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Capítulo 1

Injustiça

 

Notícias e tendências demoravam a chegar ao Pólo Norte, mas o Pai Natal sabia que podia vir a ter problemas. Frequentemente dizia à Mãe Natal: «A revolução bolchevique está a mudar muitas coisas. Mais tarde ou mais cedo, essas novas ideias vão chegar cá.» A Mãe Natal olhava-o distraída e, em tom de quem estava mais interessada em decidir o que fazer para o jantar, perguntava: «Por que é que haviam de se meter contigo? Forneces alegria a crianças espalhadas por quase todo o mundo. Quem é que pode levar isso a mal?» Ao mesmo tempo, abria a caixa da costura ou punha uma cafeteira ao lume. O Pai Natal dominava uma ligeira irritação, pensava que mais valia falar com Rodolfo do que com a mulher (o que por vezes fazia), e remetia-se a um silêncio preocupado. Quando tudo aconteceu, só ficou admirado por ter demorado tanto tempo.

Como seria de esperar, foi o duende barbudo admitido cinco meses antes e que rapidamente exigira a formação de uma comissão de trabalhadores quem primeiro se apercebeu do facto ao examinar os planos de produção. Bateu à porta do gabinete do Pai Natal e perguntou-lhe sem rodeios: «Por que é que as crianças ricas recebem brinquedos mais caros? Não deviam ser todos do mesmo preço? Ou até ao contrário: os brinquedos melhores para as crianças pobres, que as ricas já têm suficientes?»

Os olhos do Pai Natal, sentado atrás da grande secretária onde, por esta altura do ano, se empilhavam sempre enormes pilhas de papel com nomes, moradas, relatórios de comportamento e listas de brinquedos disponíveis, conseguiam ainda assim estar a um nível ligeiramente mais elevado do que os do duende barbudo, que permanecia em pé entre a secretária e a porta. Devido aos montes de papel, o Pai Natal quase nem lhe via a barba, parecida com a dele próprio mas totalmente preta. No entanto, via-lhe os olhos, e estes mostravam uma firmeza tão grande que o Pai Natal se sentiu de repente muito pequenino – mais pequeno do que o duende barbudo. Consciente de que chegara o momento, usou a resposta preparada durante anos: «Tentamos dar às crianças os brinquedos que elas pedem. É esse o nosso compromisso e é isso que faz a felicidade delas. É verdade que as crianças ricas pedem coisas mais caras, mas deveríamos desiludi-las? São apenas crianças.»

O Pai Natal testara aquele argumento na Mãe Natal várias vezes e ela sempre parecera achá-lo bastante sólido. Mais importante: experimentara-o também em Rodolfo, cujo nariz se iluminara por um instante, sinal inequívoco de admiração ou de alegria (ou de constipação, mas o Pai Natal escolhera sempre momentos em que Rodolfo andava de boa saúde). O duende barbudo, todavia, não pareceu impressionado (o Pai Natal sabia que não o devia ter contratado; sentira-o imediatamente após tê-lo feito) e disse que aquele não era um bom argumento; que, evidentemente, as crianças mais pobres pediam coisas mais baratas porque era aquilo que conheciam e que imaginavam ao seu alcance; que, ao fazer a vontade às crianças mais ricas, estas habituavam-se a ter todos os seus desejos satisfeitos e a conseguirem sempre tudo sem esforço, o que as transformava em adultos sem respeito pelos outros; que, sendo o Natal uma época do ano em que se procura transmitir um imagem de respeito, igualdade e paz, e procurando o Pai Natal transformar-se no símbolo desses ideais – aqui o duende acrescentou qualquer coisa sobre «o que, pelo menos numa fase intermédia, talvez seja útil, porque sempre retira protagonismo à Igreja» –, devia procurar corrigir as injustiças em vez de as reforçar; finalmente, que os tempos haviam mudado e que já era altura de essas mudanças chegarem ao Pólo Norte.

Enquanto o duende barbudo falava (o que sucedeu durante bastante tempo, embora tudo o que ele disse se encontre no parágrafo anterior), o Pai Natal procurava descobrir um modo de lhe dizer que não iria alterar regras que vinham funcionando tão bem há já dezenas de anos só para satisfazer os desejos revolucionários de um duende que – o Pai Natal já o percebera – gostava mais de falar do que de trabalhar. Incapaz de arranjar um argumento que fosse simultaneamente firme e amigável, permaneceu calado, olhando o duende barbudo nos olhos. Este acabou por ser forçado a perguntar: «Então? Vai alterar as regras este ano?»

«Não posso. É demasiado tarde.»

«Não é demasiado tarde. Os brinquedos ainda estão por fabricar.»

«Mas as encomendas de material têm de seguir nos próximos dias. Não há tempo para as alterar.»

«Não é preciso alterá-las. Quando muito, apenas corrigir quantidades. E depois refazer as listas de entrega, fazendo corresponder os brinquedos mais caros às crianças mais pobres.»

«Como se isso fosse fácil… Os brinquedos mais caros demoram mais tempo a produzir, até ao Natal já não há tempo. E também são mais caros. Não temos orçamento para alterar assim as quantidades.»

O duende barbudo ficou um instante em silêncio. Depois apontou para um cartaz na parede.

«Isso são tudo desculpas. O que você não quer é chatear a Coca-Cola. A sua fama disparou quando eles o começaram a apoiar. Quanto é que lhe pagam por ano?»

O Pai Natal sabia que estava em terreno cada vez mais perigoso. Para gente como o duende barbudo, a Coca-Cola era um símbolo de tudo o que ia mal no mundo.

«Isso não vem ao caso. A Coca-Cola é o nosso principal financiador, sim, e tem o direito de usar a nossa imagem. Mas isso não quer dizer que mandem em nós.»

Não era inteiramente verdade. O contrato estabelecia regras; qualquer alteração nas mesmas tinha de ser discutida entre ambas as partes e a Coca-Cola dispunha de um número incrivelmente elevado de advogados, que arranjavam sempre imensos problemas.

O duende barbudo disse: «Não acredito em si. Mas também não interessa. Vou convocar uma reunião da comissão de trabalhadores. E pode ter a certeza de que se tomarão medidas para alterar esta injustiça.»

Depois virou costas e saiu do gabinete. Foi o princípio do fim.

 

O capítulo 2 (de 4) será publicado amanhã às 10 horas e 56 minutos.

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9 comentários

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De Rão Arques a 22.12.2017 às 11:37


Letra adaptada

Lalalalalala
Lalalalalala

Será um sapo
Um astro sapo
A toda a hora
Com a boca aberta.

Tu viste um sapo
Um astro sapo
Não é azedo
Ou é segredo.

Eu vi um astro
Com guardanapo
Estava a ensinar
O bem mastigar.

Tu viste um sapo
Com guardanapo
Enquanto dizia
Como se fazia.

Eu vi um sapo
A dar um papo
Tudo mordeu
Mas ofereceu.

Tu viste um sapo
A encher o papo
E o bicharoco
Até deu troco.

Eu vi um sapo
Um grande sapo
Foi despachado
Fiquei banzado.

Tu viste um sapo
Um grande sapo
Deixa-o lá estar
Vamos brincar.

Lalalalalala
Lalalalalala
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De Vento a 22.12.2017 às 13:55

Bom dia. Paizinho Natal, aproveito o post do meu amigo JAA para endereçar esta pequena missiva, pois os correios estão em greve.
Tenho-me portado muito benzinho. A comunidade anda muito satisfeita com a minha existência; e parece-me que pretendem fazer uma estátua à minha pessoa. Estou a redigir esta cover letter exactamente para te proporcionar todas as referências para que o bónus natalício me seja atribuído sem quaisquer dúvidas.
Quero também dizer-te que já coloquei a meia na chaminé. Como sou modesto, a meia que escolhi dá para calçar duas pernas de elefante adulto. Como podes ver, não sou exigente e ainda por cima penso nos animaizinhos. Isto também faz de mim um avançado civilizacional.

Pela dimensão da meia poderás pensar que pretendo grandes e muitas coisas. Não, pretendo antes um presente grande. Não, não é um Ferrari nem um Alpine. Deixo que o Alpine vá para o meu amigo JAA.

Vê lá tu, Paizinho Natal, que aqui há uns dias tinha eu apontado os meus lábios sensuais em direcção ao pescocinho de gazela da minha Laurinda, para espetar-lhe uma daquelas beijufas, e ela reagiu dizendo: afaste esses lábios, seu Drácula!
De imediato comecei a meditar e pensei que a moça pudesse estar a dar em feminista. Como não sou soldado de ver guerras na TV, entendi que devia enfrentar com veemência esta batalha.
Qué qu´eu fiz?
Comecei a pairar que nem um urubu sem asas e em simultâneo iniciei uma novena a Nossa Senhora Desatadora dos Nós!
Ao quarto dia da novena vi um sinalzinho laranja. Pensei, tá a melhorar! Ao quinto dia surge um clarão verde em torno dela.
Como sei interpretar os sinais celestiais, nem acabei a novena e comecei a fazer-me à pista. A aterragem correu muito bem!

Em resumo, Paizinho Natal, gostaria que me enviasses uma gabardina com emissões electromagnéticas anti-feminista, para que estas situações não se repitam.
Fico à tua espera à hora de costume.
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De José da Xã a 26.12.2017 às 13:20

'Tadinho do Pai Natal.
Há gente que se percebe logo que são parte de um problema e não parte da solução.
Estou desejoso dos próximos capítulos.
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De Anónimo a 26.12.2017 às 13:52

Tens toda a razão, e o Pai Natal também, para já não falar da Coca Cola.
Uma criancinha do Burkina Faso, ou do Burundi, têm é que receber uma carcaçazinha, e já gozam.
Para um filho de família rica europeia, uma consola Xbox 360, decorado com 11.520 cristais Swarovski, é uma porcaria, porque o que ele queria mesmo, era uma miniatura eléctrica de um Bentley Continental.
Os miseráveis "bolcheviques" que se atrevem a dar opinião, que vão para o inferno (mas só depois da época natalícia de paz, amor, compreensão, generosidade...etc.)
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De José da Xã a 26.12.2017 às 15:32

Curioso a tua resposta pois provavelmente tanto no Burkina Fasso como no Burundi nem sabem que existe o Pai Natal.
Quanto à Coca Cola estou ilibado pois nem gosto de tal bebida e portanto essa multinacional comigo americana não ganha um "tusto".
Quanto ao Bentley... também não é o meu carro de eleição... Preferiria uma Renault 4L.
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De Anónimo a 26.12.2017 às 17:50

Zézinho, não desconverses, porque entendes perfeitamente o que eu quis dizer.
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De José da Xã a 26.12.2017 às 19:51

Entendi muito bem...
Mas continuo a preferir a 4L.
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De s o s a 26.12.2017 às 19:11

ok, é só um capitulo, a historia nao esta completa.


Mas gostei agora e mais ..., da precisao horaria em que vai ser publicado o seguinte.
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De José António Abreu a 26.12.2017 às 19:47

Este capítulo é do dia 22. Entretanto já foram todos publicados:

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/tag/ficção

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