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o fim do mundo

por Patrícia Reis, em 21.02.14

Eu sei o que é estar à beira do abismo. Estou a olhar para ele, para o meu fim.

 

Esta frase é de Eduardo Lourenço, assim a disse, ontem, nas Correntes d'Escrita, edição 2014.

O meu coração encolhe-se.

O que quer dizer é que já não vê o futuro, que partilhou mais de 50 anos de vida com alguém que não está, que talvez possa deixar de pensar, de escrever, de querer saber. Não o diz assim. Nunca o dirá. Mas sente-o.

No Congresso Internacional Fernando Pessoa em Novembro de 2012, andando para cá e para lá, a ver a morte rondar, não parou um segundo.

Dei-lhe boleia. A minha mão nas mudanças, a dele na minha. Um gesto de conforto. De ternura. Os meus olhos ficaram nublados com a história que me contou. Não a repetirei, não é para isso que servem estes espaços. E, ao mesmo tempo, há no silêncio de algo que nos foi digo uma certa ideia de sagrado. Disse-lhe

 

Gosto de o ouvir pensar.

 

Parece-me holocáustica a forma como algumas das minhas pessoas estão tão perto do abismo. A justiça disso será o quê? A minha verdade é fruto da experiência, logo distinta da dos outros. O meu abismo é só meu. Gostaria de dar, a quem amo, planíces para caminhar, para gozar o sol, o silêncio. Um mundo plano, sem quedas. Depois repito o que sei ser verdade e, porventura, inevitável para todos

 

Eu sei o que é estar à beira do abismo. Estou a olhar para ele, para o meu fim.


17 comentários

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De Ssalgueiro a 21.02.2014 às 14:09

http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=99796
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De Helena Sacadura Cabral a 21.02.2014 às 14:13

Texto "arrasador" para quem está no fim da existência. Sei o que é. A minha também já vai longa.
Só que o "abismo" para os seres de excepção é muito mais terrível do que para os seres ditos "normais". Porque eles e nós esquecemos, muitas vezes, que ter idade é também já ter vivido muito e contraído para com a vida uma dívida enorme.
Morrer tranquila, sem medo do abismo, grata pelos muitos anos aqui passados - o meu Miguel nem isso teve - é a minha máxima ambição nesta fase que atravesso!
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De Cristina Torrão a 21.02.2014 às 18:47

Se tivermos a sorte de atingir uma certa idade, devemos estar gratos pelo tempo vivido, sim.
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De Patrícia Reis a 22.02.2014 às 11:29

É isso mesmo, Helena. Um beijo grande
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De Vento a 21.02.2014 às 20:16

Tenho uma dívida para com o mundo: mostrar-lhe que as planícies são o oposto dos meus erros herdados, adquiridos, permitidos, consentidos e também ignorantemente praticados. Que as planícies são montanhas de erros aplainados, e que o único abismo que poderei ver é não ter lutado por isso.

Ainda que não o consiga por mim mesmo, quero partir lutando. O único julgamento que sobre mim pesa é o facto de não ir à luta, contra mim. Sim, é sempre possível recomeçar.

A metáfora do reino dos céus não nos oferece o olam haba (o mundo que está para vir).
"Como é o reino dos céus?". A pergunta é uma alusão aos cidadãos do reino, e não há sua localização. E se é a "espada" que nos transforma neste tipo de cidadãos, então eu devo usá-la contra mim mesmo (aplicá-la contra as minhas deformações e disfunções quando entendida).
Neste reino a antiguidade não é um posto e a garantia de melhor salário, porque os últimos serão os primeiros. O Pagamento dos trabalhadores da vinha é o mesmo para aqueles que trabalharam 10 ou 2 horas. É somente necessário que nos encontremos a trabalhar.
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De Vento a 21.02.2014 às 21:26

Por favor, onde se lê "e não Há sua localização", leia-se À sua localização. Este erro é demasiado grosseiro para o deixar passar.
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De Manuel a 22.02.2014 às 10:56

Sabe o que é que eu acho? Que você, tal como outros, não precisa esconder-se para falar.
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De Patrícia Reis a 22.02.2014 às 11:31

Manuel, não percebi - para ser franca, não quero perceber - a questão do "esconder". Não me escondo, não faz parte da minha natureza e o seu post não faz qualquer sentido para mim, mas devo ser eu, é sábado, estou cansada, portanto as minhas desculpas, decerto que encontrará coisas mais estimulantes para ler. Bom fim-de-semana
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De Manuel a 22.02.2014 às 11:40

Falava para o Vento, gosto de o ler, tal como a si.
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De Vento a 22.02.2014 às 15:00

Obrigado, manel.

Eu não me escondo. Eu sou eu, mas eu também sou o manel, a Patrícia, a Helena, o Luís, o(a),o(a),o(a),o(a)...

Encontre-me em si.
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De Manuel a 22.02.2014 às 16:14

Palavras grandes, sem duvida. Mas não se iluda, palavras nunca foram nem nunca serão actos, pois falar é sempre mais fácil do que fazer.
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De Vento a 22.02.2014 às 17:34

Confirmo.
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De Manuel a 22.02.2014 às 11:46

E já agora, você não se esconde, pelo contrário é uma escritora, uma poetisa, escreve com o coração na mão, quem escreve assim tem todo o meu respeito e consideração.
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De IsabelPS a 21.02.2014 às 21:27

Montaigne, Les Essais:
« Je veux qu’on agisse, et qu’on allonge les offices de la vie tant qu’on peut, et que la mort me trouve plantant mes choux, mais nonchalant d’elle, et encore plus de mon jardin imparfait. » (I, 20)
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De Manuel a 22.02.2014 às 11:05

Deve ser aterrorizador encarar a morte e perceber que nunca se sobe viver. Triste é também viver com medo de viver, é como quem nasce só para morrer. Aproveitem enquanto é tempo, pois é tempo de viver.
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De Patrícia Reis a 22.02.2014 às 14:08

saber onde e com quem queremos desperdiçar as energias é muito importante:)
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De Carlos Cunha a 22.02.2014 às 13:11

será menos penoso, quando não passamos de uma pequena igreja...
será mais compicado, para uma grande catedral.
http://sinosdobram.wordpress.com/tag/e-e-cummings/

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