O fim das linhas vermelhas

O meu rol dos vencedores e derrotados das eleições presidenciais - sem ordem, ascendente, descendente ou alfabética:
1. Empresas de sondagens: na generalidade acertaram na evolução das tendências de voto. A estas terão algo influenciado, talvez por isso as relativas mudanças nos dias finais. Mas esse efeito não é defeito mas sim característica das sondagens. Lamentável o uso de termos em inglês para denominar os trabalhos realizados - os anglicismos técnicos mostram ignorância linguística de quem trabalha e procuram incentivar a ignorância real de quem consome os serviços (são, literalmente falando, um embuste). "Fica bem" falar em inglês? "Tá bem", eu também poderia chamar a este postal "The Thin Red Line" e passaria por culto, até poliglota... Ou seja, deveria ser inadmissível bombardear a população portuguesa que se apresta a eleger o seu Presidente da República com "tracking polls" e quejandos termos.
Vencedoras são também aquelas empresas de sondagens que trabalharam por cardápio - aquelas que davam inicialmente Ventura como destacadíssimo, a outra final que punha Marques Mendes nos píncaros. Enfim, mariolices vencedoras pois decerto que lucrativas.
2. António José Seguro. No seu estilo modorrento e plácido deve rejubilar com a gélida vingança sobre a camarilha que dominou o seu partido no primeiro quartel de XXI. Há quem diga que ele é "socialista" e como tal o associe sem particularismos àquilo tudo (Costa & Sócrates). É um fundamentalismo anti-PS. Proponho um termo de comparação: o PSD de Cavaco Silva também teve um percurso ... difícil. Mas no fim daquela era podia-se encontrar algumas diferenças entre as suas elites. Por exemplo, apartar Fernando Nogueira de Dias Loureiro. Goste-se ou não do PSD. Não trato de santificar Seguro, nem isso seria aconselhável - é um político.
Troco por miúdos: votarei Seguro na segunda volta. Se o candidato socialista presente na segunda volta fosse, por exemplo, Augusto Santos Silva (que, de modo tão canhestro, o tentou ser) eu votaria André Ventura. "Malgré tout..." - agora sou eu a usar um estrangeirismo, para não me fazer compreender totalmente.
3. André Ventura. Perdeu votos em relação às recentes legislativas? É normal, são eleições de cariz diferente, e o centro-direita recebia o apelo de várias candidaturas. Mas manteve a percentagem final, o que é relevante. Segue para a segunda volta içado como destacado líder da direita. Vê - mais uma vez - sufragados temas que são fundamentais para núcleos alargados da população e que os partidos tradicionais foram desprezando: a questão securitária (que a esquerda sempre menospreza), o descontrolo imigratório (promovido pelo neoliberalismo, de facto, do BE e pelo medíocre tacticismo de Costa), a degenerescência institucional (que a memória dos escândalos financeiros e a continuada impunidade de Sócrates demonstram).
Mais importante ainda: ao que dizem as iniciais análises na imprensa, foi o candidato mais votado nos núcleos mais pobres. Os (relativamente) "descamisados" votam Ventura. E é interessante perceber que se há algumas décadas o voto "popular" (nesse sentido dos mais pobres) era considerado legitimador, virtuoso, agora políticos e imprensa consideram-no desvalorizador de quem o recebe. Sintomático da falência analítica.
Ventura é vencedor também porque estas eleições trouxeram o fim do mito das "linhas vermelhas". Pois o presidente do PSD (e primeiro-ministro) renunciou a apelar ao voto dos seus militantes e simpatizantes no candidato que se lhe opõe. Ou seja, anunciou que se considera (e ao seu partido) equidistante de Seguro/PS e Ventura/CHEGA. Como o PSD nunca teve "linhas vermelhas" com o PS esta posição demonstra, inequivocamente, que não as tem com o CHEGA.
Finalmente, Ventura é vencedor porque tem reais hipóteses de vir a ser presidente da República. Ficou a sete pontos percentuais de Seguro. Este recebeu já o apoio explícito dos três partidos à sua esquerda - que valeram 4% agora. Teoricamente terá 11% de vantagem sobre Ventura. E há, grosso modo, 40% de votos (Cotrim, Melo, Mendes) à mão de semear. Os comentadores, sempre demiurgos, afiançam que a maioria desses 40% de eleitores votará no candidato do PS. Será?
4. Cotrim de Figueiredo. Triplicou a percentagem do partido de que é oriundo nas recentes legislativas. Captou (cativou?) o voto de largo espectro dos eleitores jovens. Enquadrou e divulgou outras propostas para o futuro do país. Ultrapassou um campanha empresarial (SIC/Expresso em particular) adversa - patético aquele episódio inicial onde era anunciado como tendo 3% de intenções de voto, desonestos os episódios sucessivos em que eram apresentados os resultados dos 4 mais votados, e a sua imagem não surgia, remetido para os "secundários". Nisso mostrou que as eleições já não se ganham através do controlo dos canais televisivos generalistas (e dos jornais "de referência").
Não lhe terá custado muitos votos mas meteu "a pata na poça" ao não ser cristalino quando anunciou aquilo que vários outros vieram dizer ontem: que não apelaria aos seus eleitores para um voto em qualquer outro candidato na segunda volta. Nem tem de o fazer, tal como os outros também não têm. Se as candidaturas são individuais - como reza a retórica presidencial - não cabe aos candidatos apelar ao voto subsequente. Caberá, isso sim, aos cabecilhas dos partidos (e movimentos políticos).
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O rol dos derrotados
1. Marcelo Rebelo de Sousa: o seu epígono foi um desastre. Ainda assim li ontem alguns políticos referirem-se ao final do seu período presidencial em termos encomiásticos - normalmente escudados naquele perverso "conheço-o e etc.". Rebelo de Sousa foi um péssimo presidente. Nem vale a pena lembrar isso. E o mandato terminou ontem. Sem legado.
2. Mendes: o tal desastre. Apoiado por Montenegro, seu colega de profissão, passou anos a pavimentar este destino. Julgo que o eleitorado, ao repudiar o comentador, deixou um recado tonitruante: já não há espaço para esta forma de fazer política. O PSD (e não só) que se depure desta gente.
3. Gouveia e Melo: para que me fui meter nisto?, pensará agora.
4. Catarina Martins: "o derrotado foi o PSD" ouvi-a ontem dizer, no seu discurso final após os 2%. O Bloco já morreu, está é mal enterrado.
5. Rui Tavares: o heterenónimo Katar Moreira correra-lhe mal. Depois mandou Sá Fernandes à televisão dizer que o LIVRE é o primeiro partido de esquerda que nada tem a ver com o marxismo. Alapou-se a Alexandra Leitão fazendo-se fotografar de punho direito no ar. Ontem o seu novo heterónimo saudou, eufórico, os militantes de... punho direito no ar. Tinha tido menos votos do que o Irmão Catita. Uma verdadeira catástrofe para este recentemente anunciado "bijou" da "esquerda".
6. PCP: uma votação menor do que a que obtiveram vários "grupelhos" naqueles idos de 1970 e 1980. Na reunião de hoje do Politburo celeste, Boris Ponomarev será fustigado por Brejnev e Andropov, que gritarão "onde está o Cunhal?". Cá em baixo Putin nem receberá um breve relatório (briefing) sobre isto. Pois, no pragmatismo de estar vivo, nem lhe interessa.
7. Montenegro. Julgo que nem vale a pena argumentar. Na bancada abundam os "lenços brancos".

