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O Estado vs a Vida, segundo Torga

por Paulo Sousa, em 11.04.20

Lembrei-me de um dos Novos Contos da Montanha de Miguel Torga, que fui reler.

Fala da vida em Fronteira, uma terra que apenas dava à sua gente a água da fonte. Tudo o resto vinha de Fuentes, em Espanha.

Ali a vida era vivida de noite a tentar escapar aos guardas, que, de espingarda em riste, guardavam o ribeiro como podiam. Os contrabandistas, por seu lado, com carga às costas, passavam o ribeiro como conseguiam.

“E se por acaso se juntam na venda do Inácio uns e outros – guardas e contrabandistas –, fala-se honradamente de melhor maneira de ganhar o pão: se por conta do Estado a vigiar o ribeiro, se por conta da Vida a passar o ribeiro.”

O conto não é extenso, fala dos aldeões, dos guardas do Estado, de disparos a matar e também de amor.

Mas foi esta dualidade que me prendeu a atenção. Trabalhar por conta do Estado, neste caso a matar, ou por conta da Vida, a tentar escapar.

Esta pequena história é uma metáfora da relação entre o Estado, que quer controlar a população, e os aldeões, que apenas desejam sobreviver.

O guarda Robalo, atraído para tais funções pela garantia de ordenado certo e a reforma por inteiro, sem disso dar conta vive dentro de uma bolha. E isso aumenta-lhe o empenho. Afirma que dispararia até contra a sua própria mãe, que fosse.

Com o correr da acção a bolha onde vive irá rebentar, mas esta visão maniqueísta de que servir o Estado é atacar os prevaricadores faz por ignorar que do outro lado desenrola-se a Vida, e Vida, escrita por Torga, com V maiúsculo.

Do alto da sua ofuscada visão do mundo, o guarda Robalo, ignora que existe Vida para além do que a sua curta vivência lhe permite enxergar. E essa curta vivência e visão serve ao Estado que o alimenta e veste. Sem disso dar conta, ele é apenas um instrumento, bem instruído, que tem a Vida por adversária. No fim de contas, o Robalo é apenas um intermediário entre os seus donos que lhe tolheram a vontade e a sua bala que em brasa é disparada contra a Vida.

Este confronto é uma parábola cheia de metáforas escrita por um rebelde que viveu, e escreveu, incomodado com a capacidade dos que conseguem reduzir a realidade a um binómio de bons e maus, e de caminho asseguram o conforto próprio. Se sempre existiram desigualdades, para quê mudar isso, especialmente se se está do lado vantajoso?

Ignoram que a Vida já existia antes do Estado e que este lhe é apenas um acrescento, e não o contrário.

No regime actualmente em vigor em Portugal, a liberdade está refém do Estado. A liberdade de Abril não é a efectiva liberdade dos cidadãos, mas apenas a liberdade que o Estado entende dar aos cidadãos. O Estado, e os que por ele falam, decide a amplitude das escolhas possíveis. Os que por ele falam sabem que há opções, que mesmo que funcionem noutras paragens, cá seria uma irresponsabilidade escolhê-las, especialmente porque isso colocaria os cidadãos fora da sua esfera.

Várias décadas depois dos contos de Torga, as fardas e as balas são diferentes, mas o confronto ente o Estado e a Vida mantêm-se e nunca terminará. Cabe a cada um de nós escolher o lado onde se deve viver a Vida.


30 comentários

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De jo a 11.04.2020 às 13:18

No caso particular dos contrabandistas, estes viviam do Estado. Quando os estados decidiram a livre circulação de mercadorias os contrabandistas de Fronteira desapareceram. A vila ainda existe, parece que não dependia somente do contrabando.

O Estado é uma criação das pessoas, não é uma entidade divina externa a elas. Há países com muito pouco estado organizado, mas pouca gente quer lá viver.
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De Paulo Sousa a 11.04.2020 às 22:15

O facto de eles não existirem enquanto tal se não existisse Estado não faz com que se possa dizer que os contrabandistas viviam do Estado.
A livre circulação é hoje, com Schengen suspenso, também uma coisa do passado.
E sobre a existência do Estado ,é claro que tem de existir, até por oposição ao conceito de liberdade.
Os países podem ser mais ou menos atractivos por diversas razões. O caos não interessa a ninguém. A questão não se prende entre 0% Estado ou 100% Estado. No nosso caso a necessidade é menos estado que o que temos actualmente.
Obrigado pelo comentário e Boa Páscoa :)
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De jpt a 11.04.2020 às 13:56

Muito bem
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De Paulo Sousa a 11.04.2020 às 22:16


Boa Páscoa!
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De Vorph "Girevoy" Valknut a 11.04.2020 às 14:11

Do melhor que tenho lido, aqui no DO.

Com entrada directa para a Antologia Delituosa
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De Paulo Sousa a 11.04.2020 às 22:18


Um abraço
Boa Páscoa
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De Anónimo a 11.04.2020 às 14:18

Vocemecê é mais pessimista que eu, carago!

Parte daquele horrível problema que era a gentrificação está resolvido e já se sabe quem é que vai pagar.



Smoreira
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De Paulo Sousa a 11.04.2020 às 22:21

O pessimismo é uma mistura de defesa anti-aérea com optimismo + informação.

Boa Páscoa!
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De o cunhado do acutilante a 11.04.2020 às 14:47

No fundo nada mudou. Com apenas a particularidade de muito mais civilizadamente se metamorfosear o matar por suprimir. Não mata a bala, refreiam-se as liberdades.
E a vida segue.
Por acaso e numa conjuntura diferente, também passei por isso. "Trabalhar por conta do Estado, neste caso a matar, ou por conta da Vida, a tentar escapar."
Consegui após quase quatro anos de emprego, dar conta do recado,- dos dois, - outros, crianças como eu, não tiveram tanta sorte.
E a vida segue.
Segue sempre. Para quem cá anda.
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De Paulo Sousa a 11.04.2020 às 22:27

As metáforas, em mãos erradas, são perigosas como balas em brasa contra a Vida.
Boa Páscoa!
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De Anonimus a 11.04.2020 às 14:49

Costa já veio afirmar que com ele não haverá austeridade.
Eu li "preparem-se para eleições antecipadas".
E vós?
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De Anonimus a 11.04.2020 às 14:55

Enquanto se pede "responsabilidade", pergunto...
Que fazer àqueles senhorios que terminavam contratos de arrendamento em Maio para que pudessem alugar ao dia a turistas durante o Verão? Ou aos restaurantes e hotelaria que aumentaram os seus preços e desprezaram os (fiéis) clientes nacionais?
É dar a mão ou chamar à responsabilidade?
Expliquem Costa e Centeno a lógica de, em tempos de franca expansão, Estado e privados recorrerem ao endividamento e ignorarem a poupança, até que chegando uma recessão, a opção seja mais endividamento. Não percebo nada de ciências económicas, sociais ou da razão, limito-me a dar uns toques nas "exactas", assumindo portanto total ignorância no assunto.
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De Paulo Sousa a 11.04.2020 às 22:31

O Costa podia agora apoiar a restauração, baixando-lhe o IVA para 12% por exemplo …


Boa Páscoa!
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De Costa a 11.04.2020 às 15:31

O noticiário das 15:00, na RTP 3, abre, em advertência aos intoleráveis contumazes e em demonstração da determinação das autoridades, com o anúncio do número de detenções, nas últimas 24 horas, por violação dos novos e patrióticos deveres que os contribuintes devem adoptar. As autoridades tendem a ser muito determinadas, assertivas, como agora se diz, para com os cidadãos pacatos. Assim o fossem com outros, para com (ou contra) os quais nunca há meios, humanos ou materiais, e sempre sobra garantismo e ideologia.

Depois prossegue, na mesma prestação de notícias ao povo ignaro, pela emissora pública de televisão, com a notícia de que o sr. primeiro-ministro afirma não ir repetir a austeridade de há dez anos (admissivelmente, sendo ela necessária, será outro a dar a cara por ela; o actual sr. primeiro-ministro recolher-se-ia, recolher-se-á, em casto e ofendido distanciamento, esperando outros dias) e a notícia de que - coisa muito importante - não prevê a necessidade de cortes salariais na função pública.

Polícia sobre o povo (algum, o fácil de atemorizar) e tranquilidade para a função pública. Para os Robalos, portanto. Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.

Costa


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De Paulo Sousa a 11.04.2020 às 22:36

A vida é um carrossel. Os Robalos andam sempre por aí, mudam de farda e de arma, mas não arredam pé.
E o Sr. Costa sabe-a toda, quando o chão abanar procura uma porta, não para se abrigar, mas para se escapar.

Boa Páscoa
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De Anónimo a 11.04.2020 às 17:01

Boa tarde ,
só passei para agradecer e desejar uma boa Páscoa a todos os elementos deste blog e também aos comentadores que fazem com que este período de confinamento se torne mais agradável e ao mesmo tempo de aprendizagem.
Muito obrigado .
Luis Almeida
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De Paulo Sousa a 11.04.2020 às 22:38

Não sei se é o Luís Almeida que conheço mas em todo o modo agradeço e desejo-lhe também uma Boa Páscoa.
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De Anónimo a 11.04.2020 às 23:28

Não nos conhecemos mas isso é o que menos importa , o mais importante é mesmo a qualidade e diversidade e liberdade de opinião deste blog , algo que com esta crise começa a faltar sobretudo o respeito pelas opiniões que não seguem o pensamento oficial .
Luis Almeida
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De Paulo Sousa a 12.04.2020 às 01:05

Sem leitores a coisa perdia a graça toda. Nós é que agradecemos.
Um abraço

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