que recrute um profissional fora do seu país o faz por ter necessidade, por não lhe ser possível encontrar profissionais adequados dentro do mercado interno. É o que vemos, por exemplo, no mercado da saúde inglês ou mercado tecnológico alemão, onde as empresas têm que ir recrutar ao estrangeiro.

 

A medida seria uma forma de entregar alguma compensação aos países que formaram as pessoas e incentivar a educação. Desta forma os custos na educação não seriam vistos como completamente a fundo perdido e permitiria aos países reinvestirem esses fundos no seu país.

 

Os principais riscos para os países recrutadores seriam os obstáculos ao mercado de trabalho. Para o país de formação o maior risco seria ser transformado num exportador de mão de obra em prejuízo do desenvolvimento do próprio país. Em termos morais, ainda que pudesse potencialmente ajudar a corrigir assimetrias, seria o risco de transformar os profissionais num produto que possa ser comercializado.

 

Como escrevi acima, a ideia é meio louca e consigo imaginá-la atacada à esquerda, direita e centro. Nem faço ideia se alguém alguma vez a propôs no passado. Confesso no entanto que estaria muito interessado em ler alguma análise teórica à implementação da mesma. Haverá algum economista interessado? Basta um agradecimento no artigo final e um convite para a cerimónia em Estocolmo.

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25 comentários

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De sampy a 02.02.2016 às 12:20

A Força Aérea aplaude a sugestão.
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De João André a 02.02.2016 às 12:54

Não sei porquê, mas não sei nada sobre a Força Aérea além do óbvio: responsável pelo braço "aéreo" das forças armadas.
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De sampy a 02.02.2016 às 13:35

Onde é que acha que se fizeram os melhores pilotos da TAP? Anda o Estado a formá-los a peso de ouro, para as companhias aéreas comerciais contratá-los a custo zero...
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De João André a 02.02.2016 às 15:00

Não me tinha lembrado disso. Por outro lado poderíamos dizer que é semelhante a formar um médico (por exemplo) que depois vai exercer exclusivamente no privado. Desde que seja no mesmo país a minha proposta acima não se aplicaria (nem eu o quereria).
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De sampy a 02.02.2016 às 15:17

Ai, a proposta é nacionalista?
Volta, CDS, estás perdoado.
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De Sol Garlic a 02.02.2016 às 12:47

Ideia muito interessante, mas tendo em conta que é um custo do estado de origem, e uma poupança do estado de destino, talvez fosse preferível que o pagamento fosse entre estados.
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De João André a 02.02.2016 às 12:56

Talvez fosse uma ideia melhor, de facto (assumindo muito liberalmente que a minha ideia tem algum mérito). Os profissionais levam a ganhos para as empresas (pelo menos é esse o princípio), os quais se reflectem em mais impostos pagos ao estado. Seria provavelmente mais justo, de facto.
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De lucklucky a 02.02.2016 às 12:50

Pagamos aos Pais também?

Ou dinheiro é só para o Estado, o Socialismo?

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De João André a 02.02.2016 às 12:57

Aos pais não, obviamente. Só a mim, a comissão de agenciamento.
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De João André a 02.02.2016 às 12:59

Já agora: você, com a sua boca cheia de liberalismo, é completamente intolerante de qualquer ideia oposta e ataca-a de imediato sem lhe considerar potenciais méritos ou dar razões. Se fosse possível impedia-me de as apresentar, suponho.

Se eu aceitar a ideia de Sol Garlic (acima) de pagamento apenas entre os estados (que me parece bem melhor que a minha) diga-me lá o que é que tem contra o conceito, já que as empresas e os indivíduos ficariam livres dessas obrigações.
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De lucklucky a 02.02.2016 às 15:51

Esta além de ser mais uma das suas ideias para dar mais poder ao Estado e instituir mais cargos burocratas na verdade você quer um Símbolo, um Ritual de agradecimento ao Estado.
Uma ideia tão Fascista como Comunista.

Mais uns passos e aproxima-se das ideias de utilidade social de George Bernard Shaw.

Vai por exemplo considerar os impostos que os pais pagaram quando a criança estudava? Claro que não.

Se uma pessoa fez muito mais ao País do que aquilo que recebeu do Estado também pode começar a cobrar?
Vamos acabar com os Impostos Progressistas e vamos começar os Regressivos?
Ou a contabilidade só serve para um lado?

A ideia para não variar é também uma recompensa a Políticos e Partidos de um país Socialista mal gerido.

É ainda mais uma razão para fugir do Ensino do Estado. Algo que aliás nunca deveria existir. Afinal se sais da fronteira pagas. Em impostos, na pior qualidade e também no custo.

PS: É você que quer proibir, sempre mais leis, mais regras = mais Estado.
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De João André a 02.02.2016 às 16:07

É inacreditável como você é capaz de comentários incrivelmente idiotas e ignorantes e, ao mesmo tempo e umas linhas abaixo, conseguir apresentar argumentos e reflexões perfeitamente válidas. Se começasse por essas em vez de vomitar as alarvidades com que inicia e termina todos os seus comentários aos meus posts (que não sejam de futebol) teríamos bases para boas discussões.
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De João André a 02.02.2016 às 16:16

Vou ignorar a estupidez do "blá blá blá fascismo blá blá blá proibir blá blá blá quer dar mais poder ao Estado blá blá blá socialismo blá blá blá comunismo blá blá blá". Cinjo-me aos seus argumentos.

«Se uma pessoa fez muito mais ao País do que aquilo que recebeu do Estado também pode começar a cobrar?»
Tem razão. É um bom argumento. Só lhe contraponho que quem fez uma formação também beneficia individualmente dela. Eu tento apenas colocar aqui em perspectiva o lado social (relativamente à Sociedade, calma Bobby, calma Tareco) que a mudança teria. No contrato social, o Estado investe numa pessoa para que essa pessoa possa beneficiar a Sociedade em geral. Se essa pessoa for beneficiar outra sociedade, apenas levanto a possibilidade de a segunda compensar parcialmente a primeira. Isto pressupõe que a pessoa também beneficia financeiramente com a mudança.

Em relação aos pais, os seus impostos valem tanto como os dos outros no que diz respeito à educação. Os restantes investimentos (livros, transportes, etc) são outra questão.

Quanto ao resto, eu não afirmo directamente que o profissional tem que pagar. Levanto a questão de a empresa o fazer e na reflexão acima, levantou-se a hipótese de ser o Estado a fazê-lo. Ou não leu isso quando lhe desceu o véu?
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De lucklucky a 03.02.2016 às 12:47

O meu primeiro post considera o que os Pais contribuíram. Coisa que você escolhe ignorar porque tudo anda à volta do Estado.
Mas são os pais que na maior parte das vezes asseguram o comportamento da criança quando adulto.

Também escolhe ignorar o crescimento da burocracia, aumento de custos e entropia que mais uma regra, mais uma lei que você quer criar provoca.
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De Marco a 02.02.2016 às 13:49

Só há mais um pormenor que eu acrescentaria ao mix desta ideia (variante Sol Garlic): é preciso levar em linha de conta que custo têm os estados com a formação.

Por exemplo, a formação alemã é mais cara que a nossa: não existem propinas - acho - e o custo operacional das universidades é mais alto. Possivelmente, existem estados onde as propinas são maiores ou até totais. E, claro, temos os profissionais que se formaram em universidades privadas e pagaram toda a sua formação (estes seriam uma espécie de "Lei Bosman" da coisa).
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De João André a 02.02.2016 às 15:04

Ainda podemos tornar o exercício mais complexo. Normalmente levamos em conta a direcção de país mais pobre para país mais rico, mas poderíamos considerar os casos opostos: por exemplo, um alemão a mudar-se para Portugal. Os custos de formação seriam mais elevados e os benefícios quantitativamente (para o Estado, dados os menores salários e lucros) mais reduzidos.

No caso das privadas isso poderia de facto ser levado em conta, se bem que o estado tende a financiar mesmo que indirectamente os privados. Ainda assim a taal "contribuição de solidariedade" poderia ser dependente de quanto o estado teria contribuído directamente.

Note que não precisamos de nos cingir a pessoas com formação superior (embora se aplique especialmente a estas). Um canalizador poderia perfeitamente estar contemplado (desde que a formação fosse formal e não simplesmente por experiência).
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De Luís Lavoura a 02.02.2016 às 15:32

O problema é que, enquanto que toda a gente sabe em que clube é que um qualquer jogador de futebol está a jogar, isso não acontece com a maior parte dos restantes profissionais. Por exemplo, se um fisioterapeuta ou um enfermeiro formado em Portugal vai para o estrangeiro, ninguém sabe que ele foi, nem para que país foi, nem se encontrou trabalho nesse país ou não encontrou. Há registos razoavelmente completos de todos os jogadores de futebol ativos em todos os principais campeonatos, mas não há registos análogos para a generalidade das restantes profissões. Não há forma de saber se um determinado especialista que se formou em Portugal ainda está ativo na profissão em que se formou, nem em que país e empresa é que está ativo.
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De João André a 02.02.2016 às 16:18

Caro Luís, estou a assumir que a pessoa em questão tem um contrato de trabalho registado oficialmente na administração do país em questão. Eu trabalho na Alemanha e o Estado alemão sabe que eu sou português, qual a minha função e os meus rendimentos.

Claro que tais discussões poderiam (melhor, iriam) entrar em problemas de privacidade pessoal: ao cruzar informações os Estados passariam dados que a pessoa poderia não querer ver partilhados.
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De Luís Lavoura a 02.02.2016 às 16:35

estou a assumir que a pessoa em questão tem um contrato de trabalho registado oficialmente

Certo. Só que, cada vez mais pessoas não têm tal coisa... Trabalham informalmente, a recibos verdes e/ou em part-time.

O sistema que o João André propõe requeriria - é isso que quero salientar - um mecanismo de tracking que permitisse identificar onde cada pessoa se encontra a trabalhar em cada momento. Com partilha de dados entre (quase) todos os países. Sendo que os países de imigração teriam todos os incentivos para não colaborar em tal sistema...
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De João André a 04.02.2016 às 08:15

É verdade Luís, aludi a essa falha na minha lógica na minha resposta anterior.

Como escrevi no post, é uma ideia meio louca e tem excessivos aspectos impraticáveis. Valeu o esforço...
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De Peregrino a Meca a 03.02.2016 às 06:41

Se é para complicar ainda mais, porque não ter em conta as remessas de dinheiro ou os investimentos nos países de origem por parte dos emigrados?
Ou o que ganham os estados com taxas de desemprego altas em não pagar subsídios para quem foi para outro Estado trabalhar?
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De João André a 04.02.2016 às 08:17

Porque eu tento ignorar esse aspecto dado que se reflecte no lado pessoal. Queria simplesmente pensar nos benefícios entre estados, não naqueles que os indivíduos obtêm directamente. Claro que num potencial estudo académico se poderia levar esse aspecto em conta. Não vejo porque não.
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De Peregrino a Meca a 03.02.2016 às 06:41

No entanto, suponho que ninguêm se tenha lembrado da livre circulação de trabalhadores e do principio de não discriminação...
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De João André a 04.02.2016 às 08:33

Note que (pelo menos aqui no blogue) fui eu quem teve esta ideia, pelo que quaisquer idiotices que ela contenha são exclusivamente da minha autoria. Os restantes comentadores acrescentaram pontos interessantes ou apontaram (como V.) problemas na mesma.

A livre circulação não me parece ser um problema. O Estado A forma o profissional, o Estado B tem falta desse tipo de profissionais. Uma empresa no Estado B contrata o profissional (precisamente por causa da livre circulação) e, devido aos benefícios que o Estado B obtém dessa contratação, o Estado B paga um valor (que considero dever ser mínimo) aos Estado A como "compensação"/"agradecimento"/"outra coisa qualquer". Não creio que isto impedisse a liberdade de circulação, mas nunca se sabe. Se calhar seria de facto um problema.

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