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O fim da ETA

por Diogo Noivo, em 20.04.18

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Parte da longevidade da organização terrorista ETA deve-se ao êxito de uma estratégia tripartida que Gaizka Fernández Soldevilla e Raúl López Romo sintetizaram de forma certeira na frase “sangre, votos, manifestaciones”. À estrutura terrorista a ETA juntou uma constelação de partidos, organizações e associações que, entre outros objectivos, tinham como missão a ocupação efectiva do espaço público basco. A viabilidade da “causa nacionalista” e da organização que dizia protegê-la dependiam da disseminação do ideário radical que, por sua vez, exigia acosso sobre quem pensava de forma diferente. Com manifestações de rua e grafitis, com propaganda partidária, e com atentados e assassinatos selectivos, o cerco a quem não subscrevia o radicalismo basco era total. Nem as campas das vítimas se livraram de vandalismo.

Mesmo após o anúncio do cese definitivo por parte da ETA em 2011, a cultura sectária perdurou, sendo visível em casos como o da agressão a dois militares da Guardia Civil em 2016. A namorada de um destes militares, também agredida, descreveu o clima de opressão que ainda paira no País Basco ao relatar o isolamento a que foi votada e as represálias que sofreu pelo simples facto de ter uma relação pessoal com um membro da Guardia Civil. Não foi, evidentemente, um atentado terrorista, mas sim a continuação de uma prática de acosso com décadas de existência e com origem no aparelho político da ETA. Ser polícia no País Basco ainda é um crime. Não ser basco em terras da Euskal Herria é estar a mais. Ser basco e não perfilhar as teses radicais é traição.

O anúncio da dissolução da organização terrorista basca, previsto para o primeiro fim-de-semana de Maio, é a etapa que falta para finalmente se decretar o óbito da ETA. Porém, nem todos na esquerda abertzale estão convencidos dos méritos do fim da violência. Mais grave, muitos querem aproveitar os anseios de paz para, a um só tempo, indultar o passado e legitimar os argumentos que sustentaram o terror. A decadência da ETA iniciou a luta pela memória, pelo relato de um passado dolente, uma batalha travada com brilhantismo por Fernando Aramburo em Patria. A batalha pelo passado é porventura a chave da pacificação do País Basco. Por isso, a declaração de hoje, onde a ETA pede “perdão pelo dano causado”, pelo “sofrimento desmedido” no qual tem “responsabilidade directa”, é tão ou mais importante do que o anúncio de dissolução para iniciar a recuperação da convivência social e a normalização política da Euskal Herria.


16 comentários

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De Anónimo a 20.04.2018 às 11:03

Alsasua ( entre outros casos menos publicitados) põe em causa o discurso "oficial"...
O caldo de cultura continua ali.


JSP
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De Diogo Noivo a 20.04.2018 às 19:45

A violência acabou, mas as ideias e as práticas quotidianas que a ampararam continuam vivas. Em decadência absoluta, mas ainda vivas.
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De Luís Lavoura a 20.04.2018 às 11:05

Estas práticas no País Vasco (acosso, grafitis, agressões seletivas, etc) tiveram análogos muito próximos na Irlanda do Norte, da parte tanto de republicanos como de unionistas.
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De Vlad, o Emborcador a 20.04.2018 às 13:06

"Porém, nem todos na esquerda abertzale estão convencidos dos méritos do fim da violência."


https://www.quetzaleditores.pt/produtos/ficha/tolos-impostores-e-incendiarios/19197753

SINOPSE
Os pensadores e as obras mais influentes nas atitudes da Nova Esquerda são submetidos a uma rigorosa análise neste estudo cheio de erudição e de ironia.
Jürgen Habermas, Lukács, Slavoj Žižek, Miliband, Sartre e Hobsbawm, por exemplo, são estudados pormenorizadamente - com detalhes biográficos e bibliográficos.
Scruton analisa as mudanças do pensamento da Nova Esquerda desde 1989.
O resultado é uma crítica devastadora ao pensamento dominante nos média e no jornalismo atuais.
com este livro, Scruton desconstrói alguns dos mitos do pensamento politicamente correto dos nossos dias.
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De Anónimo a 20.04.2018 às 19:47

O Zizek é tão de esquerda quanto a Coreia do Norte é democrática. O Zizek é na verdade um apoiante de Donald Trump que ainda não saiu do armário (isto é, do armário da extrema-direita).
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De V. a 21.04.2018 às 20:12

Dizes isso como se fosse uma coisa má
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De Anónimo a 20.04.2018 às 14:56

Um assunto e acontecimento que veio oportunamente na semana a seguir a ter acabado de ler Pátria de Aramburo, o que me fez compreender com grande profundidade tudo o que é dito neste excelente post.
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De Diogo Noivo a 20.04.2018 às 19:47

Obrigado. Quanto ao "Patria", é um livro magnífico. Se gostou, recomendo-lhe "Los peces de la amargura" e "Años lentos".
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De Sarin a 20.04.2018 às 15:06

Um pedido de desculpa é um assumir público do erro e da responsabilidade.
É um passo de gigante.

Mas lembro-me dos vários cessar-fogos, passos gigantescos os primeiros, quase irrelevantes os que se lhes seguiram, e pergunto-me se é a ETA quem pede desculpa ou apenas os actuais cabecilhas. Desejo o melhor, mas não o espero para já.
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De Diogo Noivo a 20.04.2018 às 19:49

Sarar as chagas profundas causadas pela ETA demorará anos. E exigirá que se observem padrões mínimos de justiça. O caminho é longo, mas já estivemos pior.
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De Sarin a 20.04.2018 às 20:57

Muito piores, sim.
Mas o ódio existe ainda, e ainda que quem pede perdão o faça profunda e sentidamente, aqueles a quem o dirigem podem não estar preparados para o aceitar.

Feridas do terrorismo doméstico são mais profundas do que as da guerra, mesmo que civil.


Diálogo e Paz. É o que espero consigam alcançar nos próximos anos.
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De Anónimo a 20.04.2018 às 15:30

Não simpatizo de forma alguma com a ETA. No entanto, tenho a aplaudir o facto de, no dia 20 de Dezembro de 1973, terem colocado em órbita o primeiro astronauta espanhol, Luis Carrero Blanco.
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De Anónimo a 20.04.2018 às 16:11

Concordo plenamente. Foi um feito histórico. O homem saiu disparado que nem um foguetão.
(Não assino este comentário porque sei que poderia ser processado pela justiça espanhola.)
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De Pedro Correia a 20.04.2018 às 16:20

Excelente texto, Diogo. Melhor do que qualquer editorial da imprensa de hoje.
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De Diogo Noivo a 20.04.2018 às 19:49

Muito obrigado, camarada.
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De V. a 21.04.2018 às 11:03

Deve ter acabado, tal como aconteceu com o IRA e outros grupos ligados a redes comunistas, o financiamento através de redes terroristas e da produção de ópio da Coreia do Norte.

De qualquer modo o posicionamento do governo espanhol como "vitória" sobre a ETA não indicia à partida que a coisa termine por aqui. Dar pontapés em quem resigna nunca foi uma boa ideia. Cheira mais a uma interrupção.

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