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O discurso do 10 de Junho (3)

por jpt, em 12.06.19

jmt.jpg

Discurso de João Miguel Tavares em Cabo Verde.

Para um tipo como eu, português que passou duas décadas numa antiga colónia portuguesa, e que sonha com a hipótese de um dia (algo distante, se possível) lá ir morrer , e que ainda para mais por lá leccionou durante 15 anos, ler um texto destes, proferido num discurso comemorativo do dia nacional português, é momento de júbilo. O que Tavares diz sobre o colonialismo (português) mas não só, o que desmonta da perene ficção da "excepcionalidade portuguesa", o que se afasta explicitamente da loa "lusotropicalista", o que diz sobre "responsabilidades históricas" nacionais, o que diz sobre a reprodução das desigualdades no nosso território nacional, a perenidade da estratificação social que se alimenta dos fenómenos migratórios oriundos do anterior contexto colonial, o que diz sobre a necessidade de as combater, entendendo-as como fenómenos de "classe" ainda que sem descurar as suas componentes culturais e linguísticas, e, fundamentalmente (porque intelectual português), o que diz sobre o ensino multilinguístico, e a necessidade de fixar, preservar as línguas africanas e introduzi-las no ensino, em particular considerando a responsabilidade histórica de Portugal de nisso contribuir e de a isso proceder no próprio ensino oficial português, é um inusitado acto de civilização. Totalmente ao invés do pensamento dominante português, seja no espectro dos intelectuais profissionais, seja, e principalmente, no mundo das organizações estatais e para-estatais e seus funcionários.

Será talvez mais fácil perceber que Tavares aqui repudia a reemergência da ideologia racialista, actualmente conduzida pelos movimentos da esquerda neo-marxista, identitarista. Mas o que é importante perceber, que será talvez mais difícil de atingir às pessoas distantes destes contextos laborais, é que Tavares, em plena comemoração do dia de Portugal decorrida numa ex-colónia, clama pelo abandono - quem me dera que fosse definitivamente - da  noção de lusofonia, e todos os seus implícitos efectivos. Uma noção que é a cristalização dos pressupostos coloniais - não digo colonialistas, nem mesmo neo-colonialistas mas coloniais. Uma noção que foi desenvolvida pelos intelectuais socialistas no após-descolonização, e foi-o porque eles eram culturalmente herdeiros do Partido Republicano, o grande partido colonialista português (e convirá lembrar a tardia recusa do colonialismo pela oposição portuguesa: os comunistas, grosso modo, somente a partir de meados de 1950s, a "oposição democrática" de facto apenas desde finais de 1960s por Mário Soares, mas mesmo assim com  pouca adesão de outros, como se vê mesmo durante o início de 1970s). E que de imediato colheu agrado junto de outros núcleos intelectuais, desde os mais ligados ao antigo regime aos então oposicionistas brasileiros, que sonhavam um Brasil potência - algo que veio a encetar-se durante a presidência Lula.

É um grande texto, é uma grande reflexão, é uma grande visão. Vénia, caramba, vénia a João Miguel Tavares. O que está aqui é um verdadeiro discurso de "esquerda", naquele velho sentido que se lhe deu, "progressista", "crítico", "iluminador". Confesso que não esperava que surgisse em tamanho contexto, ainda para mais vindo de um tipo que conheço de nacos do "Governo Sombra" - programa que não sigo - e de textos de opinião no Público, de que às vezes gosto outras não tanto. 

E será também um texto que poderemos confrontar com o que os "lusófonos" do Estado ou com o Estado,  esse núcleo cultural e profissional PS, esses que durante estas últimas décadas têm usado uma lente ignorante e ineficaz nas relações com África (não apenas a das ex-colónias portuguesas), pensam sobre o real. Ou, por outras palavras, para perguntarmos: afinal quem é que é de "direita"?

Em suma, até porque escrevo isto de rajada, repito-me: minha Vénia a João Miguel Tavares. 


16 comentários

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De Vorph Valknut a 12.06.2019 às 12:38

Duas ou três questões:

A repetição das desigualdades sociais é transversal à raça. Quem nasce pobre neste país, ou noutro, tem boas probabilidades de pobre, morrer.

Gostei sobremaneira quando JMT critica essa mania, bipolar, da excepcionalidade portuguesa ( temos a melhor Selecção de Futebol, a melhor Policia, os Comandos são melhores que o SAS....e tretas deste género) afirmando, com razão, que não sendo nós os melhores do Planeta, em coisa alguma, somos capazes de feitos excepcionais.

Quase concluindo, e por falha minha (não sou de Estudos Sociais) isso da politica identitarista, neo-marxista é exactamente o quê?

Referir também que, por vezes, as minorias - negros, ciganos, "árabes".... - ao não se integrarem, não aceitarem a cultura do país onde vivem ( essa aceitação é quase sentida como uma traição aos principios da sua própria cultura, uma cultura, esta, nascida frequentemente de uma contra-cultura anti-ocidental - o Ocidente como o grande Satã) condenam-se às margens da sociedade, que sendo a nossa, deveria ser também a deles.

Lembro-me que nas comunidade marginais ( de margem) os mais novos ao tentarem dela sair, pela aplicação na Escola, etc, são apodados de quererem ser " brancos", "betinhos"....

Focamo-nos demasiado em nós na procura da Culpa ( visão racialista??), quando deveriamos, de forma desassombrada, olhar também para o "outro" mais os seus particularismos culturais que negam uma salutar convivência.

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De jpt a 12.06.2019 às 15:21

há quem lhe chame, com evidente défice, "marxismo cultural", epíteto que, apesar das fragilidades, está muito na moda
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De Vorph Valknut a 12.06.2019 às 13:44

JMT, esqueceu- se, julgo eu, que a mobilidade social, vista no pós 25 de Abril, não se deveu a uma fibra diversa das gens de então.
O país é que era muito diferente, faltando quadros especializados, nas mais diversas áreas, permitindo que quem tivesse alguma formação superior se empregasse no Estado, motor da economia nos pós-revolução. Foi o Estado e não o tecido empresarial português (protegido da concorrência externa, por tarifas alfandegárias, e dependente quer de uma mão de obra quase escrava, sem direitos alguns, quer da borla das matérias primas ultramarinas ) que permitiu o tal "mudar de vida" dos "pais do JMT". Foi pelo Estado e através do Estado que muitos portugueses se desatascaram.

Preocupante é em 40 anos de democracia pouco, ou nada ter mudado, não sei se por culpa do Estado , se da inércia dos "empresários" portugueses.
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De Anónimo a 12.06.2019 às 16:05

Se mudar de vida é alargar o emprego no Estado, e esmagar qualquer rasgo de iniciativa e autonomia individual, não haja dúvida que somos um país bem sucedido.
Mas vamos ser justos e colocar toda a população activa portuguesa a trabalhar para o Estado, para que possa demonstrar as suas qualidades e competências.
Sempre se poderá aferir se conseguem pagar-se a si próprias.

Isabel
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De Vorph Valknut a 12.06.2019 às 17:14

Não foi isso o que disse. O que quis dizer foi que, a bem dizer, o emprego, em Portugal, gravita, directamente/indirectamente em torno do Estado.


Louvo os micro-pequenos-médios empresários porque, por uma lado têm o Estado, que lhe come tudo, do outro as "multinacionais", congeminadas com o Estado, que não deixam comer os mais pequenos….mas tudo isto é banal…

"Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer!"

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De Vorph Valknut a 12.06.2019 às 17:19

Isabel enquanto a divida externa for de 125% do PIB e as politicas de estabilidade orçamental nos obrigarem a défices de 3%, ou menos, não há liberdade económica, nem politica.

E sejamos francos, a famigerada Reforma do Estado não é passível de ser realizada em democracia.
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De Anónimo a 12.06.2019 às 22:05

Desculpe-me o mau-feitio inicial.

Então, como sair da cepa torta?

Renegociar a dívida, como propõe o PCP e, de seguida, suspender a democracia, como propunha a MFL?

Ou isso, ou zangarmo-nos muito até ficar claro que não é verdade que há falta de funcionários públicos (apesar dos sound bites baseados em estudos da união europeia). Que temos uma administração pública ineficiente, onde existe duplicação, triplicação (por aí fora) de funções. Que é necessário que os trabalhadores da função pública e do privado saibam o seu peso (custo) e os seus objectivos (rentabilidade) na estrutura onde se inserem. Que não podemos continuar a aceitar que a orçamentação dos gastos públicos (adjudicação de obras e serviços) seja feita à toa, empolando dissimulada e posteriormente os custos para sossegar a boca faminta de (empresas) Estado-dependentes. Que não podemos continuar a aceitar a corrupção como dado adquirido, nem a desfaçatez da alta gestão das grandes empresas, que vive de benesses do Estado, e esfola vergonhosamente a população lá do alto, sejam Salgados já incomodados por essa maçada que é prestar contas à justiça, sejam Antónios Mexias, ainda lá instalados nas suas torres de Marfim.

Ou, então, deixar andar. E ir lendo os Sermões, para ‘encaixar’ melhor o mundo e desanuviar.

Isabel
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De Vorph Valknut a 12.06.2019 às 23:41

Sinceramente? Acho que é melhor deixar andar. E ir lendo os Sermões, para ‘encaixar’ melhor o mundo e desanuviar.

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De paulo ferreira a 12.06.2019 às 14:24

Um verdadeiro discurso de " direita ", isso sim.
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De Luís Lavoura a 12.06.2019 às 14:47

É de facto um grande, belo discurso.
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De Anónimo a 12.06.2019 às 15:06

Ainda não li o discurso do JMT em Cabo Verde. Mais logo vou lê-lo com a atenção que ouvi o de Portalegre.
Do que conheço do GS e do Público, sei que pensa, uma originalidade neste burgo de intelectuais cheios de adquiridos que não resistem à prova dos factos.
O JMT, de quem se zomba por nem sempre saber usar a gramática e parecer pôr em causa o Estado de Direito, tão caro como figura de estilo a ilustrados preguiçosos, é dos que se dá ao esforço de ponderar além dos dogmas ideológicos. Não custa perceber a coceira que provoca em quem está agarrado aos chavões.
No mínimo refrescante.

Isabel
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De Manojas a 12.06.2019 às 19:53

Em resumo: Nós somos os bons, eles são os Maus. Dantes tudo era bom e agora tudo é mau. O comissário Tavares, o saudoso ex-jornalista do Correio da Manhã, com o seu exaltante discurso deve ter deixado muito satisfeito o P.R. pela escolha que fez. ABRENÚNCIO!
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De Vento a 12.06.2019 às 22:05

O discurso de João Miguel Tavares resume-se a uma única expressão: "Tu Contas".
Porém como só se fazem contas, é natural que "Tu" não contes.

Já agora:
https://www.youtube.com/watch?v=DIhNyQIpYNo
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De V. a 12.06.2019 às 23:36

Por acaso não acho. Isso das responsabilidades históricas é uma treta. Ou agora os italianos têm de gramar connosco só porque nos invadiram há uns séculos atrás? Ensino instituído de línguas não oficiais por causa desses complexos ainda é mais ridículo. Escolas particulares que façam isso tudo bem, é lá com elas.
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De Vorph Valknut a 12.06.2019 às 23:55

Subscrevo. Até porque as próprias comunidades podem associar-se (lei das associações) na defesa do seu património cultural.
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De V. a 12.06.2019 às 23:51

Em suma, o JMT começou muito bem mas aparvalhou-se rapidamente. Já não estou com ele. Durou 1 dia...

... Hélas.

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