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O "etno-racialismo"

por jpt, em 08.07.19

Na lusa pátria vai um burburinho por causa deste texto de Maria Fátima Bonifácio sobre quotas "étnico-raciais". Tamanho que até o director do jornal Público veio gemer um editorial, desculpando-se, uma coisa patética:

1. O texto de Bonifácio é uma borregada, monumental. Porque é um bramido de disparates, próximos da demência senil. Ou mesmo já lá. E, fundamentalmente, porque na sua vetusta patetice dá força "àquilo" que quer combater, a turba dos "étnico-racialistas". (Já aí está um texto de uma senhora do PSD, Marta Mucznikmuito actualizada no "quotismo", a mostrar como tudo se vai seguir).

2. Gritam que é um discurso de "ódio", e o tipo do Público até com isso concorda. Se é certo que o texto é uma pantomina do que é a reflexão convirá ter algum cuidado nessa invectiva, que é proto-censura. Se eu, ou outrem, disser que as testemunhas de jeová (que agora alugaram um estádio em Carnide, Lisboa, para o seu congresso) ou os seus primos da IURD são uma mole de supersticiosos ignorantes, que não se integram no racionalismo desejável, estou a fazer um "discurso de ódio"? Não. E com toda a certeza que não serei apedrejado em Lisboa. Mas será exactamente o mesmo tipo de discurso, de menosprezo mas não de "ódio".

3. Bonifácio critica o PS (por via da entrevista de Pena Pires) por causa das quotas "étnico-raciais". Este dirigente daquele partido anuncia que o PS poderá vir a assumir a tal posição "étnico-racialista" na composição das suas listas de deputados. Isso é apenas assunto desse partido, no afã de ganhar votos até à maioria absoluta. Lembro que o PCP tinha (ou tem) quotas nos seus órgãos (a maioria tinha que ser operária) e isso não chocava ninguém. Face a essa possibilidade no PS só tenho uma questão, perfeitamente legítima e empiricamente justificada: será que as lojas maçónicas já têm as tais quotas ou as vão instalar, andam os maçónicos por aí com afã a recrutar ciganos e pretos (perdão, afrodescendentes)? E é essa a questão relevante, não a tralha dos deputados Benetton que vão agitar.

4. Pelo que leio no artigo do Público em que Pena Pires é entrevistado sobre a matéria (que está ligado no texto de Bonifácio, e por essa via a ele chego) o prestigiado sociólogo deixa entender que a visibilidade pública - na tv e na política - reduz a discriminação e impulsiona a mobilidade social. E que a frequência universitária também reduz o racismo. E daí que defenda o "quotizar", tanto nas listas políticas como no acesso à universidade e também na tv - tudo isso me lembra um artigo do Público (jornal muito militante desta tralha) em que uma artista "afrodescendente" dizia ter emigrado por causa da discriminação em Portugal, pois não encontrava negros nos anúncios de shampoo, nem nas telenovelas, o que lhe causava enorme incómodo. O registo intelectual é o mesmo. Ainda que o prestígio intelectual de Pena Pires seja bem superior, e justificadamente, ao dos militantes jornalistas do Público.

5. Para qualquer tipo que queira evitar/confrontar o comunitarismo e respectiva "quotização" da população portuguesa e imigrada, para qualquer democrata republicano, a primeira coisa a fazer é mesmo pontapear a tralha bonifácia. Insalubre. E depois perceber uma coisa: o mundo não é o eixo Largo do Rato - (agora também) Buenos Aires, rua - Bairro Alto. Ou seja, o racismo será a ideologia dominante de XXI. Não se combate com a legitimação das suas falsas categorias. Nem anuíndo ao lumpen-intelectual local.


9 comentários

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De Vorph Valknut a 08.07.2019 às 09:33

Excelente texto, jpt.
Abraço
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De Luís Lavoura a 08.07.2019 às 11:19

O texto de Bonifácio é uma borregada, monumental. Porque é um bramido de disparates, próximos da demência senil. Ou mesmo já lá.

Só tive paciência para ler os dois primeiros parágrafos do texto da Fátima (e deste post). E concordo - a senhora está senil. Coitada.
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De Justiniano a 08.07.2019 às 12:13

Não acrescentaria uma vírgula!
Um bem haja,
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De Vento a 08.07.2019 às 12:18

Antes de tudo o mais, quero dizer que considero atitude discriminatória, e contra toda a razoabilidade na tão apregoada liberdade de informar, que os jornais online e alguns blogs permitam somente o acesso a leitores que aceitem cookies e outros pastelinhos em seus computadores. Isto é de um racismo elitista e cultural e a demonstração da fobia contra leitores que se vêem excluídos do acesso a esses artigos. Além do mais, a aceitação dos pastelinhos, a que chamam cookies, não passa de voyeurismo e policiamento que pode agredir a privacidade dos leitores que os aceitam.

Dito isto, também digo: Podemos? Não, não devemos! A extensão das quotas a outros grupos e ou subgrupos não passa da falsa tentativa de legitimação de quotas atribuídas indevidamente a mulheres. As quotas não passam da legitimação do racismo, da xenofobia e da desigualdade.
Por outro lado, as quotas só vêm dizer que outras raças e culturas são obrigadas a assimilar integralmente o contexto em que se inserem. Não só isto como também, retirando o livre-arbítrio e a liberdade de escolha, pretende-se obrigar a maioria da população a integrar-se em contextos culturais que de todo não pretendem.
Neste sentido, as quotas e outros mecanismos legislativos só pretendem, num contexto de molhada, acentuar guetos culturais e étnicos. O exemplo dos USA, após o término do esclavagismo, deixou claro que não se faz integração por decreto.
No fundo, o mundo ocidental pretende conduzir uma política do faz de conta para não dar conta do que realmente é.
A convivência pacífica e a tolerância não pode transformar-se em pretexto para a colonização das mentes, vá ela em que sentido for. Bem nos basta os exemplos da tentativa de colonização que se pretendeu levar a efeito em torno do azul e do rosa e também de se pretender igualar em sentido familiar - e refiro-me à adopção de crianças - pares com casais. O género jamais se igualará, por distintos que são (macho e fêmea). E a cultura também não!

Mas a existir quotas, só são legitimas as quotas de géneros alimentares igualmente distribuídos para toda a população, a começar pelos mais carenciados. Quotas igualmente distribuídas de habitação, incluindo na habitação já existente e que a especulação legislativa está a transformar em especulação imobiliária e em ordem de despejo.

Assistimos recentemente a greves de médicos e enfermeiros num SNS moribundo. Felizmente que os coveiros não entraram em greves.
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De Luís Serpa a 08.07.2019 às 13:18

Zé, viva. Importas-te de elaborar sobre as razões que te levam a considerar o texto uma "borregada monumental" e a senhora "próxima da senilidade" (as citações são de memória)? É rarissímo discordar de ti sobre o fundo; e - apercebo-me agora - ainda mais raro tu não defenderes os teus argumentos linha a linha, ponto a ponto. Não sei se será simples coincidência, mas lá que gostaria de perceber o porquê da tua oposição gostaria.
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De jpt a 08.07.2019 às 13:46

é pá, não. Talvez um dia, à frente de uma garrafa de vinho comungada a gente possa falar sobre isso, com mais detalhe. Mas assim não, e não só por estar em pleno déménager da casa, prestes ao retorno à pátria amada. É que aquilo entre as tribos muçulmanas e os africanos é um fartote de patetices. Faciais, nem vale a pena esgravatar. Até breve
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De Arlety Pin a 10.07.2019 às 15:42

Concordo que "la Bonifácio" pode ser uma tonta que escreve borregadas sem pés nem cabeça, mas serão esses "estrategos" apoiantes do sistema de quotas melhores do que ela?
Pergunto-me até que ponto esse tal sistema de quotas não será um presente envenenado. Assim de repente e sem pensar muito (como é meu lema) deixo uma simples questão (que espero seja honrada com uma resposta do digníssimo, sapiente e omnisciente Sr. Dr. JPT):

- Tal como já acontece com as mulheres, se essa tal ideia das quotas for para a frente, quanto tempo levará até começarmos a ouvir os já habituais, invejosos e imbecis comentários do género: "É preto/cigano e concluiu a Universidade com média de 16? Pfff... Não foi por mérito próprio, foi por causa das quotas!"?

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De Vento a 10.07.2019 às 23:54

Não há problema, Arlety. Se eu puxar pelo meu curriculum académico, introduzirei novas quotas de emprego para aqueles e aquelas que receberem formação através de quotas. Vai-se criando quotas atrás de quotas à medida que o preconceito for aparecendo.
Assim poderemos afirmar que Portugal é um país sem preconceito, como se poderá verificar através da criação de milhões de quotas que surgirão no futuro.

Por outro lado, em cada diploma de curso poderá averbar-se que os 16 valores correspondem a um bónus por assiduidade, que é o que os empregadores gostam de ver nos trabalhadores. Um empresário não se importa com as notas da faculdade dos trabalhadores; importa-se com a assiduidade, se está disposto a ganhar pouco e a fazer horas extraordinárias sem pagamento extra. O mercado quer é pessoas flexíveis, que se saibam dobrar. Chama-se a isto flexi-trabalho. Não se preocupe com o 16 que isso não impressiona.
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De Arlety Pin a 11.07.2019 às 16:07

Ah!!!! Então é isso. A ideia é ir criando quotas sucessivas até acabar com o preconceito. Muito me conta, Sr. Vento. Muito me conta.
Eu, por exemplo, gosto muito de cantar e de dançar, mas ninguém gosta de me ouvir cantar (porque há o preconceito de que tenho voz de cana rachada) e muito menos de me ver dançar (porque há o preconceito de que quando danço pareço estar a sofrer um grave ataque de epilepsia, já para não falar de preconceito de que já tenho idade mais que suficiente para ter juízo). Sendo assim, vou já exigir uma quota qualquer que me permita frequentar o Conservatório de Música e de Dança (e chagar o juízo dos professores, alunos e funcionários que por lá andam).
E não, Sr. Vento, não. O 16 não me preocupa absolutamente nada. E, também, há muito que percebi que tampouco impressiona quem quer que seja, caso contrário El Sócrates e El Relvas, por exemplo (já para não falar de El Constâncio e de todos daqueles inefáveis e amnésicos gestores da CGD) teriam chegado onde chegaram.
O que me preocupa são todos estes enormes vultos da intelectualidade (como La Bonifácio, El Pena Pires e quejandos) que, apesar de terem terminado os cursos com 18 (no mínimo) e de serem louvados e idolatrados em todo o país (e até no estrangeiro), nem o mais elementar senso comum possuem.

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