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Capítulo 2

Contestação

 

Nessa noite, o Pai Natal percorreu devagar os menos de cem metros que separavam a fábrica de brinquedos da sua casa. Estava muito preocupado. Sentia necessidade de conversar com alguém e ponderou contornar a casa e ir ter com Rodolfo ao cercado das renas. Mas acabou por entrar, deparando com a Mãe Natal a costurar mais um gorro vermelho com uma borla branca. Todos os anos obrigava o marido a levar pelo menos duas dúzias de gorros no trenó. Dizia-lhe: «Não faz mal levares a mais, faz mal é levares a menos. Já sabes que o vento te arranca sempre alguns da cabeça e que perdes mais uns quantos a descer pelas chaminés. E também sabes que, sem a cabeça protegida, te constipas imediatamente. Não queres passar outra Passagem de Ano na cama, pois não?» Ela tinha razão, mas o Pai Natal detestava vê-la fazer os gorros porque não conseguia deixar de se sentir uma criança pequena e irresponsável, que era preciso proteger.

Sentou-se ao lado dela e contou-lhe o que sucedera. A Mão Natal ouviu-o enquanto cosia a borla à ponta do gorro, e depois disse: «Não há-de ser assim tão grave.» Espetou a agulha numa almofadinha pequena que colocou dentro da caixa de costura e pousou o gorro no braço da cadeira. «O jantar é outra vez foca.»

 

Depressa começou a ficar evidente que a situação era grave. Nos cinco meses que passara no Pólo Norte, o duende barbudo conseguira arregimentar meia dúzia de duendes para as suas ideias. Falava-lhes dos direitos do proletariado (por vezes dizia «os direitos dos mais pequenos contra os grandes», o que, considerando o tamanho dos duendes, era uma forma duplamente traiçoeira de espicaçar os ânimos), da redistribuição da riqueza, do colocar o poder ao serviço do povo. O Pai Natal julgava ter sempre tratado os duendes com respeito. Desde logo, não haveria certamente muitas empresas no mundo que dessem emprego a tantas pessoas que, mesmo não o sendo, apresentavam características parecidas com as pessoas com deficiências de crescimento. Mas o duende barbudo – um tudo-nada baixo, mesmo para os padrões dos duendes, facto que, matutava por vezes o Pai Natal, talvez não se encontrasse totalmente desligado do fervor com que defendia as suas ideias políticas – dizia-lhes que reparassem como eram explorados; como, nas semanas anteriores ao Natal, as horas extraordinárias eram numerosas e mal pagas; como as refeições eram pouco variadas e nem sequer incluíam Coca-Cola, apesar do contrato chorudo que o Pai Natal tinha com a empresa; como não dispunham de seguro de saúde nem de plano de poupança para a reforma; como certas máquinas e utensílios – martelos, serrotes, baldes, pincéis – eram comprados sem levar em atenção o tamanho dos duendes. Enfim, enchia-lhes a cabeça com ideias que, para muitos ali no Pólo Norte, constituíam inteira novidade. E resultava. À noite, em casa, os casais de duendes discutiam-nas, olhando para os filhos pequenos – mesmo muito, muito pequenos -, deitados nos berços ou brincando no chão. Perguntavam-se o que aconteceria se o Natal passasse de moda ou o Pai Natal decidisse reformar-se. No dia seguinte, vinham ter com ele e exigiam escolas e universidades para os filhos e planos de poupança reforma para eles próprios.

Mas se os meses anteriores à conversa entre o Pai Natal e o duende barbudo  haviam sido difíceis, tudo se complicou muito mais logo a seguir.

Três ou quatro dias após a conversa, o Pai Natal soube que o duende barbudo convocara uma reunião da comissão de trabalhadores e conseguira convencer a maioria dos duendes que faziam parte dela a exigir alterações na política da empresa. O Pai Natal não ficou surpreendido; o duende barbudo soubera rodear-se de gente que não lhe faria frente e na comissão de trabalhadores estavam apenas duendes facilmente influenciáveis e não muito espertos. A comissão exigiu uma reunião com o Pai Natal, mas esta até correu bem ao Pai Natal, que teve apenas de prometer estudar formas de aumentar ligeiramente («dentro dos prazos e do orçamento disponíveis») o número de brinquedos mais caros e distribuir esse acréscimo pelas crianças mais pobres. O duende barbudo não gostou nada do resultado da reunião e, nos dias seguintes, tratou de convencer toda a gente de que as promessas vagas do Pai Natal eram insuficientes. Uma semana depois, o Pai Natal recebeu um pré-aviso de greve. Ainda não se entrara no período de trabalho mais crítico do ano e o Pai Natal, depois de procurar nos livros o que era suposto dizer naquelas ocasiões (era inexperiente no assunto, uma vez que se tratava da primeira greve na história da fábrica de brinquedos do Pólo Norte), suportou a paragem com declarações de respeito pelos direitos dos trabalhadores. O problema é que a esta primeira greve seguiu-se outra, que até incluiu uma manifestação em frente à fábrica, com gritos de ordem e arremesso de pedaços de gelo e de bolas de neve (no Pólo Norte é difícil arranjar pedras). No dia seguinte, alguém fez explodir um pequeno armazém cheio de carros de bombeiros que haviam sobrado do ano anterior. O Pai Natal estava convencido de que o bombista fora o duende barbudo, mas não tinha provas. As opiniões extremaram-se e o Pai Natal tentou aproveitar as reticências de alguns duendes, que não aprovavam o uso da violência, mesmo que ela fosse apenas dirigida contra sobras de inventário. Não resultou. O duende barbudo foi-os convencendo de que o Pai Natal estava a ser hipócrita e quase todos acabaram do lado dele.

E depois veio o dia fatídico.

 

O capítulo 3 (de 4) será publicado amanhã às 10 horas e 32 minutos.

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