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O enigma alemão

por Luís Naves, em 04.06.16

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Um líder alemão que chegasse ao poder em 2005 e projectasse o futuro do seu país para 2020 veria algumas perspectivas desoladoras e outras sombrias: declínio demográfico e envelhecimento rápido da sociedade, complacência em casa e incertezas no flanco leste, a Europa pouco interessada em aceitar a liderança de Berlim ou o reforço da integração, problemas de competitividade no horizonte, um país com dificuldades em abrir as portas à globalização ou ao multiculturalismo. Em 2020, a Alemanha teria dependência energética de tecnologias idosas e perigosas, taxas de crescimento medíocres, sistema político instável, comunidades fechadas, em resumo, seria uma bolha em declínio.

Não sei se estes elementos conduziram a actuação de Angela Merkel, mas muito do que ela decidiu na política interna, na crise financeira, nas dívidas soberanas, no caso da guerra na Ucrânia ou na recente crise migratória pode ter partido de cálculos de médio e longo prazo baseados nestes problemas. A chanceler tem sido pouco compreensível para os seus contemporâneos. Que Europa está a construir? Este é o grande enigma.

O facto é que a Alemanha, pela primeira vez, não tem qualquer potência hostil na sua fronteira. Os políticos não se cansam de dizer que pertencem à primeira geração de alemães nascida em paz e que vai morrer em paz. A Alemanha não aumenta mais depressa o orçamento militar porque iria alarmar todos os vizinhos, caso pagasse em defesa a percentagem do PIB pedida pela NATO. A Alemanha tinha um problema demográfico e aceitou em poucos meses mais de um milhão de imigrantes e refugiados; Merkel não parece ter dúvidas em elevar a fasquia dos muçulmanos no seu país, dos mais de 5% que existiam em 2009 (segundo estimativas consideradas fiáveis) para um valor muito mais elevado que, em 2020, pode facilmente ser superior a 10% da população, admitindo que o fluxo migratório é travado amanhã, o que é improvável, pois a Turquia exige a abolição de vistos para impedir a passagem dos migrantes, o que resulta em mais imigração turca.

 

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A chanceler Merkel governa por consensos, reage sem pressa, é elitista e detesta populismos, faz alianças que prejudicam os partidos com quem se alia, tem amigos em governos europeus que deixa cair sem pestanejar, impõe aos aliados medidas que sabe serem politicamente impossíveis, parece ter entre as suas preocupações a ideia de que a Alemanha precisa de ser mais forte, mas apenas se conseguir nesse processo expiar as suas culpas históricas. Merkel não suporta desafios e tende a esmagá-los sem remorsos, prefere negociar no sussurro dos gabinetes e tem uma imagem pública de austeridade na forma, de ambiguidade na palavra, de ausência de humor, em contraste com o que se diz que ela é em pessoa.

A Alemanha que Merkel imaginou para 2020 é uma potência global, com população em crescimento, mão-de-obra qualificada, tecnologicamente inovadora, no topo da pirâmide de poder mundial. Isso implica uma Europa alemã que terá menos parecenças com Roma imperial e mais com a Grécia clássica; talvez seja uma gigantesca Suíça ou um mercado de vinho que passa a ser de cerveja, com muita variedade, mas de um produto tão simples que parece uniforme quando vamos além do rótulo. A Alemanha ficará rodeada de potências próximas: França, Itália e Polónia, acompanhadas por um punhado de pequenos países com direitos razoáveis, além de vários protectorados. As periferias do núcleo duro não serão importantes, a estabilidade representará o essencial, a NATO terá papel secundário, a rivalidade com a Rússia tornar-se-á intermitente, marcada por episódios regulares de abrandamento. Os Estados terão menos importância, as regiões serão a base da integração acelerada, sob liderança alemã: discreta, burocrática e pacifista.

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7 comentários

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De lucklucky a 04.06.2016 às 17:14

É só contradições lógicas, numa só frase e entre frases:

"A chanceler Merkel governa por consensos, reage sem pressa, é elitista e detesta populismos"

"A chanceler tem sido pouco compreensível para os seus contemporâneos"
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De Luís Naves a 04.06.2016 às 18:42

Só mesmo você para encontrar contradições onde elas não existem. Admito que haja contradições em outros pontos do texto, mas relendo estas frases...
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De lucklucky a 04.06.2016 às 19:16

Como é que se governa por consensos sendo elitista e sem ser com populismo?

Como é que se "governa por consenso" sendo "pouco compreensiva com os seus conterrâneos"?
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De Luís Naves a 05.06.2016 às 10:47

Convém ler antes de disparar. Não escrevi "compreensiva", escrevi "compreensível". Significa que a opinião pública tem dificuldade em compreender o que ela decide, pois Merkel não leva em consideração apenas o momento, mas está a pensar nas jogadas seguintes, como qualquer bom jogador de xadrez.
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De lucklucky a 05.06.2016 às 16:55

Como é que pode existir consenso se as pessoas não entendem?
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De cristof a 04.06.2016 às 18:01

A Alemanha está rodeada de países que a invejam e minam ; suportam mal que a Sra Merkl num fim de semana em Nairobi , assine 70 mil milhões de contratos com as empresas locais e alemãs.
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De Vento a 04.06.2016 às 20:09

A Alemanha sempre foi hostil a si mesma. Nunca teve qualquer potência hostil próxima de suas fronteiras. Bismark pensava que sim, por isto mesmo firma uma aliança com a Rússia (1881). Mas os seus sucessores quiseram, com a unificação alemã, transformá-la numa potência. E não conseguiram renovar a aliança com a Rússia. Quem tem ambições de grandeza vê inimigos em toda a parte. E também desencadeia inimizades.

A Alemanha não lidera nada, e não terá condições para liderar uma união. A incapacidade que revelou em todo o processo das denominadas crises soberanas, assim como a nefasta percepção sobre a queda do Lehman, conduziu à ascensão da França e Itália na determinação do futuro Europeu. Aliás, o Brexit é por demais demonstrativo da ineficácia alemã na condução de uma qualquer união.

A tradicional subjugação portuguesa ao paternalismo, que gera conforto nas gentes deste povo, pois assim evita-se ter de pensar, gosta sempre de ver alguém a conduzir seu destino. Assim sucedeu, catastroficamente, de 2009 a 2015.

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